12 abril 2008

Boogie Woogie - Política

Todos nós execramos a política e seuis agentes, sem nos darmos conta de que somos os principais agentes. Se um político ou grupo de políticos rouba, extorqui ou mata, a culpa é de uma única pessoa: Nós. Nós, o povo! Fomos, nós que os colocamos em posição de realizar tudo aquilo de errado que ele fez. Nós somos os únicos culpados! Não é uma opinião para livrar a 'cara' daqueles safados e sem coração, mas uma afirmação para demonstrar que não podemos fugire a responsabilidade. Fomos nós, unicamente nós que escolhemos os 'safados' a exercerem o poder advindo do povo. Foi o povo, somente ele, que colocou aqueles corruptos xerocopiados de si mesmo lá. Esta é uma história de alçgo semelhante, para rerfletirmos sobre nosso papel no processo democrático, que não passa pela anulação do voto.

O morro era um lugar tranqüilo até a 'explosão imobiliária' acontecer. A presença da Shell e da Esso, juntamente com o terminal da Petrobrás e a construção da Base Aérea do Galeão, atraiu um grande número de pessoas para a Ilha do Governador. Na época, havia apenas duas favelas ou comunidades pobres na Ilha: o Dendê e o Boogie Woogie. O Dendê, por sua posição central no bairro, foi logo ocupado. O Boogie Woogie sofreu um processo mais lento.
Este processo lento deu uma oportunidade de ouro para os aproveitadores imobiliários. Várias pessoas cercavam terrenos baldios, que ninguém sabia a quem pertencia, e os vendia para novos moradores. No princípio, quando ainda havia muitos terrenos, tudo correu com grande normalidade. Quando a terra começou a ficar escassa, os tumultos e as brigas tiveram início. Algumas foram fáceis de resolver entre os vizinhos, chegando uma cerca para um lado ou para outro. O grande problema surgiu quando dois trambiqueiros vendiam o mesmo terreno a duas pessoas diferentes. As brigas eram intensas e resolviam tudo no 'muque'. Até descobrirem uma invenção moderna: o revolver.
Em uma briga por um terreno vendido a duas pessoas diferentes, o mais fraco pegou uma arma que trazia consigo e deu três tiros na cabeça de seu adversário. Problema resolvido! Ninguém ficou com o terreno. Era óbvio para todos que teriam de resolver estas disputas, mas sem a presença do estado e sem documentação oficial da terra, como poderiam resolver isto. Todos usufruíam da terra em usucapião, não tendo direito real sobre ela e nem mesmo uma escritura para delimitar o terreno.
A solução veio com o Paulo Augusto, o Seu Paulinho. Ele decidiu fundar uma Associação dos Moradores, que demarcaria as terras e entregaria um documento de posse, sendo a sede que intermediaria as disputas entre vizinhos e novos moradores. Para tanto, Seu Paulinho contou com o apoio paisano de alguns policiais militares, mui amigos seus. Quando novos 'espertinhos' surgiam para se aproveitar da situação, os paisanos militares agiam, dando uma rápida solução. Assim, em pouco tempo, as disputas minguaram e a sede da Associação passou a ser um ponto de frequentes encontros dos moradores para decidirem os destinos da comunidade. A Associação passou a fazer o papel que a Igreja vinha fazendo até então, ao substituir o Estado constituído no morro. Surgiu, então, a necessidade de realizar melhorias na sede para recepcionar os Associados. Inventaram a taxa de associado. Todos tinham de contribuir. A concordância foi geral e, rapidamente, o caixa da Associação tinha dinheiro suficiente para realizar as melhorias necessárias para a sede.
Depois da melhoria da sede, fizeram uma arrecadação para instalar uma bica d'água na parte de cima do morro. A bica levantou a necessidade de uma bomba d'água, já que a CEDAE não podia cuidar disto, pois a Comunidade, oficialmente, não existia. Uma necessidade puxava a outra e as contribuições foram aumentando seu volume e apertando os orçamentos dos moradores, pois a Associação era insaciável, como quase todo órgão público criado por brasileiros. Chegou a um ponto, que os moradores fizeram uma reunião para discutir o fim daquelas intermináveis contribuições. Seu Paulinho resistiu bravamente ao fim das contribuições, mas quando foi colocado em cheque sua posição à frente da Associação... ele recuou. As contribuições foram eliminadas e estabeleceram que deveria haver uma votação para escolher o Presidente da Associação. Seu Paulinho foi radicalmente contra! A Associação foi uma criação sua e não dos moradores, fora ele quem colocara 'ordem na casa'. Não podiam fazer aquilo com ele. Mas fizeram!
A eleição veio. Aconteceu aos trancos e barrancos para, na verdade, nada mudar. Seu Paulinho foi escolhido como Presidente. Era melhor um demônio conhecido do que outro completamente desconhecido, alguém falou a meu pai isto uma vez. A bagunça, mesmo assim, continuou acentuada, pois nem ao menos tinham uma idéia de quanto tempo seria o mandato do novo cargo da Associação. Ninguém chegou em um acordo e o próprio Presidente estabeleceu 6 anos para sua permanência. O mandato do novo Presidente foi marcado pelo: nada. Nada era feito! Nada acontecia! Nada mudava!
Seu Paulinho argumentava que não podia fazer nada, pois não havia dinheiro em caixa para fazer nada, pois haviam acabado com as contribuições para a Associação. Ele era um mero Presidente de fachada, pois não tinha nada o que pudesse fazer pela Comunidade. Desta maneira, o mandato dele se arrastou, no último ano de governo, ninguém nem lembrava que deveria acontecer uma eleição para substituir o atual Presidente. De fato, não existia nem ao menos oposição. Foi quando surgiu um novo morador, que percebeu uma oportunidade de tomar o lugar de Seu Paulinho na liderança da Comunidade. Procurou alguns vereadores e fez promessas de apoio, caso os vereadores conseguissem algumas melhorias para o morro. No mês seguinte, alguns homens da prefeitura estavam dentro do morro retirando os paralelepípedos e colocando asfalto no lugar. O ganho era nenhum para os moradores, mas era uma mudança substancial na posição da comunidade. Era a primeira vez que o poder constituído fazia algo por eles, graças aquele bom jovem, que agora era candidato à Presidência da Associação dos Moradores.
Seu Paulinho percebeu que sua posição estava seriamente ameaçada, tratou de arrumar garantias. Procurou políticos adversários e conseguiu que a CEDAE entrasse no morro e instalasse água encanada para os moradores. No acordo, a sede ficaria responsável pela cobrança aos moradores da taxa d'água. Instalaram em tempo recorde o encanamento, para isso destruíram o asfalto recém colocado. Tudo bem, era por um bem maior. Água encanada! Seria o fim da falta d'água! Nunca mais carregar água em cambões, em latas de tinta de 20 litros ou ficar no desespero carregando água madrugada adentro. Aquela vitória pessoal de Seu Paulinho deveria ser o suficiente para garantir sua eleição para mais um mandato. Mas não, a disputa continuou apertada, pois o adversário argumentava, se ele podia fazer aquilo, por quê não fizera antes. Levantou a desconfiança dos moradores. Seu Paulinho ficou com medo de perder e inventou uma regra de última hora, só poderia votar quem fosse inscrito na Associação, se não tivesse registrado na Associação, mesmo sendo morador, não poderia votar. Foi o caos, em seis anos a rotatividade de moradores foi muito grande, pelo menos 30% dos moradores não puderam votar. Os mais antigos, apoiavam incondicionalmente Seu Paulinho, que foi reeleito para mais um mandato de seis anos. Seriam mais seis anos marcados pela política do nada. Nada fazia. Nada queria. Nada era esperado.
Seu Paulinho percebeu que teria de se preparar desde cedo para não dar espaço para algum espertalhão ocupar seu lugar na Associação. Criou uma contribuição anual para os moradores ficarem registrados na sede da Associação, caso a contribuição não fosse paga, o morador não teria direito a voto na eleição. Percebendo o efeito de seu 'édito', Seu Paulinho tomou gosto pela Legislatura. Começou a criar leis para garantir sua posição de líder da comunidade, não permitindo espaço para mais ninguém. Acabou buscando aliados nos mesmos homens que um dia havia enfrentado para organizar a favela. O ciclo voltava ao princípio.
Houve apenas um problema nos planos do Presidente da Associação, os políticos perceberam que a favela era uma boa e barata fontes de votos para suas campanhas eleitorais. Investiram em ações simples e populistas na favela, atraindo moradores para programas de assistencialismo, que acabaram enfraquecendo a Associação dos Moradores. Rapidamente, poucos moradores buscavam auxílio na Associação para resolver seus problemas. Os políticos padrinhos ficaram encarregados de resolver tudo. Vários benefícios foram levados para a comunidade por este novo trabalho de conquista de apoio político. Seu Paulinho até tentou surfar esta onda, mas não teve como acompanhar. Muitos políticos vinham de bairros distantes campear votos na comunidade. O morro perdeu sua espinha política. Perdeu, também, seu equilíbrio e sua cooperação. As pessoas voltaram a isolar-se nas próprias residências. Neste novo tempo, a Associação de Moradores foi transformada em uma mera instituição de fachada, que levou seu tiro de misericórdia com o tráfico de drogas. Poderia ter sido algo importante para o morro, mas deturpado, acabou sendo muito pouco útil no decorrer dos anos.
Seu Paulinho acabou morrendo quando concorria ao terceiro mandato. Assumiu um desconhecido qualquer que continuou a política do nada. Parece ser a política mais popular do Brasil!

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