26 janeiro 2008

Poesia - Vegetatitvo

A vida é algo difícil de compreender, quanto mais saber exatamente como se comportar diante dela. Muitos críam uma casaca para defender-se do mundo cruel externo, mas será que esta é a verdadeiro caminho para viver? Nosso poeta nos confronta com isto.

VEGETATIVO

Inerte existência de
Vegetativa forma,
Árvore seca
Entre tantas floridas.

Morta está desde o nascimento
Pois não conheceste flores,
Senão, apenas espinhos.

Pereceste sobre tuas próprias
Raízes,
Cujo envenenado alimento por elas
Lhe foi transmitido.

Não deixou a natureza
De lhe oferecer a criadora chuva,
Na eterna tentativa de recriar a vida,

Porém, a grossa casca com a qual se revestiu,
Repeliu a água
Que o livraria da esterilidade
E o conduziria ao mundo dos vivos.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Tonteírias, mujer!

Deveríamos aprender com os erros do passado, não? Parece que, este escritor que vos fala, não tem esta capacidade. Vejam porque no conto aí embaixo.

Eu nunca vou entender as mulheres! Nunca, mesmo! Expurgo meus pecados todas as semanas aqui neste blog, mas continuo sem conseguir este ato simples, mas de imensa dificuldade. Confesso minha ignorância total! Mas por quê deste desabafo? Simples, após um ano de vida do blog, continuo cometendo as mesmas besteiras e vivenciando as mesmas situações, que todas as semanas escrevo sobre elas. Pensei, até mesmo em não contar isto aqui, mas não posso fazê-lo sem me colocar como uma pessoa falsa, já que conto sempre estórias de terceiros bem próximos a mim. Esta sou o protagonista, ou melhor dizendo... o antagonista deste conto.
Me apaixonei por uma colega de trabalho, tentei conquistá-la mostrando meus sentimentos e cortejando-a, mas não funcionou. Ela estava apaixonada por um grande amigo meu que, também, trabalhava no mesmo lugar. Nada errado com isso, pelo contrário, achei a decisão dela a mais correta possível. Ele era mais jovem, bem mais bonito e tinha uma situação mais estável que a minha. O relacionamento aconteceu e esqueci dela. Mas tenho que confessar, sempre fica aquele gostinho de derrota no ar, não? A rejeição sempre é difícil de lidar. Por mais que diga que não, você sempre fica um pouco ressentido e quer uma revanche.
Pois bem, ela veio! Algum tempo depois de ser rejeitado, a menina por quem estava atraído, terminou seu relacionamento com meu amigo. Voltamos a trabalhar junto e confesso que todo o sentimento anterior retornou, como se nunca houvesse sido rejeitado por ela. Acabamos saindo e iniciamos nosso namoro. Apesar do meu forte desejo por ela, o relacionamento estava morno e sem graça, na verdade, estava bem chato, pois não tínhamos quase nada a ver um com outro, mas fomos empurrando com a barriga aquela estória toda errada. Ninguém gosta de admitir que errou.
Tive que fazer uma viagem no mês de setembro e fiquei cinco dias fora. Em uma noite, conheci uma menina e acabei indo para a cama com ela. Normal! Mas percebi, então, que, realmente, não gostava da minha namorada, só queria dar a famosa revanche as rejeição que sofrera, ou seja, estava completamente errado. Para expiar a culpa, assim que acordei, liguei para ela para pedir desculpas e acabar com o relacionamento. Escutei quase uma hora de xingamentos e desaforos pelo telefone, merecidos naquele memento. Escutei tudo sem reclamar, um verdadeiro cordeirinho de sacrifício. Sabia que o merecia, apenas queria terminar toda aquela estória ali mesmo, sem epílogos.
Quando voltei, imaginei que a única coisa que ela gostaria de fazer, era olhar para a minha cara de safado. Evitei-a no trabalho, mas ela fez questão de arranjar um memento na hora do almoço para me dar uma esculhambação daquelas. Já estava um pouco exagerado aquilo tudo, mas havia me comportado mal, tinha que aguentar. Mea culpa! Foi quando tudo mudou! O meu amigo (Mas que amigo!), o ex-namorado dela, veio conversar comigo. Começou tentando explicar algo que não estava entendendo patavinas. Me pediu desculpas e disse que não queria fazer aquilo, mas tinha sido muito forte e eles tinham assuntos não resolvidos e etc e tal. "Mas de que diabos tu tá falando?!" me irritei. Então, ele me contou que estava saindo com a minha querida "namorada" a mais de dois meses e que estava com ela no memento em que eu havia ligado. Ele não queria ser o motivo do fim de nosso relacionamento, mas aconteceu. Ele não podia estar falando sério! Dois meses que eu era corno! Porca miséria! Isto é uma tremenda sacanagem! Eu me sentimento o pior homem do mundo... e era apenas o maior idiota do mundo. Fiquei com uma raiva do tamanho do mundo, louco para enforcar alguém. Contei até dez e pedi que ele me explicasse aquela estória em todos os seus detalhes.
É claro, que fiquei puto de ser corno, mas o que me deixou com mais raiva foram os esporros dela e a humilhação pública que ela me fez passar com seu escândalo quando retornei ao trabalho. Não consegui acreditar que me senti tão culpado pelo que havia feito. Estava me sentindo muito mais culpado pelo meu comportamento de cordeirinho. Pensei em ir até ela e dizer poucas e boas, mas percebi que o melhor era esquecer e manter a distância. Não a queria mesmo e não estava interessado nela. Tudo fora um grande erro meu e deveria usar aquela lição para nunca mais repetí-la.
No dia seguinte quando ela ligou, bati o telefone em sua cara e avisei para a minha família nem me avisar se ela ligasse. Mesmo assim, ela ligou por quase quinze dias, no trabalho tentou algumas vezes falar comigo. Disse que aquela estória estava finito e não queria nem ouvir o som da voz dela e ainda a aconselhei a voltar para o meu amigo e ficarem bem felizes. Ok, parece coisa de corno conformado, mas para mim, a melhor coisa era me livrar disto de uma vez por todas. Deveria ter sido o fim, não? Ledo engano! Ela passou a me ligar direto, terminou o relacionamento com meu amigo, quer dizer, o caso com ele, e ficou no meu pé. Chegou a fazer uma declaração de amor e dizer que eu era o amor da vida dela. Achei aquilo a mais completa loucura e não consegui me livrar dela de jeito nenhum. Tive que pedir férias e sumir por um tempo para que ela não me encontrasse mais. Dá para acreditar? Como diria um amigo meu espanhol:"Tonteírias, mujer!"

19 janeiro 2008

Poesia - Nada

Incrível como as pessoas tem limites de visão tão curtos. Pior, como querem impor estes limites a todos que os cercam. Nosso poeta demonstra sua inefável falta de paciência com estas pessoas em seus versos.

NADA

Tens ainda a pretensão de ser.

Quisera o universo contido,
Condensado,
E só assim o quisera,

No mínimo mundo que experimentaste,
No doméstico terreno
Em que pisaste,
No mesmo ar que sempre respiraste.

Tens a dimensão do infinito
No limite de quatro paredes,
Do qual jamais saíra,

Uma visão de horizonte
Que à vidraça não ultrapassa,
E um arcabouço de idéias,
Cuja extensão não rompe
Os muros de um hospício.

Neste medíocre cenário,
Construíste tua fortaleza
Na qual se acredita seguro,
E da qual desfere seus
Indiscriminados ataques.

Nunca construíste algo,
Pois com a mesma velocidade
Com que edifica
Suas construções de areia,

Quedam-se as mesmas carecendo
Da liga, cujo o uso não conheces.
És insignificante em tudo!

A irresponsabilidade de suas conclusões,
Abrem-lhe flancos de leviandade,
Julgas com a visão do seu mundo
Onde a luz lhe falta,

Condenas conforme tuas trevas,
Na esperança de compartilhar
O inferno de que é feito tua desprezível existência.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Sons Urbanos

Ouvimos todos os dias sobre tiroteios em favelas, mas como se sentem quem mora nelas? Neste pequeno conto busco apresentar algumas destas visões.

O som era distante, pareciam fogos de artifício, mas não era nenhum dia especial ou comemorativo. Meu irmão que estava sentado ao meu lado no sofá, sussurrou: "É tiros!" Não sabia como ele sabia disso, mas a vivência dele nas ruas do morro era bem maior do que a minha. Ele e meu irmão menor tinham sido mandados para casa por um cara estranho, que nenhum dos dois conhecia. E olha, para os meus irmãos não conhecerem alguém aqui do morro, tem que ser um eremita.
O som seco continuava de forma quase ininterrupta, mas parecia muito distante para incomodar. Os tiros são como o som dos relâmpagos, quanto mais fracos forem, menos perigosos são. O filme da televisão era bem mais interessante, então, comecei esquecer aquele incomodo barulho. Mas ele não esqueceu do morro, pois o som gradualmente aumentou. Senti em meus irmãos, um certo temor, apesar de serem mais jovens, eles sabiam o que ocorria dentro do morro, enquanto eu era um total alienado sobre o assunto. Percebi, então, que a cada aumento no som dos tiros, os dois começavam a cochichar cada vez mais. Minha mãe, também, começava a ficar mais apreensiva. Já não conseguia assistir ao filme da TV.
De repente, sons de passos sobre a nossa laje. Havia gente passando correndo sobre nosso telhado. Muita gente! Aquilo começava a ficar assustador para um adolescente como eu. Havia um murmúrio tomando o ar em volta de nossa casa. O beco em que morávamos não era um local com saída natural para nada. Era um beco sem saída, estreito e com muitas casas apinhadas bem próximas umas das outras. Em caso de tiros ali dentro, o estrago seria grande e as pessoas poderiam ser atingidas por balas perdidas. Eu poderia ser atingido por uma bala! Minha mãe apagou a luz da casa inteira. Meu pai ainda não havia chegado do trabalho e não havia um jeito de avisá-lo para não tentar ir para a casa. Ficar na rua, dormir na rua. Seria o único jeito para ele, mas pelo menos estaria seguro. E quanto a gente? O medo aumentava paulatinamente.
Desliguei a televisão, mas isto foi pior ainda. Sem o som da televisão, os sons da violência do tráfico invadiam nossa casa com uma intensidade ainda maior. A escuridão e o silẽncio eram ainda piores e aumentavam terrivelmente a sensação de insegurança. Naquele memento, o único som que ouvíamos era o do relógio de parede que ficava na cozinha. Minha mãe foi até o banheiro e olhou para fora pelo basculante, viu umas sombras pulando da laje de nossa vizinha em frente para o telhado da casa da Dona Zulmira ao nosso lado. Para nossa sorte, nossa laje estava um pouco mais alta que a média das outras lajes do beco, dificultando para as "sombras" passaram por ali.
Neste memento, os tiros recomeçaram. Agora estava muito próximo! O som parecia estar entrando porta adentro de nossa casa. Minha mãe veio para a sala e ficou agarrada com a gente. Meu irmão mais novo catalogava as armas de acordo com o som dos disparos. "Onde ele havia aprendido aquilo?" Era a única coisa que conseguia pensar. Vozes surgiram do nada, primeiro incompreensíveis, depois identificávamos o tom de medo nelas. Algumas palavras conseguiam ser compreendidas: "Mataram o...", "Porra, são os caras da...", "Merda, vamo morré..." E algumas outras coisas mais. Tudo assustador. Os passos sobre as lajes aumentavam de intensidade cada vez mais. Transformaram os telhados vizinhos em uma passarela de fuga.
De repente, os tiros ficaram tão claros que eu podia jurar que estavam atirando em frente a nossa porta. Minha mãe começou a rezar o padre nosso e a ave maria, mas ninguém conseguia escutá-la direito. Ouve uma correria, um grito e diversos disparos. "Mataram alguém na nossa porta!" pensei. Aconteceram mais gritos, agora um pouco mais distantes, o som dos tiros foi desaparecendo. "Eles tão indo embora!", falou meu irmão. Minha mãe colocou todos nós na cama! Não sei como consegui dormir.
Acordei bem cedo e fui para a porta da frente, esperava encontrar um "presunto" bem ali. Mas não havia nada, nem mesmo marcas de tiros. Alguns vasos de plantas da minha mãe na varanda estavam quebrados, mas nada mais. Meus irmãos saíram correndo para a rua, pois queriam ouvir os relatos da batalha de ontem à noite. Fui atrás deles! Na entrada do beco, o primeiro sinal que algo havia realmente acontecido ontem. Uma poça de sangue seco. O cheiro era insuportável! Meus irmãos conseguiram descobrir de onde eram os caras que vieram invadir o morro e quem havia morrido de ambos os lados. Conseguiram descobrir, ou pelo menos acreditavam nisso, quais foram as armas usadas naquela batalha campal urbana. O incrível, com aquele som todo que nos invadiu, aquela quantidade de vozes assustadoras dentro da noite, as meias frases que conseguimos ouvir, tudo que pude perceber como sinal de que algo realmente havia acontecido era a poça de sangue. Mal sabia eu, que aquilo era apenas o começo de uma guerra sem fim.

12 janeiro 2008

Poesia - Fantoche

Nós comnadamos nossa vida? Será? Não poderemnos ser nossos próprios carrascos? Isto é o que discute nosso poeta e filosofo de plantão.

FANTOCHE

Das esperanças que tenho
Da vida,
Trago incólume
A esperança de liberdade.

Das mãos que cegas,
Recebem a ordens
De um cérebro confuso,
E as traduzem em
Primárias garatujas.

Da fresca água, colhida
Em oníricos campos,
Ao cáustico deserto
Da aridez do real.

A insanidade oscila,
Ora oculta em alegre
Maquiagem
Ora mostrada nua
À impiedade
De um espelho,

Numa constante loucura,
Que em sonho,
E somente em sonho,
Pretende um dia libertar.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Amor da Minha Vida

O mito do amor eterno é uma forte influência na percepção feminina. O Princípe Encantado pode estar lá na esquina... mas será que existe mesmo? E se existir... você reconheceria?

Carlos babava por Cristina desde que me entendo por gente! Era o amor platônico mais alucinado que já tinha visto. A grande maioria desistia nos primeiros meses de adoração. A de Carlos durou por anos, foi do Jardim de Infância até a Faculdade! Por mais incrível que pareça, ele nunca teve nenhuma namorada neste período, ficando virgem até os 23 anos de idade, por amor à Cristina. Cristina nem sabia que ele era homem!
Cristina e Carlos eram vizinhos da mesma rua, Carlos havia se apaixonado por ela no dia em que a mudança da família dela chegou na rua. Fizeram o Jardim de Infância juntos, brincavam juntos, foram para a mesma escola e até frequentavam o mesmo clube. Na infância, a inocência os deixou muito próximos, como irmãos. Carlos não via assim e Cristina nem pensava sobre o assunto. Os problemas foram aumentando quando o inferno da adolescência chegou. Cristina passou a ter um único objetivo na vida: arrumar um namorado que fosse um Príncipe encantado e que tivesse aprovação de suas amigas. Carlos sabia que só havia uma única mulher no mundo: Cristina. Mas ao invés de lhe dizer, ajudava em todas as bobagens que ela queria fazer. Todas as infantilidades que apenas uma mulher na adolescência pode conceber. Sofria a cada novo namorado que ela arrumava e a cada fracasso do 'homem dos sonhos' de Cristina.
No Segundo Grau, conversamos muito com ele e quase o obrigamos a contar tudo para Cristina. Hesitantemente, Carlos concordou e foi conversar com Cristina. Contou tudo, todo o seu sentimento por ela. O 'chute' foi inevitável, mas o que mais doeu em Carlos foi a condescendência de Cristina, que ficou com 'peninha' dele. É claro que ela não queria magoá-lo, mas esta é uma situação que é impossível alguém não sair magoado. Dias depois, Cristina procurou Carlos para tentar 'consertar as coisas', mas o 'soneto saiu pior que a emenda'. Explicou para Carlos, que ela precisava de um homem... um homem que impressionasse... que impusesse respeito... que fosse bonito e tivesse dinheiro. Acho que ela pensou que a primeira humilhação não bastasse, decidiu tripudiar em cima do 'cachorro morto'. Carlos baixou a cabeça e simplesmente desapareceu, literalmente.
Cristina seguiu em sua vida de caça ao Príncipe encantado e acabou encontrando o alvo perfeito. Um homem mais velho, muito bonito, com bastante dinheiro e líder de uma empresa de marketing. A paixão foi fulminante e o casamento se seguiu na mesma velocidade. Seis meses depois estavam de lua-de-mel em Paris! Não é pouca coisa não. Mas como sempre digo, Papai Noel não existe e ninguém é perfeito. As brigas começaram ainda em Paris e com menos de dois anos de casamento, Cristina era a mais nova divorciada da praça.
Depois do período inicial de 'luto' pelo "defunto morto", no caso, o defunto é o casamento e não o marido. Cristina começou a sair com amigas, todas divorciadas ou sem namorado, famosas: Fracassadas do Amor. As discussões giravam sobre um único assunto, como nós - os homens - destruímos a vida delas. Nunca eram elas mesmas quem faziam isto, era sempre um maldito homem o responsável. Depois da sessão depressão, começavam a sonhar novamente com o Príncipe encantado. Em uma destas noites, Ana Cláudia, uma amiga comum de Cristina e Carlos estava na mesa. Cristina começou a descrever o homem de seus sonhos para as mulheres ali presentes, quando Ana Cláudia a interrompeu e falou para ela: "Você tá descrevendo o Carlos!" Cristina não lembrou de primeira, mas Ana Cláudia citou alguns fatos que fizeram a mente de Cristina relembrar dele.
Em um primeiro memento, Cristina acreditou que a menina 'tava viajando'! Mas a cada dia que passava, lembrava de algum detalhe de seu relacionamento com Carlos, principalmente, as coisas que ele dizia e fazia para ela. Lembrou do dia da declaração de amor dele e como fora tão insensível. Decidiu que deveria pedir desculpas sinceras.
Conseguiu o telefone da mãe dele em uma antiga agenda de telefones do segundo grau. Não morava mais lá, mas a mãe tinha o telefone da casa dele. Deu a Cristina, que levou uns dois dias para decidir fazer a ligação. Quando o fez, falou direto com ele, que foi atencioso e carinhoso no telefone, pareceu até mesmo ansioso e feliz. Marcaram de se encontrar em um restaurante para conversar. Carlos foi quem escolheu.
Cristina chegou primeiro e estava ansiosa de ver o antigo 'amigo'. Quando ele chegou, percebeu o quanto havia mudado. Havia mudado e muito! Cabelo, roupas, físico e até mesmo o olhar. Era um outro homem... muito melhor. Era o 'Homem Perfeito', não pode evitar o pensamento. Abriu um sorriso de 'orelha a orelha', ele sentou, falaram de amenidades e relembraram os velhos tempos. Cristina começou seu pedido de desculpas, que seria emendado por uma tentativa de corrigir o erro de anos atrás, que ambos poderiam tentar agora o que não aconteceu na adolescência. Afinal, ela era apenas uma burra adolescente, reconhecia isto agora. Mas quando ia começar, uma bela menina chegou e beijou Carlos na boca. Um beijo intenso e apaixonado. Os dois riram alegremente e a menina sentou no colo de Carlos antes de puxar sua própria cadeira. Os dois eram a alegria em pessoa, pois ela era a noiva dele, com quem ele iria casar.
Cristina viveu um pesadelo, agora tinha certeza que Carlos era mesmo o 'amor de sua vida'. Fez tudo que pôde para reconquistar o antigo 'amigo'. Nada funcionou e Carlos foi direto com ela: "O que sentia... era obsessão e não amor. O dia em que você me chutou... eu me libertei e passei a viver. Hoje vejo aquele dia como o mais importante da minha vida. E não vou voltar para aquela obsessão, pois hoje sei o que é o amor e algum dia você, talvez, vá descobrir." Ele virou as costas e, de forma condescendente, desapareceu novamente, mas agora de forma definitiva. Ela não recebeu um convite para o casamento.

05 janeiro 2008

Poesia - Só Amanhã

Nosso poeta decide nos falar de um hábito extremamente brasileiro: deixar tudo para depois.

SÓ AMANHÃ

Por que o amanhã,
Que dá ao agora
A sensação de nunca,
Transfere ao infinito
A responsabilidade do cumprir?

Por que o amanhã,
Que mantém os
Ombros encavados
Com o peso do porvir,
E a cabeça estéril pela
Obrigação do por fazer?

Por que o amanhã,
Que ilumina a ansiedade,
E nega à alma o natural
Descanso que exala do acabado?

Por que o amanhã,
Que duvidoso assombra
A festa dos anseios,
Pela possibilidade do não vir?

Por que o amanhã,
Este incógnito lugar,
Que nos remete ao ontem,
De cujo amanhã
É o hoje?

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Oportunidade

A vida é cheia de surpresas! Algumas agradáveis... outras não. O quê podemos fazer? Há uma visão positivista... outra uma visão negativa dos fatos. Escolher qual delas basear-se é uma tarefa difícil, mas primordial para o destino de sua vida.

O quê é uma oportunidade? Quando surge? E o quẽ fazer, então? Seu Tuta nunca ouviu estas perguntas e nunca se preocupou com algo assim. Ele vivia tranquilamente no Boogie Woogie a mais de 25 anos e trabalhava no Estaleiro EMAQ quase o mesmo tempo. Era uma combinação formidável Boogie Woogie-EMAQ que fazia sua vida ser perfeita. Era casado a quase 27 anos e tinha uma linda filha, Fernanda, de 21 anos. A filha ainda morava com o casal e pretendia estudar Enfermagem na Faculdade. Iria prestar concurso no final do ano para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o famoso Fundão.
Foi quando a vida de Seu Tuta desmoronou. A EMAQ anunciou uma concordata, coisa feia que ele nem tinha a menor idéia do que significava, só sabia que era uma palavra: "Feia pros diabos?!" No processo para se recuperar, o Estaleiro decidiu demitir seus profissionais mais antigos, devido a rescisão contratual ter valores mais altos e condições diferenciadas de negociação. Da noite para o dia, Seu Tuta se viu desempregado ao 47 anos de idade. Era uma verdadeira sentença de morte para ele! Era uma sentença de morte para qualquer Pai de Família com aquela idade e desempregado! Seu Tuta ficou tão nervoso com o ocorrido, que passou mal e teve de ser levado para o Posto de Saúde da Praia da Freguesia. Implorou para os amigos não falarem nada para sua esposa, a Edinéia não aguentaria.
Foram mais de três semanas para tomar coragem e contar para sua esposa sobre a demissão. Contou! A esposa ficou desesperada! Haviam contas pra pagar, a escola da Fernanda, a Faculdade e a obra na casa para terminar. "O quê faremos, Tuta?" A indagação ficou sem resposta. Seu Tuta entrou em uma crise de depressão, apesar dele nem ter idéia disto. Passava o dia inteiro deitado na cama, não queria ver e nem falar com ninguém. Brigava com a esposa pelas maiores bobagens e não conseguia dar atenção as tentativas da filha em ajudá-lo. Só saiu do torpor quando a filha ameaçou de largar os estudos e arranjar um emprego para sustentar a família. Seu Tuta não permitiu, usaria o dinheiro da poupança para isto, enquanto pudesse. Depois, arranjaria algo para fazer de algum jeito.
As coisas começaram a mudar, quando o vizinho veio reclamar da areia lavada que estava espalhada na calçada na frente da casa de Seu Tuta. A esposa falou que ele tinha que dar um jeito naquilo, já que não iriam mais fazer o segundo andar da casa, pois não havia dinheiro, então que ele se livrasse daquilo. Sem argumentos, Seu Tuta pensou em dar para alguém que precisasse, mas ninguém queria ir buscar estas coisas pesadas. Fez, então, um cartaz de vende-se e chamou um garoto para carregar o material para casa do comprador, caso aparecesse alguém.
Nem bem Seu Tuta acabou de colocar o cartaz no portão da casa e despachar o menino de entregas. Ouviu palmas no seu portão. Foi atender e era o seu primeiro cliente. queria saber quanto estava o metro da areia lavada e, assim que Seu Tuta falou, o rapaz pagou o valor pedido e informou o endereço de entrega do material. E o resto do dia seguiu igual. Foi um cliente atrás do outro. Menos de duas horas depois de colocar o cartaz, Seu Tuta vendeu todo seu material de construção e recuperou, com lucros, o que havia gasto nele. Pegou o carrinho de mão e chamou seu ajudante e foram à luta. Passaram à tarde, à noite daquele dia e toda a manhã do dia seguinte, subindo e descendo pelas ruas do morro. Entregaram tudo e todos ficaram satisfeitos com Seu Tuta. Uma das mulheres que haviam comprado material com ele, perguntou-lhe se não iria abrir uma loja de material de construção. "O morro tá precisando de uma!"
Seu Tuta foi para casa encafifado com isto. Uma loja de material de construção. Tinha a área do lado da casa, dava para guardar muita coisa e era coberta. Mas será que daria certo? Teria que gastar dinheiro em estoque e não podia arriscar, era o sustento de sua família. Falou para a esposa que ficou receosa da empreitada, mas a filha foi um entusiasmo só. Ficou muito feliz de ver seu pai animado e pensando em trabalho e largando de cima da cama, não titubeou e quase empurrou seu pai para a montagem da loja. No entusiasmo, falou que ajudaria atendendo os clientes enquanto o pai faria as entregas. Seu Tuta arriscou!
O mês seguinte, foi um tal de carrinho de mão subindo e descendo as vielas do morro para entregar areia lavada, de emboço, cimento, cimento branco. Depois vieram parafusos, pregos, porcas, arruelas, canos e engates. Rapidamente, a quantidade de itens crescia, mas as vendas cresciam mais. Seu Tuta comprava das lojas de ferragens no pé do morro para revender, mas os lotes acabavam mais rapidamente que ele conseguia repor. Naquela semana, Seu Tuta entregou uma carga no ponto mais alto do morro, de lá percebeu que o morro era um canteiro de obras. As casas eram na maioria de madeira, todos estavam substituindo por alvenaria e colocando novos acessórios: como banheiros, instalações elétricas e experimentando decoração. Entendeu que por mais que ele tentasse, sozinho não poderia suprir a demanda de toda aquela gente.
Os lucros acumulados naquele primeiro mês, ajudaram a pagar o aluguel de uma loja fechada na Rua Central e reformá-la com a ajuda de Fernanda e de seu novo sócio, o garoto Henrique, seu primeiro funcionário. Quando a loja ficou pronta, passou a comprar direto com os vendedores das fábricas e diversificou o máximo possível, perdeu dinheiro em algumas apostas, mas ganhou muito mais satisfazendo a clientela. O morro todo já o conhecia, com Tuta das Ferragens. Não havia uma viela, beco ou entrada que Seu Tuta não conhecesse. Antes do final do ano, já tinha mais dois garotos trabalhando nas entregas e Henrique, agora, atendia no balcão, sem esquecer de Fernanda e sua esposa, que passavam quase o dia inteiro na loja ajudando nas vendas.
Em um ano, Seu Tuta tinha uma das mais bonitas vendas do morro. Faturava bem e sustentava a família e ainda gastava em algumas extravagâncias, como um carrinho de seus sonhos: um Opalão 78. A filha fazia a faculdade bancada pelos lucros da loja e sua esposa frequentava o médico pago para tratar um velho problema urinário, pois nunca tinha médico no Posto de Saúde do Zumbi. Seu Tuta estava feliz! Estava em uma maré de sorte! Esta maré parecia sem fim! Pois a EMAQ deu um suspiro, suspendeu a concordata e recomeçou a aceitar pedidos para construção de barcos. Chamou de volta antigos funcionários, inclusive Seu Tuta. Este voltou à ativa, como dizia, mais feliz que nunca. Era o que sempre sonhou, trabalhar na EMAQ até a aposentadoria. Era este seu desejo mais profundo, tinha um grande orgulho de ter participado da construção de inúmeros navios para a Petrobrás. "E a loja?" perguntou sua esposa. Seu Tuta não tinha idéia, resolveu deixar nas mãos de sua esposa e de Henrique, se não desse certo... vendiam! "Compradores é que não iriam faltar" sentenciou.
A rotina do trabalho do Estaleiro, o revigorou, no início. Mas logo começou a questionar várias práticas do trabalho, começou a criticar a forma que tratavam os funcionários e até mesmos os gastos desnecessários que faziam em determinadas tarefas. Apesar tudo ainda ser da mesma forma que Seu Tuta lembrava, ele havia se modificado com a experiência de ser dono de seu próprio negócio. Em casa, a loja estava indo mal das pernas, Henrique não conseguia coordenar as entregas e sua esposa não sabia comprar. O Estoque cresceu demais e as vendas caíram vertiginosamente. Era uma situação fadada ao fracasso! Sua esposa e filha foram lhe dizer para vender a loja e pegar o dinheiro.
Colocaram o cartaz e menos de uma semana depois surgiu um comprador. Negociaram e acertaram os detalhes. Assinaram a papelada na segunda! Seu Tuta foi para a loja no sábado e resolveu trabalhar lá. Logo cedo, vários moradores vieram cumprimentá-lo por ter voltado ao trabalho. Sentiram sua falta e a loja não era a mesma coisa sem ele, todos afirmaram. Alguns clientes apareceram e Seu Tuta deu conselhos e puxou alta prosa sobre as obras e coisas do dia-a-dia. Despediu-se de Henrique no final do dia de trabalho. Este chorou muito, pois considerava Seu Tuta com a um pai. Seu Tuta fechou a loja e algo pesado fechou em seu coração. Era como despedir-se de um filho querido. Na segunda, foi trabalhar no Estaleiro, mas estaria de volta na hora do almoço para a papelada e pegar o cheque. Mas, quando retornou para casa, estava feliz, em contraste com a tristeza que saiu de manhã, desistiu de vender a loja e pediu demissão da EMAQ, sua vida agora eram as Ferragens e os Materiais de Construção. Era a vida que queria e que gostava. A família toda festejou junta e Seu Tuta se despediu do comprador, pegou a chave da loja e foi até a Central. Abriu a Loja e começou a trabalhar sozinho, não demorou mais do que quinze minutos para Henrique vir se juntar a ele, sem dizer nada, apenas um longo abraço selou uma amizade que duraria até a morte de Seu Tuta anos atrás. A Loja de Ferragens de Seu Tuta completa, neste mês de Janeiro/2008, 30 anos de existência. É assim que reconhece uma oportunidade... com o coração.