05 janeiro 2008

Boogie Woogie - Oportunidade

A vida é cheia de surpresas! Algumas agradáveis... outras não. O quê podemos fazer? Há uma visão positivista... outra uma visão negativa dos fatos. Escolher qual delas basear-se é uma tarefa difícil, mas primordial para o destino de sua vida.

O quê é uma oportunidade? Quando surge? E o quẽ fazer, então? Seu Tuta nunca ouviu estas perguntas e nunca se preocupou com algo assim. Ele vivia tranquilamente no Boogie Woogie a mais de 25 anos e trabalhava no Estaleiro EMAQ quase o mesmo tempo. Era uma combinação formidável Boogie Woogie-EMAQ que fazia sua vida ser perfeita. Era casado a quase 27 anos e tinha uma linda filha, Fernanda, de 21 anos. A filha ainda morava com o casal e pretendia estudar Enfermagem na Faculdade. Iria prestar concurso no final do ano para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o famoso Fundão.
Foi quando a vida de Seu Tuta desmoronou. A EMAQ anunciou uma concordata, coisa feia que ele nem tinha a menor idéia do que significava, só sabia que era uma palavra: "Feia pros diabos?!" No processo para se recuperar, o Estaleiro decidiu demitir seus profissionais mais antigos, devido a rescisão contratual ter valores mais altos e condições diferenciadas de negociação. Da noite para o dia, Seu Tuta se viu desempregado ao 47 anos de idade. Era uma verdadeira sentença de morte para ele! Era uma sentença de morte para qualquer Pai de Família com aquela idade e desempregado! Seu Tuta ficou tão nervoso com o ocorrido, que passou mal e teve de ser levado para o Posto de Saúde da Praia da Freguesia. Implorou para os amigos não falarem nada para sua esposa, a Edinéia não aguentaria.
Foram mais de três semanas para tomar coragem e contar para sua esposa sobre a demissão. Contou! A esposa ficou desesperada! Haviam contas pra pagar, a escola da Fernanda, a Faculdade e a obra na casa para terminar. "O quê faremos, Tuta?" A indagação ficou sem resposta. Seu Tuta entrou em uma crise de depressão, apesar dele nem ter idéia disto. Passava o dia inteiro deitado na cama, não queria ver e nem falar com ninguém. Brigava com a esposa pelas maiores bobagens e não conseguia dar atenção as tentativas da filha em ajudá-lo. Só saiu do torpor quando a filha ameaçou de largar os estudos e arranjar um emprego para sustentar a família. Seu Tuta não permitiu, usaria o dinheiro da poupança para isto, enquanto pudesse. Depois, arranjaria algo para fazer de algum jeito.
As coisas começaram a mudar, quando o vizinho veio reclamar da areia lavada que estava espalhada na calçada na frente da casa de Seu Tuta. A esposa falou que ele tinha que dar um jeito naquilo, já que não iriam mais fazer o segundo andar da casa, pois não havia dinheiro, então que ele se livrasse daquilo. Sem argumentos, Seu Tuta pensou em dar para alguém que precisasse, mas ninguém queria ir buscar estas coisas pesadas. Fez, então, um cartaz de vende-se e chamou um garoto para carregar o material para casa do comprador, caso aparecesse alguém.
Nem bem Seu Tuta acabou de colocar o cartaz no portão da casa e despachar o menino de entregas. Ouviu palmas no seu portão. Foi atender e era o seu primeiro cliente. queria saber quanto estava o metro da areia lavada e, assim que Seu Tuta falou, o rapaz pagou o valor pedido e informou o endereço de entrega do material. E o resto do dia seguiu igual. Foi um cliente atrás do outro. Menos de duas horas depois de colocar o cartaz, Seu Tuta vendeu todo seu material de construção e recuperou, com lucros, o que havia gasto nele. Pegou o carrinho de mão e chamou seu ajudante e foram à luta. Passaram à tarde, à noite daquele dia e toda a manhã do dia seguinte, subindo e descendo pelas ruas do morro. Entregaram tudo e todos ficaram satisfeitos com Seu Tuta. Uma das mulheres que haviam comprado material com ele, perguntou-lhe se não iria abrir uma loja de material de construção. "O morro tá precisando de uma!"
Seu Tuta foi para casa encafifado com isto. Uma loja de material de construção. Tinha a área do lado da casa, dava para guardar muita coisa e era coberta. Mas será que daria certo? Teria que gastar dinheiro em estoque e não podia arriscar, era o sustento de sua família. Falou para a esposa que ficou receosa da empreitada, mas a filha foi um entusiasmo só. Ficou muito feliz de ver seu pai animado e pensando em trabalho e largando de cima da cama, não titubeou e quase empurrou seu pai para a montagem da loja. No entusiasmo, falou que ajudaria atendendo os clientes enquanto o pai faria as entregas. Seu Tuta arriscou!
O mês seguinte, foi um tal de carrinho de mão subindo e descendo as vielas do morro para entregar areia lavada, de emboço, cimento, cimento branco. Depois vieram parafusos, pregos, porcas, arruelas, canos e engates. Rapidamente, a quantidade de itens crescia, mas as vendas cresciam mais. Seu Tuta comprava das lojas de ferragens no pé do morro para revender, mas os lotes acabavam mais rapidamente que ele conseguia repor. Naquela semana, Seu Tuta entregou uma carga no ponto mais alto do morro, de lá percebeu que o morro era um canteiro de obras. As casas eram na maioria de madeira, todos estavam substituindo por alvenaria e colocando novos acessórios: como banheiros, instalações elétricas e experimentando decoração. Entendeu que por mais que ele tentasse, sozinho não poderia suprir a demanda de toda aquela gente.
Os lucros acumulados naquele primeiro mês, ajudaram a pagar o aluguel de uma loja fechada na Rua Central e reformá-la com a ajuda de Fernanda e de seu novo sócio, o garoto Henrique, seu primeiro funcionário. Quando a loja ficou pronta, passou a comprar direto com os vendedores das fábricas e diversificou o máximo possível, perdeu dinheiro em algumas apostas, mas ganhou muito mais satisfazendo a clientela. O morro todo já o conhecia, com Tuta das Ferragens. Não havia uma viela, beco ou entrada que Seu Tuta não conhecesse. Antes do final do ano, já tinha mais dois garotos trabalhando nas entregas e Henrique, agora, atendia no balcão, sem esquecer de Fernanda e sua esposa, que passavam quase o dia inteiro na loja ajudando nas vendas.
Em um ano, Seu Tuta tinha uma das mais bonitas vendas do morro. Faturava bem e sustentava a família e ainda gastava em algumas extravagâncias, como um carrinho de seus sonhos: um Opalão 78. A filha fazia a faculdade bancada pelos lucros da loja e sua esposa frequentava o médico pago para tratar um velho problema urinário, pois nunca tinha médico no Posto de Saúde do Zumbi. Seu Tuta estava feliz! Estava em uma maré de sorte! Esta maré parecia sem fim! Pois a EMAQ deu um suspiro, suspendeu a concordata e recomeçou a aceitar pedidos para construção de barcos. Chamou de volta antigos funcionários, inclusive Seu Tuta. Este voltou à ativa, como dizia, mais feliz que nunca. Era o que sempre sonhou, trabalhar na EMAQ até a aposentadoria. Era este seu desejo mais profundo, tinha um grande orgulho de ter participado da construção de inúmeros navios para a Petrobrás. "E a loja?" perguntou sua esposa. Seu Tuta não tinha idéia, resolveu deixar nas mãos de sua esposa e de Henrique, se não desse certo... vendiam! "Compradores é que não iriam faltar" sentenciou.
A rotina do trabalho do Estaleiro, o revigorou, no início. Mas logo começou a questionar várias práticas do trabalho, começou a criticar a forma que tratavam os funcionários e até mesmos os gastos desnecessários que faziam em determinadas tarefas. Apesar tudo ainda ser da mesma forma que Seu Tuta lembrava, ele havia se modificado com a experiência de ser dono de seu próprio negócio. Em casa, a loja estava indo mal das pernas, Henrique não conseguia coordenar as entregas e sua esposa não sabia comprar. O Estoque cresceu demais e as vendas caíram vertiginosamente. Era uma situação fadada ao fracasso! Sua esposa e filha foram lhe dizer para vender a loja e pegar o dinheiro.
Colocaram o cartaz e menos de uma semana depois surgiu um comprador. Negociaram e acertaram os detalhes. Assinaram a papelada na segunda! Seu Tuta foi para a loja no sábado e resolveu trabalhar lá. Logo cedo, vários moradores vieram cumprimentá-lo por ter voltado ao trabalho. Sentiram sua falta e a loja não era a mesma coisa sem ele, todos afirmaram. Alguns clientes apareceram e Seu Tuta deu conselhos e puxou alta prosa sobre as obras e coisas do dia-a-dia. Despediu-se de Henrique no final do dia de trabalho. Este chorou muito, pois considerava Seu Tuta com a um pai. Seu Tuta fechou a loja e algo pesado fechou em seu coração. Era como despedir-se de um filho querido. Na segunda, foi trabalhar no Estaleiro, mas estaria de volta na hora do almoço para a papelada e pegar o cheque. Mas, quando retornou para casa, estava feliz, em contraste com a tristeza que saiu de manhã, desistiu de vender a loja e pediu demissão da EMAQ, sua vida agora eram as Ferragens e os Materiais de Construção. Era a vida que queria e que gostava. A família toda festejou junta e Seu Tuta se despediu do comprador, pegou a chave da loja e foi até a Central. Abriu a Loja e começou a trabalhar sozinho, não demorou mais do que quinze minutos para Henrique vir se juntar a ele, sem dizer nada, apenas um longo abraço selou uma amizade que duraria até a morte de Seu Tuta anos atrás. A Loja de Ferragens de Seu Tuta completa, neste mês de Janeiro/2008, 30 anos de existência. É assim que reconhece uma oportunidade... com o coração.

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