02 dezembro 2007

Boogie Woogie - Passagem do Bastão

Sou como muitos, acho o funk carioca horrível. Péssimos cantores, batida repetitiva e temas nem sempre interessantes, mas tenho de admitir, é uma forma de expressão das ruas, principalmente, das favelas, como um dia foi o samba. Esta é a história da troca de guarda.

Os morros mais antigos e tradicionais foram formadores de Escolas de Samba, no Rio de Janeiro. A existência de uma sempre esteve intimamente ligada a outra. Grandes agremiações como a Mangueira ou Escolas totalmente desconhecidas como a Unidos do Cabuçu. As comunidades sempre forneceram a alma e a criatividade para as Escolas, assim como seus compositores e as famosas baianas, escolhidas entre as mais tradicionais famílias moradoras das favelas que compõem a área da agremiação. O Boogie Woogie como toda a favela da cidade do Rio de Janeiro, também, participava de uma Escola de Samba: a União da Ilha do Governador.
A Escola já esteve entre as grandes do Rio de Janeiro, como sambas históricos como: O que será?, Domingo e Festa Profana. Alguns dos sambas enredos chegaram a ser gravados por grandes nomes da música popular brasileira, como: Caetano Veloso e Simone. Este passado de sucesso sempre foi mantido por duas grandes instituições da agremiação: a bateria e seus compositores. Os compositores, em sua maioria, eram da comunidade e seguiam tradições familiares dentro do samba. Assim era a família Moreira, em que o patriarca da família tinha sido compositor da União da Ilha e seu filho. além de compositor, foi, também puxador da Escola. O que tudo indicava que a terceira geração seguiria os passos de sucesso dos antepassados. Lucas Moreira, quando tinha seis anos, já acompanhava o pai nas rodas de samba. Tocava tamborim como ninguém e reservaram um lugar de destaque para ele em um bloco de rua, formado apenas por crianças. Pai e avô consideravam-no um legítimo sucessor das tradições sambistas da família.
Faziam tudo para convencê-lo a seguir os passos da família. O avô sempre repetia, mostrando uma antiga fotografia, que havia composto um samba para o Chico Buarque e tinha até mesmo tirado uma fotografia com ele. Logo depois de exibir a foto pela milésima vez, o avô cantava o samba que tinha composto para o Chico. O pai mostrava, então, a gravação e sua participação no disco do Dominguinhos do Estácio, um famoso puxador de samba carioca. Além dos pais, as mães, também, influenciavam Lucas a tomar a mesma direção do pai e do avô. Acreditavam que ele poderia ir ainda mais longe que os dois.
Lucas foi bem mais longe do que eles, mas não na direção que a família desejava. Lucas descobriu no colégio o funk. Conheceu alguns garotos mais velhos que iam a bailes e seguiu com eles a trilha desta nova experiência. Tentou conversar com o pai e o avô sobre aquele som inusitado e com uma batida tão dançante quanto o samba deles. Mas o pai e o avô não quiseram ouvir nada a respeito desta "gritaria" que nem podemos chamar de música. A atitude deles acabou jogando o garoto Lucas para mais próximo do funk. Começou a escutar os MCs e a ouvir os discos das equipes de som como: Furacão 2000 e Cash Box. Adorou aquela batida contagiante. Ficou ainda mais fascinado quando foi a uma festa com participação do DJ Marlboro. O som, as luzes, as meninas, tudo dentro do baile o enfeitiçou e encantou de forma irremediável. Ele seria um MC, foi a decisão que tomou naquela noite.
Lucas foi até um amigo que tinha tudo sobre funk, pegou alguns CDs, revistas e roupas emprestadas. Começou a ouvir tudo e experimentar tudo relacionado ao funk. Conheceu garotos e garotas do colégio fascinados pela sonoridade funk. Conheceu material da antiga e sangue novo das carrapetas. Estudou sintetizadores e batidas eletrônicas. Colocou todo o purismo de lado e percebeu a forma como os garotos do morro ficavam fascinados por aquela música, cantando-a em todas as esquinas. Os temas das músicas eram mais próximas da realidade dos meninos e meninas do morro, falavam de coisas que se via todos os dias nas ruas da favela. Seja sobre violência ou seja sobre sexo. Mesmo quando as músicas falavam sobre o amor, eram marcadas por uma leitura totalmente particular que falava diretamente aos novos anseios e dúvidas dos adolescente do morro. O funk estava substituindo o samba como linguagem das ruas dentro das favelas. Lucas sentiu isto dentro da alma e do corpo.
Lucas compôs um funk falando da transição do samba para o funk nas ruas do morro onde morava. Preparou a roupa, conseguiu o equipamento e convidou algumas amigas de corpo bonito para serem suas dançarinas. Quando aconteceu uma festa na própria União da Ilha para apresentação de novos talentos da comunidade. Lucas achou a oportunidade perfeita para mostrar seu futuro aos pais e aos avôs. Convidou-os a todos para a apresentação, sem mencionar o que iria fazer. Todos foram pensando que ele cantaria algum samba que compôs, como toda a família antes fizera.
Acomodaram-se na primeira fila e pacientemente esperaram o mais novo Moreira entrar oficialmente para o mundo do samba. Quando chegou a vez de Lucas, a família estranhou, pois não viu tantans e nenhum instrumento de percussão, nem mesmo um violão. Como pode? Ele vai cantar à capela? Será? Todos se perguntavam. O pior veio a seguir quando carregaram para o palco uma estranha mesa com toca-discos em cima. Ligaram aquela parafernália eletrônica, luzes se acenderam e uma batida sintetizada começou a soar pela quadra. Duas meninas dançando de forma provocativa entraram no palco e ficaram dançando por alguns segundos, parecendo que iriam fazer sexo uma com a outra dentro de alguns segundos. Foi quando Lucas entrou no palco, cheio de cordões e com um óculos escuro anos sessenta e um boné de equipe de basquete americana. Ele começou a cantar aquela música ofensiva e agressiva, acompanhando a ritmada e constante batida sintetizada do funk.
Primeiro, houve uma certa revolta. O avô queria ir embora e começou a gritar palavrões e insultos para todas as direções. O pai ficou perplexo e não queria acreditar naquilo tudo. Como podia ser verdade? Mas a mãe e avó prestaram a atenção no que o menino estava fazendo. Prestaram a atenção na música, na letra, nas roupas e no show muito bem realizado. Era bem profissional e correto. A música podia não agradar aos ouvidos da família, mas a letra da música era inteligente e bem feita. O garoto sabia cantar, também! Não desafinava e nem berrava, tudo estava no perfeito andamento e ritmo. O trabalho era "digno de nota". Elas seguraram o braço de seus respectivos companheiros, fizeram-nos sentar e ouvir até o fim.
Lucas não ficou abalado nem quando o avô começou a gritar e xingar. Profissionalmente, continuou a cantar e dançar. Sua equipe permaneceu perfeita, sem pestanejar nem por um memento. Nada falhou ou deu errado. Cada memento ficava mais seguro do que queria fazer. Quando viu seu pai e seu avô sentando-se para assistir o final da apresentação, ganhou ainda mais confiança e teve vontade de chorar. Não fazia aquilo como afronta a eles, mas fazia aquilo porque sabia que aquela era a nova linguagem das ruas da favela onde morava. Era a nova forma de comunicação dos jovens moradores das favelas de falarem sobre si mesmos, de seus desejos, suas vontades e sonhos, como um dia foi com o samba.

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