Ouvimos todos os dias sobre tiroteios em favelas, mas como se sentem quem mora nelas? Neste pequeno conto busco apresentar algumas destas visões.
O som era distante, pareciam fogos de artifício, mas não era nenhum dia especial ou comemorativo. Meu irmão que estava sentado ao meu lado no sofá, sussurrou: "É tiros!" Não sabia como ele sabia disso, mas a vivência dele nas ruas do morro era bem maior do que a minha. Ele e meu irmão menor tinham sido mandados para casa por um cara estranho, que nenhum dos dois conhecia. E olha, para os meus irmãos não conhecerem alguém aqui do morro, tem que ser um eremita.
O som seco continuava de forma quase ininterrupta, mas parecia muito distante para incomodar. Os tiros são como o som dos relâmpagos, quanto mais fracos forem, menos perigosos são. O filme da televisão era bem mais interessante, então, comecei esquecer aquele incomodo barulho. Mas ele não esqueceu do morro, pois o som gradualmente aumentou. Senti em meus irmãos, um certo temor, apesar de serem mais jovens, eles sabiam o que ocorria dentro do morro, enquanto eu era um total alienado sobre o assunto. Percebi, então, que a cada aumento no som dos tiros, os dois começavam a cochichar cada vez mais. Minha mãe, também, começava a ficar mais apreensiva. Já não conseguia assistir ao filme da TV.
De repente, sons de passos sobre a nossa laje. Havia gente passando correndo sobre nosso telhado. Muita gente! Aquilo começava a ficar assustador para um adolescente como eu. Havia um murmúrio tomando o ar em volta de nossa casa. O beco em que morávamos não era um local com saída natural para nada. Era um beco sem saída, estreito e com muitas casas apinhadas bem próximas umas das outras. Em caso de tiros ali dentro, o estrago seria grande e as pessoas poderiam ser atingidas por balas perdidas. Eu poderia ser atingido por uma bala! Minha mãe apagou a luz da casa inteira. Meu pai ainda não havia chegado do trabalho e não havia um jeito de avisá-lo para não tentar ir para a casa. Ficar na rua, dormir na rua. Seria o único jeito para ele, mas pelo menos estaria seguro. E quanto a gente? O medo aumentava paulatinamente.
Desliguei a televisão, mas isto foi pior ainda. Sem o som da televisão, os sons da violência do tráfico invadiam nossa casa com uma intensidade ainda maior. A escuridão e o silẽncio eram ainda piores e aumentavam terrivelmente a sensação de insegurança. Naquele memento, o único som que ouvíamos era o do relógio de parede que ficava na cozinha. Minha mãe foi até o banheiro e olhou para fora pelo basculante, viu umas sombras pulando da laje de nossa vizinha em frente para o telhado da casa da Dona Zulmira ao nosso lado. Para nossa sorte, nossa laje estava um pouco mais alta que a média das outras lajes do beco, dificultando para as "sombras" passaram por ali.
Neste memento, os tiros recomeçaram. Agora estava muito próximo! O som parecia estar entrando porta adentro de nossa casa. Minha mãe veio para a sala e ficou agarrada com a gente. Meu irmão mais novo catalogava as armas de acordo com o som dos disparos. "Onde ele havia aprendido aquilo?" Era a única coisa que conseguia pensar. Vozes surgiram do nada, primeiro incompreensíveis, depois identificávamos o tom de medo nelas. Algumas palavras conseguiam ser compreendidas: "Mataram o...", "Porra, são os caras da...", "Merda, vamo morré..." E algumas outras coisas mais. Tudo assustador. Os passos sobre as lajes aumentavam de intensidade cada vez mais. Transformaram os telhados vizinhos em uma passarela de fuga.
De repente, os tiros ficaram tão claros que eu podia jurar que estavam atirando em frente a nossa porta. Minha mãe começou a rezar o padre nosso e a ave maria, mas ninguém conseguia escutá-la direito. Ouve uma correria, um grito e diversos disparos. "Mataram alguém na nossa porta!" pensei. Aconteceram mais gritos, agora um pouco mais distantes, o som dos tiros foi desaparecendo. "Eles tão indo embora!", falou meu irmão. Minha mãe colocou todos nós na cama! Não sei como consegui dormir.
Acordei bem cedo e fui para a porta da frente, esperava encontrar um "presunto" bem ali. Mas não havia nada, nem mesmo marcas de tiros. Alguns vasos de plantas da minha mãe na varanda estavam quebrados, mas nada mais. Meus irmãos saíram correndo para a rua, pois queriam ouvir os relatos da batalha de ontem à noite. Fui atrás deles! Na entrada do beco, o primeiro sinal que algo havia realmente acontecido ontem. Uma poça de sangue seco. O cheiro era insuportável! Meus irmãos conseguiram descobrir de onde eram os caras que vieram invadir o morro e quem havia morrido de ambos os lados. Conseguiram descobrir, ou pelo menos acreditavam nisso, quais foram as armas usadas naquela batalha campal urbana. O incrível, com aquele som todo que nos invadiu, aquela quantidade de vozes assustadoras dentro da noite, as meias frases que conseguimos ouvir, tudo que pude perceber como sinal de que algo realmente havia acontecido era a poça de sangue. Mal sabia eu, que aquilo era apenas o começo de uma guerra sem fim.
O som era distante, pareciam fogos de artifício, mas não era nenhum dia especial ou comemorativo. Meu irmão que estava sentado ao meu lado no sofá, sussurrou: "É tiros!" Não sabia como ele sabia disso, mas a vivência dele nas ruas do morro era bem maior do que a minha. Ele e meu irmão menor tinham sido mandados para casa por um cara estranho, que nenhum dos dois conhecia. E olha, para os meus irmãos não conhecerem alguém aqui do morro, tem que ser um eremita.
O som seco continuava de forma quase ininterrupta, mas parecia muito distante para incomodar. Os tiros são como o som dos relâmpagos, quanto mais fracos forem, menos perigosos são. O filme da televisão era bem mais interessante, então, comecei esquecer aquele incomodo barulho. Mas ele não esqueceu do morro, pois o som gradualmente aumentou. Senti em meus irmãos, um certo temor, apesar de serem mais jovens, eles sabiam o que ocorria dentro do morro, enquanto eu era um total alienado sobre o assunto. Percebi, então, que a cada aumento no som dos tiros, os dois começavam a cochichar cada vez mais. Minha mãe, também, começava a ficar mais apreensiva. Já não conseguia assistir ao filme da TV.
De repente, sons de passos sobre a nossa laje. Havia gente passando correndo sobre nosso telhado. Muita gente! Aquilo começava a ficar assustador para um adolescente como eu. Havia um murmúrio tomando o ar em volta de nossa casa. O beco em que morávamos não era um local com saída natural para nada. Era um beco sem saída, estreito e com muitas casas apinhadas bem próximas umas das outras. Em caso de tiros ali dentro, o estrago seria grande e as pessoas poderiam ser atingidas por balas perdidas. Eu poderia ser atingido por uma bala! Minha mãe apagou a luz da casa inteira. Meu pai ainda não havia chegado do trabalho e não havia um jeito de avisá-lo para não tentar ir para a casa. Ficar na rua, dormir na rua. Seria o único jeito para ele, mas pelo menos estaria seguro. E quanto a gente? O medo aumentava paulatinamente.
Desliguei a televisão, mas isto foi pior ainda. Sem o som da televisão, os sons da violência do tráfico invadiam nossa casa com uma intensidade ainda maior. A escuridão e o silẽncio eram ainda piores e aumentavam terrivelmente a sensação de insegurança. Naquele memento, o único som que ouvíamos era o do relógio de parede que ficava na cozinha. Minha mãe foi até o banheiro e olhou para fora pelo basculante, viu umas sombras pulando da laje de nossa vizinha em frente para o telhado da casa da Dona Zulmira ao nosso lado. Para nossa sorte, nossa laje estava um pouco mais alta que a média das outras lajes do beco, dificultando para as "sombras" passaram por ali.
Neste memento, os tiros recomeçaram. Agora estava muito próximo! O som parecia estar entrando porta adentro de nossa casa. Minha mãe veio para a sala e ficou agarrada com a gente. Meu irmão mais novo catalogava as armas de acordo com o som dos disparos. "Onde ele havia aprendido aquilo?" Era a única coisa que conseguia pensar. Vozes surgiram do nada, primeiro incompreensíveis, depois identificávamos o tom de medo nelas. Algumas palavras conseguiam ser compreendidas: "Mataram o...", "Porra, são os caras da...", "Merda, vamo morré..." E algumas outras coisas mais. Tudo assustador. Os passos sobre as lajes aumentavam de intensidade cada vez mais. Transformaram os telhados vizinhos em uma passarela de fuga.
De repente, os tiros ficaram tão claros que eu podia jurar que estavam atirando em frente a nossa porta. Minha mãe começou a rezar o padre nosso e a ave maria, mas ninguém conseguia escutá-la direito. Ouve uma correria, um grito e diversos disparos. "Mataram alguém na nossa porta!" pensei. Aconteceram mais gritos, agora um pouco mais distantes, o som dos tiros foi desaparecendo. "Eles tão indo embora!", falou meu irmão. Minha mãe colocou todos nós na cama! Não sei como consegui dormir.
Acordei bem cedo e fui para a porta da frente, esperava encontrar um "presunto" bem ali. Mas não havia nada, nem mesmo marcas de tiros. Alguns vasos de plantas da minha mãe na varanda estavam quebrados, mas nada mais. Meus irmãos saíram correndo para a rua, pois queriam ouvir os relatos da batalha de ontem à noite. Fui atrás deles! Na entrada do beco, o primeiro sinal que algo havia realmente acontecido ontem. Uma poça de sangue seco. O cheiro era insuportável! Meus irmãos conseguiram descobrir de onde eram os caras que vieram invadir o morro e quem havia morrido de ambos os lados. Conseguiram descobrir, ou pelo menos acreditavam nisso, quais foram as armas usadas naquela batalha campal urbana. O incrível, com aquele som todo que nos invadiu, aquela quantidade de vozes assustadoras dentro da noite, as meias frases que conseguimos ouvir, tudo que pude perceber como sinal de que algo realmente havia acontecido era a poça de sangue. Mal sabia eu, que aquilo era apenas o começo de uma guerra sem fim.
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