26 abril 2008

Poesia - Onde Estou

Nosso poeta nos traz apergunta mais óbvia do ser humano: por quê stamos aqui? Qual o melhor caminho a seguir nessa vida tão difícil? Como sempre, nos faz pensar em nós mesmos e em nossas decisões, tão duras de serem tomadas com tão poucas informações. Não há curso para ensinar Como Viver a Vida, infelizmente.

ONDE ESTOU

Miro a vida e por ela vejo
Dois horizontes,
Um de curto trajeto
Que abruptamente
Termina em uma rocha negra.
E um outro horizonte longo
Que termina no infinito.

Quando de mim se apossa
A imagem da esperança,
O curto horizonte
Destrói sua trajetória,
Interpondo-lhe um paredão,

Mas quando sou tomado
Pela imagem do sofrimento,
É o horizonte que termina
No infinito, que toma seu lugar,
Conduzindo a vida,
Ou por ela conduzido.

Alterno assim minha existência,
Entre a intimidade com o sofrimento
E a eterna saudade da esperança.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Meu querido, Chevette

Muitos sonhos são transformados em pesadelos pelos próprios sonhadores. Decisões precipitadas e expectativas maiores que a realidade compõem o caldeirão de decpções que as próprias pessoas criam param destruir seus sonhos. Um dos maiores sonhos do mundo masculino é ter um carro próprio. Esta é a estória de como alguém pode transformar este sonho em um grande pesadelo.

O sonho do primeiro carro é normalmente um sonho de adolescente. A classe média tem por hábito presentear o sucesso de seus filhos com um carro, na maioria das vezes, o carro velho da família. Os filhos adolescentes na classe média começam a dirigir com dezesseis e existem casos em que começam ainda mais cedo. De forma responsável ou não, cabe aos pais pensarem a respeito. Na favela ou no morro, o sonho do carro próprio é um sonho distante para os adolescentes. É um sonho possível apenas para os adultos.
Carlos Eduardo era um destes sonhadores. Sua adolescência foi recheada de sonhos com um carro, principalmente, o seu favorito: o Chevette 78. Ele babava quando via na rua um Chevette 78 marrom passar. Ele não parava de pensar em todos os detalhes que decoraria o carro se tivesse um. Pensava nas calotas que colocaria, no painel de madeira que substituiria, na cobertura do estofamento dos assentos que usaria, até mesmo o som da buzina fazia parte de seus sonhos. Foi um sonho não realizado completamente.
Após completar o Segundo Grau, Carlos Eduardo fez um curso técnico especializado e conseguiu um estágio. O dinheiro era pouco e tinha de colaborar nas despesas da casa, pois era o único dos filhos que tinha idade para trabalhar. O sonho não pode ser satisfeito... ainda. O tempo passou e seus irmãos e irmãs cresceram e puderam criar suas próprias vidas. Principalmente, passaram a ter seu próprio dinheiro. O peso das despesas da casa diminuiu e Carlos Eduardo podia sonhar em economizar para comprar o tão sonhado carro.
A poupança de cinco anos, nunca parecia o suficiente para comprar um carro. O sonho sempre parecia distante e todos davam conselhos do que deveria fazer: "Não esqueça de ver a mecânica do carro, se o motor tiver legal... o resto se arranja!"; "Leva alguém que entenda com você pra te ajudar!"; "Compra na loja, porquê é mais seguro!" e por aí vai. Carlos Eduardo ouvia tudo e não guardava nada. Só conseguia pensar no carro. Foi quando apareceu uma pechincha no Balcão. Era um Chevette 78 pela metade do preço. O melhor de tudo, era marrom com bancos de couro. Carlos Eduardo pegou o jornal e ligou para o vendedor. O cara era de Caxias, na Baixada, um bairro do qual nunca ouvira falar, combinou um encontro com o dono. Este explicou a forma mais segura de chegar perto da casa dele e marcou um ponto de encontro em um local conhecido de ambos.
Domingo de manhã bem cedo, Carlos Eduardo já estava na Terra "Onde Judas Perdeu as Botas" para ver o carro. Apesar dos conselhos, foi sozinho. Chegou lá, a carroceria estava impecável, pelo menos, superficialmente. Olhou cada detalhe do exterior do carro com ares de entendido. Não viu nada de errado com ele. Pediu para ligar o carro e ouvir o motor. O som era potente e forte, deram uma volta com ele e Carlos Eduardo dirigiu pela primeira vez o tão sonhado Chevette 78.
A direção tinha uma folga e o pedal do freio estava duro. A embreagem estava agarrando na segunda, mas não pareceu nada de difícil conserto. O carro puxava na direção um pouco para a esquerda. Carlos Eduardo imaginou ser um probleminha de suspensão. "Deve ter colocado amortecedores velhos e guardado os novos para vender para alguém." pensou Carlos Eduardo. Fez algumas perguntas e negociou o preço, conseguiu dividir o pagamento em duas vezes. O proprietário concordou. Foi tudo muito fácil. O carro era dele! Combinaram em finalizar o negócio no final de semana seguinte, quando traria a primeira parte do dinheiro.
A semana foi de uma excitação sem tamanho para Carlos Eduardo. Não parava de sonhar com o momento em que chegaria com o carro em casa e mostraria para todo mundo o 'carrão' que comprara. Não falou para ninguém sobre o grande negócio que fechara, queria provocar inveja em todo mundo. No sábado à noite, não conseguiu dormir de tão excitado que estava. Ficou na varanda de casa esperando o sol nascer e se mandar para Caxias. Não avisou ninguém. Chegou na casa do proprietário antes que ele e a família estivessem acordados. Olhou o carro na garagem e sorriu de felicidade, pois estava com medo de que alguém pudesse aparecer com dinheiro na mão e levar seu querido carro embora. Dinheiro e recibo mudaram de mão. As chaves foram entregues e Carlos Eduardo pôde ouvir o som do motor comandando sua volta para casa motorizado no carro de seus sonhos. Não conseguia segurar a emoção da expectativa de ver a cara de suas irmãs, quando chegasse com o carro lá.
Dirigiu tranquilamente pela Washington Luís e depois pegou a pista do meio da Avenida Brasil. Na altura da Penha, antes de chegar no viaduto de entrada para a Ilha do Governador, o carro começou a engasgar. Parou no meio da pista. Uma carreta quase o pegou no meio. Teve de sair do carro e empurrá-lo para o encostamento da baia de segurança. Todos os motoristas que passavam o xingavam e mandavam tirar aquela lata velha do caminho. A humilhação foi completa!
Abriu o capô do carro e olhou para dentro. Não viu nada que pudesse estar errado, mas, também, ele não entendia nada de mecânica para poder saber. Havia um posto de gasolina a uns dois quilômetros antes de onde ele estava estacionado. Trancou o carro e foi até o posto para tentar encontrar um mecânico. Para sua felicidade, havia um lá e o mecânico aceitou ir ver o carro. Chegou, ligou o carro e ficou escutando o motor. Sorriu e deu o veredicto: bomba de gasolina. Disse ser algo simples e não precisava se preocupar, tinha uma na oficina perto do posto. Foi buscar, enquanto Carlos Eduardo ficava no sol tomando conta do carro. Era meio-dia e o sol estava de 'rachar'. Para piorar, começou a juntar uns caras estranhos em volta do carro. Faziam perguntas, mexiam na carroceria e riam bastante. Carlos Eduardo ficava cada vez mais incomodado, mas não podia fazer nada. Eram muitos e tinham uma aparência assustadora, até para um morador de favela que já viu de tudo. O mecânico voltou rapidamente com a bomba de gasolina. Quando chegou, veio perguntando se Carlos Eduardo tinha dinheiro para pagar o serviço dele e a bomba de gasolina. Não tinha! Tinha no banco. "Aceita cheque?" Aceitava! Fez o cheque no valor do serviço do mecânico e no valor da bomba de gasolina. ficou impressionado com o preço do serviço do mecânico, pois era quase o dobro do valor da bomba. "Acho que vou estudar mecânica. Assim dá pra ficar rico cobrando isso!" Colocou a bomba no lugar em menos de quinze minutos e o carro estava pronto para voltar a rodar. Antes de voltar para a Avenida Brasil, o mecânico apontou para roda direita da frente e falou: "Ô, tá careca pra caralho! Tem de trocar! Se não vai te deixar na mão otra veiz!" Carlos Eduardo foi olhar. Estava careca. "Será que não tinha visto isto?" Não lembrava mais. Resolveu ir embora para casa o mais depressa possível, mas com muita cautela para não estourar ali no meio da rua.
Chegou em casa e foi aquela festa na rua. Vieram todo mundo para olhar para o carro. Examinaram desejosos cada detalhe do Chevy 78 marrom de Carlos Eduardo. As irmãs ficaram com inveja e desdenharam o carro. Os amigos davam tapinhas nas costas dele e planejavam viagem para a região dos Lagos onde "Iam pegar muita mulher!" Até mesmo a Sonia, uma moreninha linda da rua de baixo, que Carlos Eduardo era apaixonado, mas nunca tinha dado bola para ele, ficou olhando de forma lânguida para ele. Ele se sentiu o máximo! Aquela chegada apoteótica já valera cada centavo da aquisição daquele Chevy 78. Estava realmente feliz!
Arranjou um lugar para estacionar o carro e foi para casa para ligar para um amigo dele que era mecânico. Queria que examinasse o carro, antes de ficar rodando por aí e não ter mais nenhuma surpresa desagradável com a bomba de gasolina ou outro detalhe insignificante qualquer. Marcaram para levar o carro na segunda de noite, depois do trabalho de Carlos Eduardo. Ele o deixou lá para o sério e compenetrado amigo, que pediu que voltasse na sexta, e até lá já poderia dar todos os detalhes. Quase uma semana?!?! Reclamou muito. Estava louco de vontade de levar o pessoal do trabalho na sexta para beber e poder mostrar o carro para eles, mas o amigo mecânico disse não poder correr com as coisas, pois tinha outros carros 'pagantes' para cuidar. Carlos Eduardo entendeu a mensagem e foi para casa frustrado.

19 abril 2008

Poesia - Progressiva Escuridão

Hora de desabafo. Nem sempre conseguimos escrever algo sem deixar transparecer um certo desânimo com algum aspecto da vida. Algum aspecto que não controlamos... que não podemos influenciar diretamente. Nosso poeta traz o seu desabafo para fatos corriqueiros de nossa vida.

PROGRESSIVA ESCURIDÃO

Houve um tempo
Em que a dúvida
Não existia.

Por mais impenetráveis
Que pudessem
Se mostrar
As negras nuvens
De maus presságios,

Havia a certeza de que
A luz do sol prevaleceria,
Dissolvendo-as em criadora chuva.

E ao fim do ciclo natural,
Como que num balanço
Das atividades do universo,
O bem se sobreporia ao mau
E justiça então refeita.

Foi-se o tempo da certeza,
As trevas se fortaleceram
Em cor e espessura,
Já não se deixam
Transpor pela luz,
Que sufocada apenas
Escapa por raros orifícios ocasionais.

Corre perigo a justiça,
Que acuada pela proliferativa
Inversão de valores,
Aguarda humilhada a sua queda
Em favor do coroamento da iniqüidade,

Que já se faz fértil.
E sem rédeas,
Espalha seu sêmem de sangue
No útero de obscuras mentes
Ávidas dela.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Com Amor

Existem inúmeros preconceitos em nossa vida, muitos deles não são visíveis ou, a maioria das pessoas não considera como sendo preconceito. Esta estória toca em um preconceito sobre: moderno e antiquado, passado e futuro, certo e errado, como estes conceitos são fluídos e dependem do objetivo de cada um de nós.

Conheci Carla e Rafa na minha adolescência. Eram muito amigas, desde muito novas, pois estudavam no mesmo colégio quando eram crianças. As famílias chegaram mesmo a conviver juntas, apesar de todas as diferenças entre elas. Era isso o incrível do relacionamento de ambas. As diferenças culturais. Era dar uma pequena olhada nas duas amigas juntas, para perceber como não tinham nada em comum. Carla era filha de uma família de classe média bem brasileira, onde o pai exercia o cargo de gerente de uma concessionária de automóveis e a mãe era dona de casa, mas estudou até o segundo grau e fez o famoso 'Normal', preparatório para professores de Primeiro Grau. Rafa, ao contrário, era filha de uma família mulçumana do norte da África que viera estabelecer um negócio de especiarias. Montaram uma loja no Centro do Rio.
Carla era a 'moderninha' da dupla, gostava de roupas justas e bem curtas. Usava muita maquiagem e a cada semana aparecia com seu cabelo louro em um novo jeito. Rafa era a tradicional, usava roupas largas e compridas e dificilmente mexia no seu aspecto físico, mas sempre usava muitos adereços femininos como: colares, rendas, prendedores de cabelo, anéis e etc. Além disso, o comportamento de ambas ressaltava as diferenças entre elas, pois a falante Carla adorava chamar a atenção de todas as formas possíveis, com seu jeito de andar e até com o espalhafatoso dialogo das suas mãos. Rafa era a comedida, todo seu movimento e ações eram meticulosamente executados em um equilíbrio lindo de se ver. Dificilmente percebíamos suas mãos ou seu andar, que parecia não ter os pés tocando no chão, mesmo o movimento de seu corpo denotava esta leveza de ser. Uma ao lado da outra, era impossível de não se perguntar como conseguiram ser amigas.
Infelizmente, o relacionamento começou a desmoronar, quando Carla, é claro, arrumou o primeiro namorado. Precoce, como sempre, aos quinze já estava namorando uma menino do colégio, duas séries à frente. Rafa nem olhava para os meninos quando faziam educação física, imagina namorar. Carla ainda fez um esforço de manter a proximidade com a amiga, buscando levá-la consigo para 'segurar vela'. É claro, não deu certo. O choque de eventos díspares foram as separando lentamente. Faltava assunto comum, interesses comuns e objetivos comuns. Carla passou a dedicar sua vida aos relacionamentos sociais, enquanto Rafa aos estudos e a família. No ano que fizeram vestibular, nem ao menos se falavam, uma nem sabia qual era a opção de carreira da outra. A cultura as separou!
Apesar de não serem mais amigas, a convivência social de Carla a fazia encontrar de vez quando com a ex-amiga, mesmo que não falassem quase nada uma com a outra, quando o grupo do colégio se reunia. Em uma noite que estava em um quiosque na praia, encontrei com Rafa e ficamos conversando, sempre gostei de descobrir as nuances de uma cultura diferente da minha. O papo foi ficando cada vez mais animado, até ela me contar que iria se casar. Fiquei assustado, pois nunca a vi com nenhum garoto até ela ter me dito aquilo. Ela explicou: era um casamento arranjado por sua família com um rapaz que viera do Marrocos. As famílias se conheciam há muitos anos e decidiram uní-las, via o casamento de seus filhos. Achei aquilo um absurdo, mas resolvi não dizer nada, pois aquele era um traço de sua cultura e Rafa parecia não estar infeliz com aquilo. Foi quando Carla surgiu do nada com o novo namorado, que eu nunca tinha visto antes, e fez um verdadeiro escândalo. "Como você pode aceitar isto? Você já é uma mulher adulta? Não pode casar sem amor!" Os gritos eram 'mão única', já que Rafa escutava tudo calada e com a cabeça baixa, parecia humilhada e desconfortável. Não falou nada... não respondeu aos gritos e a humilhação de sua ex-melhor amiga. Carla quando percebeu que Rafa não iria discutir ou debater o assunto com ela, fez um gesto com a mão indicando estar cansada de falar e da ex-amiga. Arrastou o namorado pelo braço para longe de nós dois e nem nos apresentou ao novo candidato a maior 'amor de sua vida'.
Depois deste infeliz incidente, Rafa parou de frequentar as reuniões do pessoal do colégio, que já começava a se desintegrar pelos destinos diferentes que escolhiam cada um dos membros. Soube, algum tempo depois, que ela realmente se casara com o desconhecido do Marrocos. Fiquei com pena dela. Meu convívio passou a ser apenas com a Carla, pois começou a trabalhar com meu irmão mais novo e assim, sempre ouvia falar dela, pois meu irmão era um fã incondicional de sua beleza.
Carla conseguiu se formar em Nutrição e um ano depois apresentou um executivo júnior de uma empresa de computadores. Estavam irremediavelmente apaixonados. Todo mundo dizia e achava isso. Era o casal nota mil! Ele era o verdadeiro Príncipe Encantado que toda mulher gostaria de encontrar. Bonito, com dinheiro e carinhoso. Viviam rindo e felizes. O caminho natural era o casamento. e foi o que aconteceu! Estive na festa, pois meu irmão foi convidado e me arrastou. Lembro bem, de várias mulheres de idades diferentes vaticinando que este era um casamento para dar certo. Nada poderia ser mais perfeito que aqueles dois, principalmente, apaixonados como estavam e no início de uma vida comum.
Uma coisa aprendi na vida: "A unanimidade é extremamente burra!" O casamento de Carla foi 'pro vinagre' mais rápido que o mais pessimista dos pessimistas poderia profetizar. Os problemas surgiram lentamente e eram o assunto preferido no escritório que meu irmão trabalhava com ela. Os comentários eram os mais diversos sobre o assunto, cada um queria desvendar o mistério daquele monumental fracasso, pelo menos na opinião da própria protagonista. Resolveram não se separar e fazer um esforço para fazer o casamento funcionar, visitaram inclusive uma terapeuta de casais para ajudá-los.
Nesta época, estava vivendo sozinho e aprendendo a cozinhar. Adorava temperos e pensei em testar alguns temperos diferentes. Fui até o Saara, no Centro do Rio, e visitei algumas das lojas especializadas. Em uma delas, a balconista era a Rafa. O encontro foi legal, ela me explicou bastante sobre especiarias e seus usos mais comuns e diversas combinações legais. Fomos almoçar juntos e ela ficou tão entusiasmada ao me encontrar, que queria me apresentar ao marido arranjado. Fomos até a loja onde ele trabalhava, também no Saara, e fomos apresentados. A primeira impressão que me deu, era de um cara grosso e distante, que não havia gostado nenhum um pouco daquela intimidade entre eu e sua esposa. Ficou calado quase o tempo todo, enquanto Rafa e eu revivíamos os tempos do colégio. Sai daquela tarde com a nítida impressão que ele não fora com a minha cara.
Ledo engano! Na semana seguinte, fui convidado pelo casal para participar de uma festa típica deles, algum tipo de comemoração importante em sua cultura. Adorei o convite, fui e me diverti bastante. Acabei descobrindo que todos os homens da família deles agiam assim na primeira vez que encontravam um estranho. O examinavam em todos os pormenores para depois de abrirem e o tratarem como um membro da família. Fiz grandes amizades entre eles. Adorei!
Ao reviver minha amizade com a Rafa, meu irmão me procurou para ajudarmos a Carla, a ex-melhor amiga, pois tinha alguns dias que ela não ia trabalhar e não dava notícias. Fui com meu irmão até a casa dela e a encontramos em uma grande depressão. O casamento havia acabado! Havia acabado o conto de fadas! Não tinha coragem de encarar sua família e seus amigos. Sentia vergonha de seu fracasso. 'Ttinha uma expectativa tão grande neste casamento!' 'Ele era o homem certo, não era?' Pelo menos para mim sim, se alguém me perguntasse se havia um casal que se amava, eu citaria os dois. Mas, aparências enganam! Tentamos tudo que podíamos para animá-la e tirá-la daquele estado de auto-piedade. Nada pareceu funcionar. Decidimos desistir e procurar a família dela, mas ela não deixou, queria contar ela mesma para eles sobre tudo.
Fomos embora e no dia seguinte encontrei a Rafa. Contei tudo sobre sua ex-melhor amiga e o que ela estava passando. ficou consternada e pediu ao pai que a liberasse da loja, pois não podia deixar uma amiga neste estado. Pediu que eu esperasse um pouco, pois teria de avisar ao marido aonde iria. Quando voltou, estava acompanhada por ele. Iriam ambos visitar a Carla e tentar animá-la. A intenção era reconfortá-la, mas o efeito foi o inverso. Aquele feliz casal arranjado na frente dos olhos dela, pareceu aumentar sua infelicidade e seu fracasso pessoal. Piorou quando Rafa falou da filha de um ano e Carla foi ao inferno e voltou. A felicidade de ambos transbordava a olhos vistos. Carla me puxou e pediu que levasse o casal embora, pois não estava aguentando. Tudo bem, achei uma tremenda ingratidão, mas pedi para Rafa e seu marido irem embora. Foram!
Voltei para Carla para dar-lhe uma grande bronca por aquela atitude ingrata, mas a encontrei chorando copiosamente. Cheguei perto e ela me agarrou pela camisa e gritou para mim: "O que eu sei da vida?" Ela havia casado por amor e quase agrediu a ex-amiga por estar se casando com um homem que ela nunca vira na vida. Hoje, seu casamento por amor fracassara e o casamento arranjado dela era perfeito. O que sabemos da vida?

12 abril 2008

Poesia - Vento & Leme

Para onde vamos? Qual nosso destino? Somos nós quem decide isto? Nosso poeta toca neste delicado assunto, nos dando um norte ao qual podemos seguir.

O VENTO E O LEME

Há na vida pouco mais que o acaso.
Inesperado vento
De origem desconhecida,
Que destrói o planejamento
De seguras rotas

E nos coloca à deriva,
Num sem fim
Mar de possibilidades,

Na ânsia da segurança
De um porto,
Traçamos novas vias imaginárias,
Que acreditamos capazes
De dar às nossas mãos
O domínio de leme
De nós mesmos.

Mas o aleatório existe.
Assombra direções e sentidos
E nos faz alvo,
À mercê de si próprio.

De tal modo se mostra
Surpreendente a ação do acaso,
Que esta pode nos conduzir serenos,
A alcançar nosso destino
Sem desnortear nossas bússolas,
Nem rasgar nossos mapas.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Política

Todos nós execramos a política e seuis agentes, sem nos darmos conta de que somos os principais agentes. Se um político ou grupo de políticos rouba, extorqui ou mata, a culpa é de uma única pessoa: Nós. Nós, o povo! Fomos, nós que os colocamos em posição de realizar tudo aquilo de errado que ele fez. Nós somos os únicos culpados! Não é uma opinião para livrar a 'cara' daqueles safados e sem coração, mas uma afirmação para demonstrar que não podemos fugire a responsabilidade. Fomos nós, unicamente nós que escolhemos os 'safados' a exercerem o poder advindo do povo. Foi o povo, somente ele, que colocou aqueles corruptos xerocopiados de si mesmo lá. Esta é uma história de alçgo semelhante, para rerfletirmos sobre nosso papel no processo democrático, que não passa pela anulação do voto.

O morro era um lugar tranqüilo até a 'explosão imobiliária' acontecer. A presença da Shell e da Esso, juntamente com o terminal da Petrobrás e a construção da Base Aérea do Galeão, atraiu um grande número de pessoas para a Ilha do Governador. Na época, havia apenas duas favelas ou comunidades pobres na Ilha: o Dendê e o Boogie Woogie. O Dendê, por sua posição central no bairro, foi logo ocupado. O Boogie Woogie sofreu um processo mais lento.
Este processo lento deu uma oportunidade de ouro para os aproveitadores imobiliários. Várias pessoas cercavam terrenos baldios, que ninguém sabia a quem pertencia, e os vendia para novos moradores. No princípio, quando ainda havia muitos terrenos, tudo correu com grande normalidade. Quando a terra começou a ficar escassa, os tumultos e as brigas tiveram início. Algumas foram fáceis de resolver entre os vizinhos, chegando uma cerca para um lado ou para outro. O grande problema surgiu quando dois trambiqueiros vendiam o mesmo terreno a duas pessoas diferentes. As brigas eram intensas e resolviam tudo no 'muque'. Até descobrirem uma invenção moderna: o revolver.
Em uma briga por um terreno vendido a duas pessoas diferentes, o mais fraco pegou uma arma que trazia consigo e deu três tiros na cabeça de seu adversário. Problema resolvido! Ninguém ficou com o terreno. Era óbvio para todos que teriam de resolver estas disputas, mas sem a presença do estado e sem documentação oficial da terra, como poderiam resolver isto. Todos usufruíam da terra em usucapião, não tendo direito real sobre ela e nem mesmo uma escritura para delimitar o terreno.
A solução veio com o Paulo Augusto, o Seu Paulinho. Ele decidiu fundar uma Associação dos Moradores, que demarcaria as terras e entregaria um documento de posse, sendo a sede que intermediaria as disputas entre vizinhos e novos moradores. Para tanto, Seu Paulinho contou com o apoio paisano de alguns policiais militares, mui amigos seus. Quando novos 'espertinhos' surgiam para se aproveitar da situação, os paisanos militares agiam, dando uma rápida solução. Assim, em pouco tempo, as disputas minguaram e a sede da Associação passou a ser um ponto de frequentes encontros dos moradores para decidirem os destinos da comunidade. A Associação passou a fazer o papel que a Igreja vinha fazendo até então, ao substituir o Estado constituído no morro. Surgiu, então, a necessidade de realizar melhorias na sede para recepcionar os Associados. Inventaram a taxa de associado. Todos tinham de contribuir. A concordância foi geral e, rapidamente, o caixa da Associação tinha dinheiro suficiente para realizar as melhorias necessárias para a sede.
Depois da melhoria da sede, fizeram uma arrecadação para instalar uma bica d'água na parte de cima do morro. A bica levantou a necessidade de uma bomba d'água, já que a CEDAE não podia cuidar disto, pois a Comunidade, oficialmente, não existia. Uma necessidade puxava a outra e as contribuições foram aumentando seu volume e apertando os orçamentos dos moradores, pois a Associação era insaciável, como quase todo órgão público criado por brasileiros. Chegou a um ponto, que os moradores fizeram uma reunião para discutir o fim daquelas intermináveis contribuições. Seu Paulinho resistiu bravamente ao fim das contribuições, mas quando foi colocado em cheque sua posição à frente da Associação... ele recuou. As contribuições foram eliminadas e estabeleceram que deveria haver uma votação para escolher o Presidente da Associação. Seu Paulinho foi radicalmente contra! A Associação foi uma criação sua e não dos moradores, fora ele quem colocara 'ordem na casa'. Não podiam fazer aquilo com ele. Mas fizeram!
A eleição veio. Aconteceu aos trancos e barrancos para, na verdade, nada mudar. Seu Paulinho foi escolhido como Presidente. Era melhor um demônio conhecido do que outro completamente desconhecido, alguém falou a meu pai isto uma vez. A bagunça, mesmo assim, continuou acentuada, pois nem ao menos tinham uma idéia de quanto tempo seria o mandato do novo cargo da Associação. Ninguém chegou em um acordo e o próprio Presidente estabeleceu 6 anos para sua permanência. O mandato do novo Presidente foi marcado pelo: nada. Nada era feito! Nada acontecia! Nada mudava!
Seu Paulinho argumentava que não podia fazer nada, pois não havia dinheiro em caixa para fazer nada, pois haviam acabado com as contribuições para a Associação. Ele era um mero Presidente de fachada, pois não tinha nada o que pudesse fazer pela Comunidade. Desta maneira, o mandato dele se arrastou, no último ano de governo, ninguém nem lembrava que deveria acontecer uma eleição para substituir o atual Presidente. De fato, não existia nem ao menos oposição. Foi quando surgiu um novo morador, que percebeu uma oportunidade de tomar o lugar de Seu Paulinho na liderança da Comunidade. Procurou alguns vereadores e fez promessas de apoio, caso os vereadores conseguissem algumas melhorias para o morro. No mês seguinte, alguns homens da prefeitura estavam dentro do morro retirando os paralelepípedos e colocando asfalto no lugar. O ganho era nenhum para os moradores, mas era uma mudança substancial na posição da comunidade. Era a primeira vez que o poder constituído fazia algo por eles, graças aquele bom jovem, que agora era candidato à Presidência da Associação dos Moradores.
Seu Paulinho percebeu que sua posição estava seriamente ameaçada, tratou de arrumar garantias. Procurou políticos adversários e conseguiu que a CEDAE entrasse no morro e instalasse água encanada para os moradores. No acordo, a sede ficaria responsável pela cobrança aos moradores da taxa d'água. Instalaram em tempo recorde o encanamento, para isso destruíram o asfalto recém colocado. Tudo bem, era por um bem maior. Água encanada! Seria o fim da falta d'água! Nunca mais carregar água em cambões, em latas de tinta de 20 litros ou ficar no desespero carregando água madrugada adentro. Aquela vitória pessoal de Seu Paulinho deveria ser o suficiente para garantir sua eleição para mais um mandato. Mas não, a disputa continuou apertada, pois o adversário argumentava, se ele podia fazer aquilo, por quê não fizera antes. Levantou a desconfiança dos moradores. Seu Paulinho ficou com medo de perder e inventou uma regra de última hora, só poderia votar quem fosse inscrito na Associação, se não tivesse registrado na Associação, mesmo sendo morador, não poderia votar. Foi o caos, em seis anos a rotatividade de moradores foi muito grande, pelo menos 30% dos moradores não puderam votar. Os mais antigos, apoiavam incondicionalmente Seu Paulinho, que foi reeleito para mais um mandato de seis anos. Seriam mais seis anos marcados pela política do nada. Nada fazia. Nada queria. Nada era esperado.
Seu Paulinho percebeu que teria de se preparar desde cedo para não dar espaço para algum espertalhão ocupar seu lugar na Associação. Criou uma contribuição anual para os moradores ficarem registrados na sede da Associação, caso a contribuição não fosse paga, o morador não teria direito a voto na eleição. Percebendo o efeito de seu 'édito', Seu Paulinho tomou gosto pela Legislatura. Começou a criar leis para garantir sua posição de líder da comunidade, não permitindo espaço para mais ninguém. Acabou buscando aliados nos mesmos homens que um dia havia enfrentado para organizar a favela. O ciclo voltava ao princípio.
Houve apenas um problema nos planos do Presidente da Associação, os políticos perceberam que a favela era uma boa e barata fontes de votos para suas campanhas eleitorais. Investiram em ações simples e populistas na favela, atraindo moradores para programas de assistencialismo, que acabaram enfraquecendo a Associação dos Moradores. Rapidamente, poucos moradores buscavam auxílio na Associação para resolver seus problemas. Os políticos padrinhos ficaram encarregados de resolver tudo. Vários benefícios foram levados para a comunidade por este novo trabalho de conquista de apoio político. Seu Paulinho até tentou surfar esta onda, mas não teve como acompanhar. Muitos políticos vinham de bairros distantes campear votos na comunidade. O morro perdeu sua espinha política. Perdeu, também, seu equilíbrio e sua cooperação. As pessoas voltaram a isolar-se nas próprias residências. Neste novo tempo, a Associação de Moradores foi transformada em uma mera instituição de fachada, que levou seu tiro de misericórdia com o tráfico de drogas. Poderia ter sido algo importante para o morro, mas deturpado, acabou sendo muito pouco útil no decorrer dos anos.
Seu Paulinho acabou morrendo quando concorria ao terceiro mandato. Assumiu um desconhecido qualquer que continuou a política do nada. Parece ser a política mais popular do Brasil!

05 abril 2008

Poesia - Vão-se os Dedos

O tempo, carrasco implacável, associado com nossos proprios erros cobram um preço alto na vida. Este é o tema dos versos de nosso poetinha esta semana.

VÃO-SE OS DEDOS

Constrói o homem o seu mundo,
De maravilhas mil,
Fundem em ouro seus sonhos
Dando forma ao que é vil.

Transforma a matéria bruta
Em espelho rico e polido,
Deixas um pouco de ti
Acelera seu tempo corrido.

Pinta com tinta fina
Seus sonhos em branco e preto,
Colore suas ilusões
Encobre seu próprio medo.

Acreditas sem duvidar,
No retorno que virá,
Soubeste agradar os olhos
De quem possa admirar.

Como um inseto inocente
Que pela luz é atraído,
Confiaste demais em teus olhos,
E por eles se fez traído.

Somaste tantas coisas
Que nem tens como contar,
Já sofres a ação do tempo,
Só faz agora penar.

Quantas coisas ricas
Todos se põem a proclamar,
Porém, corre em ti a angústia,
De ver tudo desabar.

Na corrida do que é fácil, rico, atrativo
E belo,
Esqueceste do que dá liga
Fez de areia seu castelo.

Num desespero final,
Que a sua loucura traduz,
Engole o amargo fruto,
Que o que plantaste produz.

Mauríco Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Verdadeiro Amor

O que temos de fazer para ser feliz? Ninguém tem a receita! Mas passei a me sentir melhor, no dia que alguém (Não me lmebro quem) disse para mim que para ser feliz é preciso amar a si mesmo. Desse momento em diante, minha vida mudou da água para o vinho. Esta é uma história de uma mulher que descobriu o mesmo a duras penas.

As luzes são magnéticas e atordoantes. Piscam o tempo todo e quase não dá para enxergar nada, o odor é uma mistura de diversos bouquês de perfumes, cerveja e carpete novo. O som é ensurdecedor e as pessoas dançam totalmente fora do ritmo da música, muitos nem sabem que tipo de música o DJ está tocando. Não é o lugar ideal para uma 'azaração', mas para Lúcia tem servido perfeitamente. Dificilmente, ela sai da boate sem companhia, apesar de ser solteira e estar passando da casa dos trinta. Não entende a afirmação de suas amigas de que 'falta homem no mercado'. Para ela, por enquanto, não sente esta 'escassez' masculina.
Seus olhos batem em um rapaz que está em uma mesa do canto tomando um drinque de cor esquisita. Dá 'bola' para ele e logo estão no meio do salão arriscando alguns passos desconcertados. Entre um intervalo e outro, conversam um pouco e se conhecem o suficiente para o objetivo daquela noite. Mais alguns drinques, vem o beijo. Depois do beijo, alguns 'amassos'. A noite segue seu curso e ambos acabam tendo um boa noite de amor no apartamento de Lúcia. Todas as suas amigas perguntam como ela tem coragem de levar um estranho para seu apartamento, mas Lúcia não 'encana' neste tipo de coisa, descobriu a duras penas, que o perigo 'dorme ao lado'. Foram mais de sete anos sofrendo calada. Não seria qualquer um que a faria voltar para aquela rotina.
Despacha o rapaz na manhã seguinte, nem o deixa tomar café da manhã com ela. Dá alguma desculpa bem 'esfarrapada' para ele e se livra. Ele insiste para ela ligar durante a semana e combinarem algo mais. Lúcia promete, mas não tem certeza nenhuma se estará com vontade de revê-lo uma vez mais. Sua vida está muito boa como está, a liberdade é bem mais doce do que ela lembrava. Sabe, que no almoço da segunda-feira com as amigas do escritório, todas vão lhe cobrar um relacionamento sério, um casamento, filhos... em suma, montar uma família para os dias de inverno que virão. Mas Lúcia tomou uma decisão há muito tempo atrás: nunca mais escreverá o livro de sua vida em função de um homem! Pode acontecer, mas ela vai lutar com todas as suas forças contra esta estupidez da sociedade.
A vida social de Lúcia é ótima! Cumpre com todos os seus compromissos sem ter de 'matar um leão' para convencer o 'companheiro' a ir naquele evento chato que odeia. Também, não tem que aguentar assistir aquela pelada de fim de semana, torcendo por um perna-de-pau que mal consegue acertar a bola. Não tem que visitar a sogra, para ela ensinar como cuidar de seu precioso 'filhinho', que esta mulher sem caráter e competência roubou dela. Lúcia tem seus namorados! Alguns duram algumas semanas, outros meses e uns poucos anos. A grande maioria dura uma noite apenas. Já foi chamada de puta por suas amigas e por alguns dos que se apaixonaram por ela. Mas Lúcia pouco importa a opinião de terceiros. Importa apenas a sua.
Carla, sua melhor amiga, afirma que ela é uma pessoa solitária, portanto... triste. Lúcia não se sente assim. Ama seus momentos de convívio consigo mesma, principalmente, por ter aprendido a amar a si mesma acima de todas as coisas. Egoísta? Alguém só é capaz de amar outro ser, se amar primeiro a si. Todos dizem, que o primeiro amor de todos nós, é a nossa mãe. Lúcia, não! Lúcia ama a si mesma primeiro. O dia que aprendeu esta regra básica do viver, conheceu a felicidade. Antes, obedecia cegamente os mandamentos da mulher perfeita. Lúcia casou e constituiu família, não teve filhos, 'Graças a Deus!' pensa. Sempre acompanhava o seu esposo a todos os eventos e ocasiões escolhidas por ele. A opinião dela era um mero detalhe sem importância. Conseguiu se formar, mas não exerceu sua profissão, pois o lugar de uma boa esposa é em casa, cuidando dos filhos e do marido. Era o seu pai e sua mãe falando. Tradicionalistas mineiros, família de ancestrais seculares, tão enferrujadas em suas idéias quanto a idade dos antepassados, que provavelmente, eram um bando de facínoras e assassinos.
Lúcia nunca esquece o dia em que foi até a casa de seus pais contar que havia apanhado do marido e que iria largá-lo. Os pais, como bons cristãos que são, não concordaram. Deus não concordaria com aquilo! A obrigação da mulher é respeitar seu marido. Mandaram-na de volta ao agressor e seu pai fez a vã promessa de conversar com ele. Inútil palavrório para quem entende a linguagem dos músculos e da selva. Lúcia pegou suas coisas mais queridas e roubou algum dinheiro do marido maravilhoso que tinha. Fugiu para outra cidade... outro estado. Começou a viver!
A nova vida mostrou como amar a si mesma, a tornou uma pessoa mais feliz. Arranjou um emprego quebra-galho, mas insistiu em conseguir um emprego em sua área. Surgiu uma oportunidade, agarrou com unhas e dentes, foi o sucesso que esperava. No novo emprego, construiu novas amizades e conheceu novos homens. Namorou bastante, mas decidiu não mais dividir sua cama por toda a eternidade. Não acreditava na suprema tolice da imbecilidade da idéia da alma gêmea. Observava suas amigas sofrendo e eternamente tristes com suas almas gêmeas, assim eleitas por elas. Quando chegava o fracasso inevitável, primeiro, era culpa deles e então, era porque ele não era o 'cara certo'. Existe esta coisa de cara certo? Lúcia perguntava a todas. O incrível era a quantidade de lágrimas que derramavam por estes 'caras errados'. Pior ainda, é que não desistiam da eterna busca. O Santo Graal das mulheres: o Homem Perfeito (o Príncipe Encantado/cavaleiro da Armadura Dourada) e o Casamento, sendo o segundo item o mais importante de todos.
Lúcia abdicou disto tudo. Focou em sua carreira e em sua vida. Passou a encarar a vida de uma forma mais feliz. Não tinha ninguém para sustentá-la e nem apoiá-la nos momentos difíceis. Só podia contar consigo mesma. Era o suficiente! Nunca mais aceitou que um homem pagasse suas despesas e nunca mais aceitou que um homem desse a última opinião sobre qualquer assunto que lhe interessasse. Lúcia criou seus próprios padrões de vida, libertou-se da sociedade e viveu. Sem marido... sem filhos... sem casamento! Apenas consigo mesma e... foi o suficiente! Descobriu o seu santo Graal... a felicidade! Descobriu... a si mesma. Passou a amar... a si mesma acima de todas as coisas!