Muitos sonhos são transformados em pesadelos pelos próprios sonhadores. Decisões precipitadas e expectativas maiores que a realidade compõem o caldeirão de decpções que as próprias pessoas criam param destruir seus sonhos. Um dos maiores sonhos do mundo masculino é ter um carro próprio. Esta é a estória de como alguém pode transformar este sonho em um grande pesadelo.
O sonho do primeiro carro é normalmente um sonho de adolescente. A classe média tem por hábito presentear o sucesso de seus filhos com um carro, na maioria das vezes, o carro velho da família. Os filhos adolescentes na classe média começam a dirigir com dezesseis e existem casos em que começam ainda mais cedo. De forma responsável ou não, cabe aos pais pensarem a respeito. Na favela ou no morro, o sonho do carro próprio é um sonho distante para os adolescentes. É um sonho possível apenas para os adultos.
Carlos Eduardo era um destes sonhadores. Sua adolescência foi recheada de sonhos com um carro, principalmente, o seu favorito: o Chevette 78. Ele babava quando via na rua um Chevette 78 marrom passar. Ele não parava de pensar em todos os detalhes que decoraria o carro se tivesse um. Pensava nas calotas que colocaria, no painel de madeira que substituiria, na cobertura do estofamento dos assentos que usaria, até mesmo o som da buzina fazia parte de seus sonhos. Foi um sonho não realizado completamente.
Após completar o Segundo Grau, Carlos Eduardo fez um curso técnico especializado e conseguiu um estágio. O dinheiro era pouco e tinha de colaborar nas despesas da casa, pois era o único dos filhos que tinha idade para trabalhar. O sonho não pode ser satisfeito... ainda. O tempo passou e seus irmãos e irmãs cresceram e puderam criar suas próprias vidas. Principalmente, passaram a ter seu próprio dinheiro. O peso das despesas da casa diminuiu e Carlos Eduardo podia sonhar em economizar para comprar o tão sonhado carro.
A poupança de cinco anos, nunca parecia o suficiente para comprar um carro. O sonho sempre parecia distante e todos davam conselhos do que deveria fazer: "Não esqueça de ver a mecânica do carro, se o motor tiver legal... o resto se arranja!"; "Leva alguém que entenda com você pra te ajudar!"; "Compra na loja, porquê é mais seguro!" e por aí vai. Carlos Eduardo ouvia tudo e não guardava nada. Só conseguia pensar no carro. Foi quando apareceu uma pechincha no Balcão. Era um Chevette 78 pela metade do preço. O melhor de tudo, era marrom com bancos de couro. Carlos Eduardo pegou o jornal e ligou para o vendedor. O cara era de Caxias, na Baixada, um bairro do qual nunca ouvira falar, combinou um encontro com o dono. Este explicou a forma mais segura de chegar perto da casa dele e marcou um ponto de encontro em um local conhecido de ambos.
Domingo de manhã bem cedo, Carlos Eduardo já estava na Terra "Onde Judas Perdeu as Botas" para ver o carro. Apesar dos conselhos, foi sozinho. Chegou lá, a carroceria estava impecável, pelo menos, superficialmente. Olhou cada detalhe do exterior do carro com ares de entendido. Não viu nada de errado com ele. Pediu para ligar o carro e ouvir o motor. O som era potente e forte, deram uma volta com ele e Carlos Eduardo dirigiu pela primeira vez o tão sonhado Chevette 78.
A direção tinha uma folga e o pedal do freio estava duro. A embreagem estava agarrando na segunda, mas não pareceu nada de difícil conserto. O carro puxava na direção um pouco para a esquerda. Carlos Eduardo imaginou ser um probleminha de suspensão. "Deve ter colocado amortecedores velhos e guardado os novos para vender para alguém." pensou Carlos Eduardo. Fez algumas perguntas e negociou o preço, conseguiu dividir o pagamento em duas vezes. O proprietário concordou. Foi tudo muito fácil. O carro era dele! Combinaram em finalizar o negócio no final de semana seguinte, quando traria a primeira parte do dinheiro.
A semana foi de uma excitação sem tamanho para Carlos Eduardo. Não parava de sonhar com o momento em que chegaria com o carro em casa e mostraria para todo mundo o 'carrão' que comprara. Não falou para ninguém sobre o grande negócio que fechara, queria provocar inveja em todo mundo. No sábado à noite, não conseguiu dormir de tão excitado que estava. Ficou na varanda de casa esperando o sol nascer e se mandar para Caxias. Não avisou ninguém. Chegou na casa do proprietário antes que ele e a família estivessem acordados. Olhou o carro na garagem e sorriu de felicidade, pois estava com medo de que alguém pudesse aparecer com dinheiro na mão e levar seu querido carro embora. Dinheiro e recibo mudaram de mão. As chaves foram entregues e Carlos Eduardo pôde ouvir o som do motor comandando sua volta para casa motorizado no carro de seus sonhos. Não conseguia segurar a emoção da expectativa de ver a cara de suas irmãs, quando chegasse com o carro lá.
Dirigiu tranquilamente pela Washington Luís e depois pegou a pista do meio da Avenida Brasil. Na altura da Penha, antes de chegar no viaduto de entrada para a Ilha do Governador, o carro começou a engasgar. Parou no meio da pista. Uma carreta quase o pegou no meio. Teve de sair do carro e empurrá-lo para o encostamento da baia de segurança. Todos os motoristas que passavam o xingavam e mandavam tirar aquela lata velha do caminho. A humilhação foi completa!
Abriu o capô do carro e olhou para dentro. Não viu nada que pudesse estar errado, mas, também, ele não entendia nada de mecânica para poder saber. Havia um posto de gasolina a uns dois quilômetros antes de onde ele estava estacionado. Trancou o carro e foi até o posto para tentar encontrar um mecânico. Para sua felicidade, havia um lá e o mecânico aceitou ir ver o carro. Chegou, ligou o carro e ficou escutando o motor. Sorriu e deu o veredicto: bomba de gasolina. Disse ser algo simples e não precisava se preocupar, tinha uma na oficina perto do posto. Foi buscar, enquanto Carlos Eduardo ficava no sol tomando conta do carro. Era meio-dia e o sol estava de 'rachar'. Para piorar, começou a juntar uns caras estranhos em volta do carro. Faziam perguntas, mexiam na carroceria e riam bastante. Carlos Eduardo ficava cada vez mais incomodado, mas não podia fazer nada. Eram muitos e tinham uma aparência assustadora, até para um morador de favela que já viu de tudo. O mecânico voltou rapidamente com a bomba de gasolina. Quando chegou, veio perguntando se Carlos Eduardo tinha dinheiro para pagar o serviço dele e a bomba de gasolina. Não tinha! Tinha no banco. "Aceita cheque?" Aceitava! Fez o cheque no valor do serviço do mecânico e no valor da bomba de gasolina. ficou impressionado com o preço do serviço do mecânico, pois era quase o dobro do valor da bomba. "Acho que vou estudar mecânica. Assim dá pra ficar rico cobrando isso!" Colocou a bomba no lugar em menos de quinze minutos e o carro estava pronto para voltar a rodar. Antes de voltar para a Avenida Brasil, o mecânico apontou para roda direita da frente e falou: "Ô, tá careca pra caralho! Tem de trocar! Se não vai te deixar na mão otra veiz!" Carlos Eduardo foi olhar. Estava careca. "Será que não tinha visto isto?" Não lembrava mais. Resolveu ir embora para casa o mais depressa possível, mas com muita cautela para não estourar ali no meio da rua.
Chegou em casa e foi aquela festa na rua. Vieram todo mundo para olhar para o carro. Examinaram desejosos cada detalhe do Chevy 78 marrom de Carlos Eduardo. As irmãs ficaram com inveja e desdenharam o carro. Os amigos davam tapinhas nas costas dele e planejavam viagem para a região dos Lagos onde "Iam pegar muita mulher!" Até mesmo a Sonia, uma moreninha linda da rua de baixo, que Carlos Eduardo era apaixonado, mas nunca tinha dado bola para ele, ficou olhando de forma lânguida para ele. Ele se sentiu o máximo! Aquela chegada apoteótica já valera cada centavo da aquisição daquele Chevy 78. Estava realmente feliz!
Arranjou um lugar para estacionar o carro e foi para casa para ligar para um amigo dele que era mecânico. Queria que examinasse o carro, antes de ficar rodando por aí e não ter mais nenhuma surpresa desagradável com a bomba de gasolina ou outro detalhe insignificante qualquer. Marcaram para levar o carro na segunda de noite, depois do trabalho de Carlos Eduardo. Ele o deixou lá para o sério e compenetrado amigo, que pediu que voltasse na sexta, e até lá já poderia dar todos os detalhes. Quase uma semana?!?! Reclamou muito. Estava louco de vontade de levar o pessoal do trabalho na sexta para beber e poder mostrar o carro para eles, mas o amigo mecânico disse não poder correr com as coisas, pois tinha outros carros 'pagantes' para cuidar. Carlos Eduardo entendeu a mensagem e foi para casa frustrado.
O sonho do primeiro carro é normalmente um sonho de adolescente. A classe média tem por hábito presentear o sucesso de seus filhos com um carro, na maioria das vezes, o carro velho da família. Os filhos adolescentes na classe média começam a dirigir com dezesseis e existem casos em que começam ainda mais cedo. De forma responsável ou não, cabe aos pais pensarem a respeito. Na favela ou no morro, o sonho do carro próprio é um sonho distante para os adolescentes. É um sonho possível apenas para os adultos.
Carlos Eduardo era um destes sonhadores. Sua adolescência foi recheada de sonhos com um carro, principalmente, o seu favorito: o Chevette 78. Ele babava quando via na rua um Chevette 78 marrom passar. Ele não parava de pensar em todos os detalhes que decoraria o carro se tivesse um. Pensava nas calotas que colocaria, no painel de madeira que substituiria, na cobertura do estofamento dos assentos que usaria, até mesmo o som da buzina fazia parte de seus sonhos. Foi um sonho não realizado completamente.
Após completar o Segundo Grau, Carlos Eduardo fez um curso técnico especializado e conseguiu um estágio. O dinheiro era pouco e tinha de colaborar nas despesas da casa, pois era o único dos filhos que tinha idade para trabalhar. O sonho não pode ser satisfeito... ainda. O tempo passou e seus irmãos e irmãs cresceram e puderam criar suas próprias vidas. Principalmente, passaram a ter seu próprio dinheiro. O peso das despesas da casa diminuiu e Carlos Eduardo podia sonhar em economizar para comprar o tão sonhado carro.
A poupança de cinco anos, nunca parecia o suficiente para comprar um carro. O sonho sempre parecia distante e todos davam conselhos do que deveria fazer: "Não esqueça de ver a mecânica do carro, se o motor tiver legal... o resto se arranja!"; "Leva alguém que entenda com você pra te ajudar!"; "Compra na loja, porquê é mais seguro!" e por aí vai. Carlos Eduardo ouvia tudo e não guardava nada. Só conseguia pensar no carro. Foi quando apareceu uma pechincha no Balcão. Era um Chevette 78 pela metade do preço. O melhor de tudo, era marrom com bancos de couro. Carlos Eduardo pegou o jornal e ligou para o vendedor. O cara era de Caxias, na Baixada, um bairro do qual nunca ouvira falar, combinou um encontro com o dono. Este explicou a forma mais segura de chegar perto da casa dele e marcou um ponto de encontro em um local conhecido de ambos.
Domingo de manhã bem cedo, Carlos Eduardo já estava na Terra "Onde Judas Perdeu as Botas" para ver o carro. Apesar dos conselhos, foi sozinho. Chegou lá, a carroceria estava impecável, pelo menos, superficialmente. Olhou cada detalhe do exterior do carro com ares de entendido. Não viu nada de errado com ele. Pediu para ligar o carro e ouvir o motor. O som era potente e forte, deram uma volta com ele e Carlos Eduardo dirigiu pela primeira vez o tão sonhado Chevette 78.
A direção tinha uma folga e o pedal do freio estava duro. A embreagem estava agarrando na segunda, mas não pareceu nada de difícil conserto. O carro puxava na direção um pouco para a esquerda. Carlos Eduardo imaginou ser um probleminha de suspensão. "Deve ter colocado amortecedores velhos e guardado os novos para vender para alguém." pensou Carlos Eduardo. Fez algumas perguntas e negociou o preço, conseguiu dividir o pagamento em duas vezes. O proprietário concordou. Foi tudo muito fácil. O carro era dele! Combinaram em finalizar o negócio no final de semana seguinte, quando traria a primeira parte do dinheiro.
A semana foi de uma excitação sem tamanho para Carlos Eduardo. Não parava de sonhar com o momento em que chegaria com o carro em casa e mostraria para todo mundo o 'carrão' que comprara. Não falou para ninguém sobre o grande negócio que fechara, queria provocar inveja em todo mundo. No sábado à noite, não conseguiu dormir de tão excitado que estava. Ficou na varanda de casa esperando o sol nascer e se mandar para Caxias. Não avisou ninguém. Chegou na casa do proprietário antes que ele e a família estivessem acordados. Olhou o carro na garagem e sorriu de felicidade, pois estava com medo de que alguém pudesse aparecer com dinheiro na mão e levar seu querido carro embora. Dinheiro e recibo mudaram de mão. As chaves foram entregues e Carlos Eduardo pôde ouvir o som do motor comandando sua volta para casa motorizado no carro de seus sonhos. Não conseguia segurar a emoção da expectativa de ver a cara de suas irmãs, quando chegasse com o carro lá.
Dirigiu tranquilamente pela Washington Luís e depois pegou a pista do meio da Avenida Brasil. Na altura da Penha, antes de chegar no viaduto de entrada para a Ilha do Governador, o carro começou a engasgar. Parou no meio da pista. Uma carreta quase o pegou no meio. Teve de sair do carro e empurrá-lo para o encostamento da baia de segurança. Todos os motoristas que passavam o xingavam e mandavam tirar aquela lata velha do caminho. A humilhação foi completa!
Abriu o capô do carro e olhou para dentro. Não viu nada que pudesse estar errado, mas, também, ele não entendia nada de mecânica para poder saber. Havia um posto de gasolina a uns dois quilômetros antes de onde ele estava estacionado. Trancou o carro e foi até o posto para tentar encontrar um mecânico. Para sua felicidade, havia um lá e o mecânico aceitou ir ver o carro. Chegou, ligou o carro e ficou escutando o motor. Sorriu e deu o veredicto: bomba de gasolina. Disse ser algo simples e não precisava se preocupar, tinha uma na oficina perto do posto. Foi buscar, enquanto Carlos Eduardo ficava no sol tomando conta do carro. Era meio-dia e o sol estava de 'rachar'. Para piorar, começou a juntar uns caras estranhos em volta do carro. Faziam perguntas, mexiam na carroceria e riam bastante. Carlos Eduardo ficava cada vez mais incomodado, mas não podia fazer nada. Eram muitos e tinham uma aparência assustadora, até para um morador de favela que já viu de tudo. O mecânico voltou rapidamente com a bomba de gasolina. Quando chegou, veio perguntando se Carlos Eduardo tinha dinheiro para pagar o serviço dele e a bomba de gasolina. Não tinha! Tinha no banco. "Aceita cheque?" Aceitava! Fez o cheque no valor do serviço do mecânico e no valor da bomba de gasolina. ficou impressionado com o preço do serviço do mecânico, pois era quase o dobro do valor da bomba. "Acho que vou estudar mecânica. Assim dá pra ficar rico cobrando isso!" Colocou a bomba no lugar em menos de quinze minutos e o carro estava pronto para voltar a rodar. Antes de voltar para a Avenida Brasil, o mecânico apontou para roda direita da frente e falou: "Ô, tá careca pra caralho! Tem de trocar! Se não vai te deixar na mão otra veiz!" Carlos Eduardo foi olhar. Estava careca. "Será que não tinha visto isto?" Não lembrava mais. Resolveu ir embora para casa o mais depressa possível, mas com muita cautela para não estourar ali no meio da rua.
Chegou em casa e foi aquela festa na rua. Vieram todo mundo para olhar para o carro. Examinaram desejosos cada detalhe do Chevy 78 marrom de Carlos Eduardo. As irmãs ficaram com inveja e desdenharam o carro. Os amigos davam tapinhas nas costas dele e planejavam viagem para a região dos Lagos onde "Iam pegar muita mulher!" Até mesmo a Sonia, uma moreninha linda da rua de baixo, que Carlos Eduardo era apaixonado, mas nunca tinha dado bola para ele, ficou olhando de forma lânguida para ele. Ele se sentiu o máximo! Aquela chegada apoteótica já valera cada centavo da aquisição daquele Chevy 78. Estava realmente feliz!
Arranjou um lugar para estacionar o carro e foi para casa para ligar para um amigo dele que era mecânico. Queria que examinasse o carro, antes de ficar rodando por aí e não ter mais nenhuma surpresa desagradável com a bomba de gasolina ou outro detalhe insignificante qualquer. Marcaram para levar o carro na segunda de noite, depois do trabalho de Carlos Eduardo. Ele o deixou lá para o sério e compenetrado amigo, que pediu que voltasse na sexta, e até lá já poderia dar todos os detalhes. Quase uma semana?!?! Reclamou muito. Estava louco de vontade de levar o pessoal do trabalho na sexta para beber e poder mostrar o carro para eles, mas o amigo mecânico disse não poder correr com as coisas, pois tinha outros carros 'pagantes' para cuidar. Carlos Eduardo entendeu a mensagem e foi para casa frustrado.
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