10 maio 2008

Boogie Woogie - Meu querido, Chevette II

Segunda parte do conto Meu querido, Chevette. As atribulações de um sonho que se tornou um pesadelo.

A semana foi longa e pareceu durar bem mais do que cinco dias. Carlos Eduardo não via a hora de poder sair dirigindo seu posante pelas ruas da Ilha e estacioná-lo na rua Central, lá no morro. Chegou cedo na oficina de seu amigo, que estava cuidando de um outro carro. Esperou impaciente ele terminar o serviço e vir falar com ele. Quando ele terminou, pediu para Carlos Eduardo esperar um pouco, pois iria buscar sua prancheta com as anotações que fizera sobre o carro.
Chegou sério e compenetrado, novamente. Carlos Eduardo imaginou que aquela deveria ser sua 'cara' profissional, quando atendia a clientes pagantes, mesmo ele não sendo um deles. O amigo fez uma pergunta antes de tudo: "Quanto foi que você pagou por ele?" Carlos Eduardo respondeu desconfiado. O amigo ficou mais sério ainda e não tirava o rosto da prancheta. Então, começou! Bem as baixelas estão danificadas e vão quebrar. O carro está lotado de plastique e o para-choque tá seguro por um amarrado de fios e furos feitos na lataria para ninguém poder vê-los. A suspensão está totalmente desalinhada e os amortecedores já eram. Os vidros do carro estão para cair, pois as frisas estão todas enferrujadas e com plastique mal colocado. "Você ligou os limpadores de para-brisa?" perguntou. Não! Claro que não, fazia o maior sol, para que ligar o limpador de para-brisas. Bem, os limpadores de para-brisa não podiam ser ligados mesmo, pois não existem. As ligações elétricas estão cortadas e desligadas, só tem mesmo as aletas dele. O fundo do guarda-volume está completamente enferrujado e desabando, no encaixe do pneu reserva, Carlos Eduardo teve muita sorte dele não ter caído pela rua, pois não tem fundo, está seguro pelas braçadeiras apenas. A caixa de marcha tem de trocar, pois as correntes de encaixe já eram e os pneus estão careca. Não pode esquecer de comprar pastilhas de freio novas, pois as que estão no carro já alcançaram o metal. "Não sei como não sentiu o cheiro quando freiou o carro!" afirmou, tirando os olhos da prancheta e encarando Carlos Eduardo preocupado e ar de repreensão. "Posso ser sincero... devolve esta porcaria para o dono e pega seu dinheiro de volta!" Foi o conselho do amigo.
Carlos Eduardo ficou desesperado, o sonho dele iria evaporar assim? Não podia deixar. Tinha de fazer alguma coisa. Ele já tinha mostrado o carro para todo mundo em casa. O amigo fez as contas das despesas e dos serviços. Ficou com pena dele e disse que não iria cobrar o preço da mão-de-obra, pois senão... "Haja dinheiro!" Quando acabou de falar o valor do orçamento, Carlos Eduardo percebeu o motivo do dono ter cobrado dele metade do valor do carro. Apenas as peças custariam o valor que pagara pelo carro. ficou com uma raiva imensa, mas não tinha escolha. Não podia voltar atrás, já havia mostrado o carro para todo mundo e a humilhação seria grande demais se devolvesse o carro. Resolveu pedir ao amigo que fizesse o serviço e ele iria comprando as peças com o pagamento quinzenal da empresa. O amigo concordou, tinha algumas peças para o carro a mão ali e iria adiantar o serviço. "mais uma coisa... onde comprou aquela bomba de gasolina?" Contou sobre o mecânico que o ajudara na Brasil. Bem, ele se ajudara, falou o amigo. A bomba de gasolina era velha e gasta, não dá para rodar mais do que uns 100 Km com ela. Tem de trocar, também. Falou o preço de uma nova para Carlos Eduardo, que percebeu que o trambiqueiro do mecânico havia cobrado o dobro do valor de uma nova naquela porcaria de má qualidade. O amigo o olhou como estivesse dizendo: "Porra, eu te disse, não foi?"
Carlos Eduardo voltou para casa ainda mais frustrado do que antes. Pior foi ter de responder ao interrogatório da família e dos amigos de onde estava o 'posante'. Inventou um monte de mentiras, cada uma diferente para cada tipo de pessoa que entendesse mais ou menos de mecânica. Se algum dia, um deles conversasse sobre o assunto com outro, descobriria como péssimo mentiroso ele era. O desânimo durou uma semana e ficou ainda pior quando viu o carro todo desmontado e 'desmilinguido' na oficina do amigo. Teve vontade de chorar. "Já tratou dos documentos do carro?" Documentos?!?! A transferência e os impostos pagos. "Ele não te entregou nada disso?" Mostrou o recibo do pagamento. "Só isso?!? Tem que pegar todo o resto!"
Lá foi Carlos Eduardo atrás do antigo proprietário do veículo automotor. Quando chegou na casa dele, não encontrou ninguém. Os vizinhos informaram que já fazia quase uma semana que não via ninguém ali. Ficou desesperado. "Fugiu, o desgraçado!" Fez tocaia na casa dele para tentar encontrá-lo e uns três dias depois, encontrou com a mulher dele. "Foi trabalhar em Macaé. fica lá até o fim do mês." Tem o telefone? Não, é claro que não. Teve que esperar até o final do mês para encontrar o salafrário que tinha vendido aquele elefante branco para ele. Quando o encontrou, quase bateu no cara. Mas nada iria adiantar, queria os documentos do carro. O dono foi buscá-lo e quando entregou para Carlos Eduardo, o pesadelo ficou ainda pior. O salafrário não pagava os impostos do carro a quase cinco anos. O valor acumulado da dívida era quase um terço do valor que ele pagara pelo carro. Carlos Eduardo não tinha a menor idéia de como fazer para regularizar a situação. Ainda pior, o dono nunca fizera nenhuma vistoria no carro, desde que o comprara. "Aquilo não podia estar acontecendo com ele!" Carlos Eduardo queria o dinheiro de volta. "Não posso, já gastei tudo. Tava devendo na praça e paguei uns agiotas aí." Carlos Eduardo começou a chorar. A casa do 'cara' era alugada e dentro dela quase não havia objeto nenhum de valor. A coisa mais valiosa dentro da casa era uma geladeira velha, cheia de ferrugem na lateral.
Voltou completamente desesperado para casa. A dívida daquele elefante branco já estava acumulando o dobro do que ele pagara para comprá-lo. Foi conversar com um amigo, que era mais ponderado e trabalhava em um banco. Queria uma luz para aquilo tudo. "O quê posso fazer?" A resposta era óbvia. Conserta e vende. Passa para algum otário esta 'batata quente' antes que ela asse suas mãos.
O conserto do carro terminou e Carlos Eduardo o trouxe para a Central. Ficou exibindo o 'bichinho' para todo mundo, sem contar toda a'merda' em que estava metido. Colocou o anúncio no Balcão e esperou. Muita gente ligava, mas ninguém aparecia para comprá-lo. Passou um mês... dois... três... seis... e... nada! O desespero estava ficando cada vez maior. Voltou ao amigo do banco para conversar e tentar encontrar uma nova solução. Estava louco para andar com o carro por aí. O amigo não pôde ajudá-lo, então, decidiu que iria rodar com o carro de qualquer jeito e seja o que Deus quiser. Mas a estória estava mais para o Diabo do que para Deus.
Convidou a moreninha de seus sonhos para saírem à noite no sábado. Ele aceitou e foram para o Jardim Guanabara. Tudo correu perfeito, conseguiu até dar uns 'amassos' nela lá no fim da praia, mas quando estava se preparando para voltar para casa. Apareceu um guarda pedindo os documentos do carro. Ele não tinha. O carro era roubado? Não! A discussão se estendeu e Carlos Eduardo acabou tendo de 'molhar' as mãos dos policiais para poder ir embora. Ato que se repetiria diversas vezes nos meses seguintes. Já tinha até um que conhecia tão bem Carlos Eduardo, quando mandava parar o carro, esticava a mão para receber seu líquido preferido e não dizia nada.
Quando a quantidade de líquido passou a ficar exorbitante, Carlos Eduardo encostou o carro novamente. Mas aconteceu uma emergência, sua mãe passou mal e tinha de ser levada às pressas para o hospital. Tirou às pressas o carro do estacionamento e foi correndo levar sua mãe até o hospital, mas, infelizmente, o carro quebrou uns 500 metros do Paulino Werneck. Teve de carregar sua mãe no colo até lá. Passou um sufoco tremendo e uma vergonha maior ainda. Virou motivo de piadas pra todo mundo no morro. Ele e o carro eram o assunto mais discutido e 'sacaneado' no morro naquele memento. Na oficina, a 'pá de cal': o carro tinha 'batido' o motor. Carlos Eduardo chorou copiosamente no ombro do amigo. Ficou olhando para o carro, em que gastara tudo que tinha e não tinha. Saiu e foi na casa de um amigo pedreiro. Apanhou uma marreta e voltou até a oficina. Disse para o amigo não se preocupar, pois ele mesmo iria consertar aquele carro. 'Desceu' a marreta nele até não sobrar nada inteiro, em menos de meia hora, o carro havia virado uma sucata. Juntou tudo e levou para o ferro-velho mais próximo, onde resgatou a sua auto-estima.

Nenhum comentário: