18 maio 2008

Mulheres que Amo - Filhos

Será que existe um molde para todas as pessoas? Será que todos somos iguais, para que as mesmas coisas nos façam felizes? Esta é a opinião da maioria das pessoas, que acreditam que determinados valores quando alcançados trazem a felicidade. Outros são considerados sagrados, uma obrigação divina. É uma destas obrigações divinas que falaremos na história a seguir:

Maternidade e mulher parecem palavras sinônimas. É quase impossível dissociar a felicidade feminina do ato de ser mãe. É um imperativo da natureza. Todos estão mais do que acostumados a olhar uma mulher e a vê-la como mãe acima de tudo. Mas existem mulheres que conseguiram encontrar um caminho para a felicidade que não passa pela maternidade. Não por problemas físicos ou devido alguma doença em especial, mas por opção própria. A Silvana foi uma destas mulheres.
Silvana é uma prima por parte de meu pai. É alguns anos mais velha do que eu, mas sempre nos demos muito bem desde pequenos, então pude acompanhar sua história peculiar bem de perto. Ela sempre foi considerada estranha pelos pais e pelos parentes mais próximos, pois não gostava de brincar de boneca e mantinha uma certa distância das crianças de sua idade. Não era nada muito incomum, já que diversas crianças tem este tipo de temperamento, alterando-o na adolescência. Silvana, porém sempre preferiu livros e a tranquilidade de sua casa, a festas e brincadeiras de meninas. Também, nunca andou arrumada ou maquiada, mesmo com o incentivo de sua mãe. Todos pensaram que ela deveria ter tendências homossexuais, teve até um amigo do pai que a chamou de 'fanchona' quando ela deixou o filho dele, bem maior do que ela, de olho roxo. Teve bons motivos por sinal, o garoto meteu a mão dentro da roupa dela querendo ver se ela já tinha 'peitinhos'. Muito bem feito para ele. Em relação à moda, apesar dela ser uma precursora da moda grunge para meninos, o motivo era bem mais prosaico do que pensavam todos. Ela achava a si mesma muito feia, acreditava piamente que roupas e maquiagem não melhorariam nada a aparência dela, portanto mantinha-se mais ao natural possível.
Assim durou até os dezesseis anos, quando os hormônios falaram mais alto e explodiram no corpo dela. Ficou um bela garota, não uma de arrasar, mas conseguia virar a cabeça dos meninos quando passava. Arrumou um namorado e começou a sair e se vestir melhor, para alívio de seu pai, que já pensava em deserdá-la. Nunca o fez, pelo contrário, ficou extremamente orgulhoso quando ela se formou em química e depois se casou com um namorado da faculdade.
O tempo passou e a cobrança para ela dar uns 'netinhos' para os pais começaram. Todo mundo falava sempre a mesma coisa com ela: "Quando vem os pequerruchos?" "Uma criança correndo neste apartamento é o que falta para dar uma vida nisto aqui?" "Você vai ver, quando ficar grávida, ele (o marido) vai ficar mais apaixonado ainda!" Assim seguia a campanha Tenha um Filho, Silvana. Ela pensou e foi conversar com o marido, os dois discutiram bastante e acabaram decidindo o pior possível para a família: Não queriam ter filhos. Aquilo era um escândalo! Os pais dele culpavam Silvana, que eles sempre acharam estranha. Os pais dela culpavam ele, pois devia ter alguma má formação, ou quem sabe recebeu alguma pancada nos 'Países Baixos' que o deixaram aleijado quando lutava Tae-Kwon-Do. Os dois riam daquilo tudo... por um tempo. A pressão aumentou e vinha de todos os lados possíveis: pais, familiares próximos, amigos e até a chefe dela na Faculdade indagava sobre aquela estranha decisão do casal. Silvana ficou balançada e resolveu dar uma oportunidade à maternidade. Observaria primeiro e repensaria depois. A Campanha, então, foi lançada pelas duas famílias. Cerraram fileiras para convencer o casal, principalmente, Silvana.
Foi marcada uma visita dela à sua irmão mais velha, que já estava casada há quinze anos e tinha uma menina com doze e um garotão com oito. Silvana passaria um sábado inteiro na casa da irmã, quando as crianças estivessem em casa. Chegou o sábado e Silvana foi para lá. Chegou por volta das dez horas da manhã e antes mesmo de bater na porta, ouviu os berros de discussão. O filho mais novo abriu a porta comendo uma maçã, fez um sinal para ela entrar e nem deu bola para a tia. Silvana foi em direção aos gritos e descobriu sua irmã em uma ferrenha discussão com a filha sobre um assunto que não conseguia saber qual era, pois ambas gritavam mais do que qualquer ouvido poderia aguentar. Final de discussão e a menina foi enviada para o quarto de castigo. As dobradiças do quarto dela foram quem pagaram o 'pato' na história. A irmã de Silvana pediu desculpas e foi atrás da mal-criada, enquanto o filho menor ficava com ela conversando.
Descobriu o banal motivo da briga e que aquilo era muito comum, principalmente, quando toda a família estava em casa reunida. Também, descobriu que o irmãozinho dela adoraria que a mãe e o pai a expulsassem de casa, pois ele não suportava mais aquela 'patricinha' que era a sua irmã. No final das contas, a única criança que Silvana viu foi o 'menorzinho' e a impressão que ficou foi das piores. A mãe foi a casa dela no dia seguinte convencê-la que sua irmã não era um bom exemplo de mãe, apesar de ter criado bem os filhos, assegurava ela. A contradição era total! Mas Silvana estava decidida a dar mais uma chance ao instinto maternal. Sua mãe a levou a um curso de grávidas para ver a felicidade estampada no rosto delas. Funcionou! Contaram belas histórias de gravidez, de como ajudou no relacionamento em casa e a expectativa no nascimento do herdeiro unia toda a família em torno. Era uma grande vitória da mulher. Aquilo balançou Silvana, que contou tudo a seu marido.
Alguns dias depois, encontrou uma das grávidas do curso. O filho havia nascido com uma má formação genética e todos estavam preocupados, as brigas na família deixavam todos loucos e a criança iria precisar de um amparo que ela não sabia se tinha de condições de dar. Também, foi a uma reunião de pais e mestres em um colégio onde uma amiga dava aula. Ouviu atentamente as informações sobre cada criança que fora passada aos pais. Para ela pareceu, que não havia uma única criança sem problemas, pois seja de comportamento, psicológico ou mesmo de relacionamentos, todas as crianças apresentavam alguma espécie de disfunção. E olha que o colégio era de classe média alta! Os pais presentes reclamavam mais ainda de seus filhos e queriam que os professores dessem um jeito neles, era para isto que eles pagavam aquela mensalidade absurdamente cara do colégio. Conversou com algumas mães e reparou a escassa presença masculina na reunião. A desculpa mais comum era estarem ocupados no trabalho, mas muitas das mães presentes, tinham empregos e faltaram para virem para a reunião. Conversou com seu pai, seus tios e alguns amigos. Descobriu que se a esposa era presente na criação dos filhos, os pais, normalmente, relaxavam e deixavam tudo nas competentes mãos femininas. Se acontecesse algo errado: Era culpa da mãe!
Na faculdade, resolveu conversar com alguns dos alunos sobre seu relacionamento com os pais. Aqueles que não moravam mais com eles, respondiam que o relacionamento era uma maravilha. Os que ainda estavam na casa do 'papi', que era uma merda. Teve uma das meninas que disse que o dia mais feliz da vida dela foi quando saiu de casa e foi morar sozinha. Silvana estava cada vez mais pessimista sobre aquilo tudo.
Foi a uma praça próxima de sua casa, sempre havia muitas mulheres com crianças nele. Chegou na praça e sentou junto com duas outras mulheres. percebeu logo que não eram mães, mas sim babás ou empregadas domésticas levando a criançada para passear. As crianças brincavam ao longe das babás, que se sentiam aliviadas de não ter aqueles 'pestinhas' gritando em seu 'pé de ouvido' o tempo todo. Todas diziam que as mães mandavam elas passearem com as crianças para terem 'cinco minutos de paz' naquela casa. De repente, começou uma gritaria e todas as mulheres da praça ficaram alvoroçadas. Uma criança sumira! Todas começaram a procurar a criança desesperadamente, incluindo Silvana. O desespero tomou conta de todas elas e Silvana viu um guarda de trânsito na esquina e foi chamá-lo. Quase o arrastou pelos cabelos para a praça. A babá da criança chorava copiosamente gritando: "O que eu vou dizer pra mãe dela? Ela vai me mandar embora!" O guarda chegou e tentou acalmar a todas e buscar melhores informações, pediu auxílio pelo rádio e resolveu ajudar as mulheres desesperadas na busca pela criança. Naquele memento, duas meninas atravessaram a rua de mãos dadas chupando sorvetes de casquinha. Era a menina, que fora com uma amiga da praça tomar sorvete. A babá não sabia se ficava feliz ou matava a garota. Segurou-a pela mão e a levou para casa.
Silvana procurou ficar calma e colocar a cabeça no lugar. Deixou o 'sangue esfriar'! Foi para casa e ligou para o maridão. "Amor, tomei uma decisão! Não quero filhos!" E foram felizes para sempre!

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