29 junho 2008

Poesia - Por Quem Choro

Todos nós condenamos abertamente o egoísmo e criamos palavras para abrandá-lo, como: individualismo. Mas tudo é a mesma coisa com uma roupagem mais suave e sem o peso do tempo nele. Estes são versos egoístas e... ótimos, que mostram que individualidade, quando não restritiva do direito de outrem, é uma coisa ótima.

POR QUEM CHORO

Não choro agora
Pelos famintos e desempregados,
Nem pelas vítimas de cataclismos,
Nem pelas mães, que
Para uma guerra alheia
Entregaram seus filhos.

Não, não choro agora
Nem por ti, ó pátria,
Pilhada por sua própria
Descendência.

Choro agora por mim,
Choro por estes versos
Repletos de falta de luz,
Choro por não cantar o canto
Dos pássaros.

Choro por não enxergar a aurora
Cor de aurora,
Choro pelo sol que se fez chuva
Ao meu contemplar.
Choro pelas estrelas
Que apagaram suas luzes,
Magoadas pela fosca luz
Do meu olhar,
Choro pela lua que de mim se foi
Escondendo-se num eclipse.

Choro por meu peito,
Choro por meus olhos
Que refletindo minha alma,
Descolore a infinita aquarela
Que aos bons olhos
Chama-se vida.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Pesada Concorrência

Uma das máximas do capitalismo é que a concorrência empurra e moderniza o sistema econômico. Esta é uma verdade que podemos aplicar a quase tudo, principalmente, nas relações humanas. E não existe uma concorrência mais pesada e disputada do que a trava dentro de casa entre mães e filhas pela atenção do pai. Este é um conto sobre uma dessas concorrências.

Ela começou a chegar no trabalho muito mais bonita. Na realidade, as últimas duas semanas começamos a descobrir que Ângela existia. Até, então, não prestávamos atenção nela, com exceção de momentos em que necessitávamos algo dela. Era uma mulher de meia-idade com duas filhas adolescentes, escondida sob camadas de roupas e um penteado mal feito, para dizer a verdade, não feito. As primeiras a notar as alterações na imagem de Ângela foram suas companheiras de trabalho. Era o cabelo em um novo penteado, depois de uma cor diferente, mas vivo e luminoso. O novo corte realçava os traços de seu rosto. "Ela era bonita, apesar da idade!" Todos nós ficamos espantados com o fato em questão.
Depois das amigas notarem as mudanças, nós, os homens, percebemos que ela havia alterado a maquiagem. De fato, ela estava se maquiando pela primeira vez desde que me lembrava de tê-la vista trabalhando naquele escritório. Havia encontrado uma forma de mostrar o quão era bonita. E era mesmo! Os homens vibraram com a mudança. Teve uns caras de outros departamentos, foram até a nossa sala para perguntar quem era aquela nova funcionária. Queriam a ficha completa dela. Quando contamos a eles que ela trabalhava ali a mais de 8 anos, ninguém acreditou. Nem mesmo nós!
Foram pequenas mudanças que fizeram um bem enorme para a aparência de Ângela. Não só para a aparência, mas para sua auto-estima, também. Eu lembro que ela estava sempre de cabeça baixa e nunca encarava ninguém nos olhos. Sempre estava olhando para o chão e seu tom de voz era extremamente baixo, quase inaudível. Agora, ela andava com a cabeça erguida e o nariz empinado. Não só o nariz, outros pontos de sua anatomia, também. Estava virando a cabeça de vários homens no escritório. Deixando algumas mulheres com raiva e com ciúmes daquela transformação. Era sempre parada para conversar com alguém, que ela não tinha a menor idéia de quem era, sobre assuntos que não tinha o menor interesse. Ela percebia o assédio masculino e dava pequenos e enigmáticos sorrisos. Era uma festa para os fofoqueiros de plantão.
A terceira etapa da transformação veio na forma do vestuário. Surgiram decotes e mini-saias no caminho de Ângela. Descobrimos que ela tinha longas e belas pernas torneadas, podia estar um pouco acima do peso, mas continuava sensual e "gostosa". Mesmo o princípio de 'barriguinha' que ela tinha, era sexy. A cada nova peça de roupa que ela chegava no trabalho, virava objeto de profunda e detalhada análise dos homens. Os decotes tinham que ser minuciosamente pesquisados e compreendidos. Não faltavam candidatos para a tarefa, mas Ângela não era uma mulher 'dada'. Mesmo tendo ocorrido uma mudança em seu comportamento, com o crescimento de sua auto-estima, ela ainda era uma mulher reservada e não dava abertura para ninguém, nem mesmo para as chefias, que agora começavam a solicitar sua presença constantemente em seus escritórios. Nos quatro últimos anos que trabalhei nesta empresa, não lembro uma única vez que tenham, no mínimo, pronunciado o nome da Ângela uma única vez. No momento, chamá-la ao escritório para falar de banalidades, era uma boa forma de olhar para suas bonitas pernas.
Apesar da terceira alteração não ter sido muito bem sucedida, a transformação no visual de Ângela levantou uma questão tão palpitante quanto a cor de sua calcinha: por quê ela havia sofrido aquela profunda transformação? A primeira resposta veio das 'amigas' do escritório, para elas era óbvia a resposta: O marido a estava traindo. Aquela era uma patética tentativa de reacender a antiga chama entre eles. A resposta parecia mesmo a mais provável, pois em quatro anos não lembro do marido dela ter vindo a qualquer evento do escritório. Foi só comentar, para ele aparecer no final do expediente para apanhá-la de carro. A mulher sofrera uma bela transformação e não passara despercebida, nem mesmo para o 'maridão'. Veio demarcar território e dizer: "Aqui ninguém tasca!" O sorriso de Ângela aumentava a cada dia.
Bem, se não era por causa do marido, o que seria o motivo para esta alteração. Os 'psicólogos' de plantão, logo aventaram a hipótese de ser uma crise de meia-idade. Ela estava sentindo a necessidade de se afirmar como mulher para com a sociedade. Trocando em miúdos, ela queria aparecer e mostrar para todo mundo o quanto era bonita e gostosa. Não era uma má teoria, mas por quê não havia acontecido antes, pois ela já havia entrado na meia-idade faz tempo. A discussão ganhou ares de tese acadêmica. Todos os pontos eram motivo para discussão, até mesmo uma alteração na cor do cabelo ou no tipo de roupa que ela vestia, rendia umas boas horas de conversa na sala do cafezinho.
Foi quando uma das chefes de setor, sugeriu que aquela mudança seria uma tentativa de voltar no tempo. As roupas e a maquiagem, não eram próprias para sua idade e sim para o rosto e gosto de uma mulher mais jovem. a discussão esquentou nos corredores do escritório. Seria uma tentativa de recuperar os anos perdidos para o passar do tempo. A resposta parecia ser positiva desta vez. O cabelo pintado, as cores de esmalte e as roupas colantes realçando o corpo, denotavam uma identificação com as jovens recém saídas da adolescência.
Foi, então, que a filha mais velha de Ângela foi ao escritório. Que beleza! A garota era deslumbrante e tinha um corpo de parar o trânsito, realçado por um top que deixava a bela 'barriguinha' à mostra. Os marmanjos estavam babando pela menina. Mas enquanto os homens, literalmente, 'babavam', as mulheres examinaram detalhadamente a aparência da menina. O tom do cabelo era o mesmo, a grife das roupas delas era a mesma, o tipo de maquiagem e a cor do esmalte eram muito semelhantes. O tom final para colocar um ponto de exclamação naquela discussão, foi o corte de cabelo idêntico de ambas, mãe e filha. A resposta estava na cara: era uma concorrência de mãe e filha. A transformação não foi motivada por ciúmes do marido, não foi uma crise psicológica de identidade e nem foi uma tentativa de recuperar os anos dourados da adolescência, mas sim fazer frente para sua mais nova e perigosa concorrente: sua filha.

22 junho 2008

Poesia - Febre

Febre e desejo. Paixão e consumação. Palavras que se confundem e nos dão idéias erradas sobre nós mesmos. Nosso poeta demonstra isto com uma simples analogia, que vocês compreenderam abaixo.

FEBRE

Oh desespero crescente,
Ilusão transformada
Em loucura.

Procuro-te em vão
Em cada cabelo;
Em cada olhar;
Em cada andar;
Em cada perfume.

Acordo desapontado
E mergulho no pesadelo
De acreditar que não mais
Existe.

Faço nova viagem
E agora estou certo
De sua presença,
Sinto-a dentro de mim
Pulso no seu ritmo.

Ouço com os teus ouvidos
Sinto a dor que sentes
E vejo o mundo com os teus
Olhos.
Estás no meu sangue
E falta-me célula que não a tem.

Acordo porém,
O sonho é breve
E como homem
Uma ilusão não basta.

Desejo vê-la
Desejo senti-la
Desejo tê-la.

Maurício Grabzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Boogie Woogie

Todos tem medo da decadência pessoal. Muitas vezes, esta suposta decadência é uma forma de renascimento para a vida. A decadência de meus pais, foi o meu renascimento. Foi graças a ele, que formei meu caráter e personalidade e pude corrigir inúmeros erros pessoais e familiares. Esta é a estória que principiou tudo o que faço hoje... é a estória do primeiro dia de toda a minha vida.

Eu era muito novo quando chegamos em nossa casa pela primeira vez. Não deu pra não fazer cara de muxoxo. Era um lugar feio pra caramba! A porta estava carcomida nas pontas e rangia nas dobradiças. O telhado de cerâmica era irregular e haviam várias telhas quebradas, sendo algumas feitas de vidro, para melhorar a iluminação interna, mas davam um aspecto ainda pior para aquela residência.
A casa era muito pequena, apesar de ter quatro cômodos. Era um quarto, sala, cozinha e banheiro. O banheiro era extremamente pequeno e o chão não era de cerâmica e nem tinha ladrilhos, era feito de um vermelhão estranho e muito feio. Haviam vários pontos pretos e partes descascadas que revelavam o cimento por baixo do vermelhão. Não havia chuveiro e o vaso sanitário estava levemente inclinado pro lado. O cheiro era horrível e lembrava da existência de uma comunidade de baratas na casa. A cozinha era outro desastre. Como era escura?! Alguém genial, teve a brilhante idéia de pintá-la de verde musgo, sendo que a cozinha somente tinha um pequeno basculhante no canto extremo do cômodo. Um basculhante ínfimo com menos de 30 cm de altura. O basculhante e a pintura escura, mais o chão coberto com uma camada de cimento sem areia, bem aplainado. Faziam-na parecer como uma caverna, mesmo durante o dia tínhamos de manter a luz elétrica acesa, senão... nada conseguiríamos enxergar lá dentro.
O aspecto de destruição ficava completo com a janela que existia na sala. Janela na sala é algo bem comum. Mas já viram uma janela que dá para uma parede de tijolos e fica localizada na lateral da casa e não em sua frente. Na casa, pareciam ter construído apenas a sala e o quarto, a cozinha e o banheiro eram um adendo, preparados muito tempo depois, quando já haviam construído a casa ao lado, bem grudada. A distância que separava as duas, foi usada como uma espécie de corredor que unia a sala e cozinha, sendo que, onde era localizada a janela, havia um corredor complementar que levava a uma fenda de poucos centímetros, dando para uma falha entre a construção da casa vizinha e a nossa. Ali, como descobriríamos mais tarde, seria a residência de insetos e mamíferos diversos. Ratos, principalmente.
O primeiro dia trabalhamos até não poder mais. Éramos crianças, por este motivo encarávamos aquilo tudo como uma grande brincadeira. Na realidade, nem imaginávamos que fôssemos morar naquele lugar. Sem nossa mãe naquele primeiro dia, pensamos que voltaríamos para nossa antiga casa. Quando papai disse que ficaríamos ali pra sempre, foi que a 'ficha caiu'. Olhei para a varanda da casa. Tinha 1,5 m por uns 80 cm, para quem estava acostumado com um gramado de 10 m por 25 m de comprimento... vamos dizer... era algum tipo de pesadelo insano. Fiquei realmente assustado com a notícia. Quando mamãe chegou à noite vindo da casa da patroa e trazendo mudas de roupa limpa... a certeza bateu forte. Meu sonho de ter um cachorro foi pro espaço!
No dia seguinte, acordamos cedo para trocar as telhas quebradas e fazer alguns pequenos reparos naquela casa caindo aos pedaços. Papai percebeu que deveríamos limpar a caixa d'água, também. Encontramos um passarinho morto dentro dela. Que nojo! O fedor era insuportável e sobrou para mim limpar aquilo. Tivemos que jogar toda a água da caixa fora e enchê-la novamente. Até terminar de encher, nada de banhos. Nem comida! O rebuliço que estávamos fazendo, atraiu a atenção dos vizinhos. A primeira a tomar coragem e se apresentar foi a vizinha da frente: Dona Virgília. Trouxe um café para nós e ficou tricotando com minha mãe. Contando tudo sobre a vizinha e descobrindo tudo que podia sobre os novos vizinhos.
Enquanto isso, meu irmão do meio, começou a fazer novas amizades e acabou sendo chamado para jogar bolinha de gude. Era bulica e não triângulo, como meu irmão não tinha nenhuma bolinha para apostar, os garotos emprestaram para ele. Me chamaram também, mas não quis ir, era um coelhinho assustado naquele novo meio. Meu irmão mais novo, ficava atrás de minha mãe querendo subir para seu colo. Não teve jeito e minha mãe teve de segurá-lo e foi com ele para casa da nova amiga. Não podia imaginar que seriam as melhores amigas daquela vida. Eu e meu pai continuamos a limpar a casa e preparar tudo. Montamos as camas e o armário que a patroa da minha mãe deu pra ela. Meu pai era 'macumbeiro' e tinha um santuário próprio para suas divindades. Escolheu um ponto em seu quarto com minha mãe e lá, me fez ajudá-lo a preparar tudo. A colocação dos objetos e até da toalha da mesa deviam ser cuidadosamente realizados. Quando ele acabou, ficou satisfeito com a arrumação dos objetos. Pegou um charuto na cômoda da cama e acendeu, começou a entoar um cântico esquisito e recebeu uma entidade. Esta, com a fumaça do charuto, benzeu toda a casa de uma ponta a outra. Minha mãe ficou envergonhada e veio gritando com meu pai, mas ele estava em transe e não respondeu, apenas resmungou de um jeito estranho. Minha mãe olhou pra mim como a pedir ajuda, a única coisa que pude fazer foi dar de ombros.
À noite, tudo estava pronto e arrumado. Minha mãe foi para a casa da vizinha assistir a novela das oito, já que não tínhamos televisão, enquanto meu pai ligava o rádio na Tupi AM para ouvir as notícias. Eu e meu irmão do meio, só queríamos saber do resultado do futebol, mesmo que nós dois ainda não tivéssemos um time de coração. Gostávamos, principalmente, das narrações apaixonadas dos narradores ou o tom indignado dos comentaristas. Aquilo mexia com a gente. Meu pai odiava futebol, mesmo assim deixava sintonizado para escutarmos as notícias ou os jogos, se houvesse alguma transmissão. De repente, um batuque ao longe chamou minha atenção. Era uma música que nunca havia escutado antes. Fiquei prestando atenção no ritmo, já que a canção não dava para escutar direito, estava muito longe. Meu pai falou que era samba! Demorei muito para aprender a gostar daquilo.
Minha mãe voltou para casa após o final da novela, já eram quase dez horas e não estávamos acostumados a dormir tão tarde. Ela fez a cama para mim e meu irmão do meio no chão da casa, pois o mais novo ficaria no sofá, enquanto os dois dormiam na cama no quarto de casal. Nós ficamos na sala. Deitei e de repente senti um formigar nas minhas costas, levantei e liguei o interruptor da luz. tinha uma lacraia na minha cama, dei um baita grito, pois nunca havia visto aquele bicho antes. Meu irmão saiu correndo para a cama de meus pais, enquanto eu tentava matar aquele bicho com a vassoura. Ali começava a minha aventura na favela do Boogie Woogie, onde viveria alguns dos melhores e mais importantes anos de minha vida.

15 junho 2008

Poesia - Ferimento

O aprendizado na vida vem do sofrimento. Vem com a dor e suas consequências. Ninguém aprende nada sem sofrer na vida. Nosso poeta toca neste delicado assunto do aprendizado de como viver. Um aprendizado duro e sofrido, mas nencessário.

FERIMENTO

Há ferimentos leves,
Traumáticos mas não fatais,
Leva-nos ao sofrimento
Conserva-nos a esperança.

Martírio cotidiano,
Rito que se renova,
Dor que se faz trevas,
Prenúncio de nova luz?

Vida que tem seu ciclo,
Vida que chega ao fim,
Com ferimentos graves
A vida se deixa ir.

Mata a esperança somente,
O corpo deixa sadio,
Transforma-o em vivo sem vida
Até que o morto corpo
Tire-lhe a própria vida.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Paraíso

Em nossa vida existem inúmeros mitos. O principal entre homens e mulheres é: "Em mulher não se bate nem com uma flor." Esta frase estabelece a superioridade física do homem sobre a mulher e que nós não devemos utiilizar isto como uma vantagem sobre elas. Mas não fala nada sobre: elas usarem esta vantagem sobre nós. Esta é uma história de como este mito pode ser usado contra os homens indiscriminadamente, apesar de estarmos corretos acima de tudo e como, às vezes, seguir as regras, por mais duras que sejam, é o melhor caminho.

Trabalhar com mulheres não é fácil! Em um primeiro momento, você pensa, que a vida vai ser a maior maravilha, pois terá o convívio de 60 mulheres. É um harém! Você se sente o próprio sultão. Mas a verdade é... não é mole não, conviver com tantas mulheres. Imagine, se uma esposa dá tanta dor de cabeça... 60 esposas... estouram o seu cérebro. Foi quase isso que aconteceu comigo. Juro... fiquei por um triz de não ficar tentado de enforcar uma delas. Deveria tê-lo feito! Mas, mesmo estando completamente correto, ainda fui acusado, sentenciado e punido sumariamente por todas as outras, por algo que não fiz. Veja bem, havia pelo menos 6 delas que eram minhas amigas próximas... amigonas, a meu ver. Imagine se não fossem!
A estória foi a seguinte: trabalhava em um supermercado e supervisionava o trabalho das caixas e empacotadoras. Hoje, tem um nome novo e bonitinho: Gerenciador. Na época, éramos os Supervisores. É tudo a mesma merda, apenas com um nome mas 'maneiro' pronto para o Século XXI. Mas, vamos ao que interessa! Como disse, era o supervisor das caixas e empacotadoras. Quando descobri que uma das meninas estava roubando iogurte para comer escondido no depósito, a peguei no flagra. Dei um tremendo 'esporro' nela, tomei o iogurte e mandei que fosse para o vestiário feminino, até eu decidir o que iria fazer com ela.
A decisão era difícil para mim, pois era a primeira vez que a pegava fazendo algo assim. Acredito, piamente, que todos tem o direito de errar pelo menos duas vezes. Você a avisa nas duas primeiras e toma uma atitude na terceira. Foi por isso que tomei o objeto do roubo, dei uma bronca e a mandei para o vestiário esfriar a cabeça. Não pretendia puní-la, apesar das regras do supermercado serem taxativas quanto ao assunto: quem fosse pego roubando, deveria ser demitido sumariamente por justa causa. Por causa de dois iogurtes! Nem pensar, a bronca deveria ser o suficiente. Se ela fosse rescindente, tomaria uma medida mais enérgica, pensei.
Como estava na hora do meu almoço, decidi ir para casa e pensar um pouco mais enquanto comia. Avisei meu chefe da minha saída e de que tinha mandado a Margareth para o vestiário, pois ela havia 'aprontado' e eu havia dado uma bronca nela longe dos olhos de todos, para não humilhá-la. Meu chefe concordou comigo e me permitiu ir para casa almoçar. Fui! Duas horas depois estava de volta ao batente. Logo na chegada, vi Margareth descendo as escadas do escritório do gerente aos prantos. Achei estranho, mas melhor não comentar. Já havia tomado uma decisão, não contaria nada para ninguém e colocaria o objeto do roubo no lugar e ninguém notaria. Vou dar uma segunda chance a ela, pensei.
Assim que me apresentei na frente de loja, meu chefe disse que o gerente queria falar comigo e que deveria ir imediatamente para sala dele. Fui! Lá, descobri o motivo do choro. Margareth foi até o gerente e, enquanto eu almoçava, me denunciou por agressão. Estava com o uniforme rasgado, como prova da minha brutalidade e insensibilidade. Como todos os homens do mundo, é claro! O gerente não se conformava. Achava que eu era um dos melhores funcionários da loja e nunca poderia imaginar que eu fosse do tipo violento. Eu não sabia o que fazer.
Fiz, então, o óbvio. Contei o que acontecera de verdade, mesmo sabendo que seria a minha palavra contra a dela e de estar infringindo uma norma capital do supermercado. Acho que fui convincente o bastante, pois o gerente resolveu chamá-la e fazer uma 'acareação' com nós dois. Olha, se eu não soubesse a verdade, teria pena dela também. Teria me considerado um 'canalha de marca maior'. A garota deveria ser atriz e não empacotadora. Chorou um rio de lágrimas na frente do gerente e, a cada duas palavras, soluçava convulsivamente. Recontou a estória e, graças a deus, uma mentira sempre tem 'pernas curtas'. Ela afirmou que a agredi na entrada do vestiário feminino e próximo ao refeitório. Como todos sabiam, eu não comia no supermercado, pois morava bem perto e, raríssimas vezes, subia para o refeitório ou para a área dos vestiários. Até o gerente sabia disso! A coisa ficou pior quando ela falou a hora da agressão. Era a hora em que estava saindo para almoçar e para minha sorte, saí com uma funcionária da padaria que morava perto da minha casa. Ela podia confirmar a minha versão.
O barco fez água, mas ela não deu o braço a torcer e nem admitiu estar mentindo. Inventou umas três versões diferentes, todas elas com uma ação impossível ou improvável da minha parte. O gerente percebeu que ela estava mentindo. Mandou-a para casa, pois o idiota aqui não estava mais com o fruto do roubo e não tinha como provar no momento o que ela havia feito. O gerente decidiu dar a ela uma suspensão de dois dias e me manter normalmente. Ufa! Escapei dessa, pensei cá comigo. Ledo engano, podia ter convencido o gerente, mas todas as outras funcionárias da frente de loja, me odiaram pelo que eu 'fizera'. Nenhuma delas falou comigo nos dias que se seguiram até o retorno de Margareth. Depois disso, elas me chamavam para dar uma lição de moral, onde não podia dizer uma palavra, pois homem é tudo assim, sempre está errado, mesmo estando certo. Sempre um canalha! Não havia nada que dissesse para convencê-las do contrário. Sem chance de defesa, aceitei meu castigo resignado, para falar a verdade, foram algumas semanas de paz na minha vida.
Ao mesmo tempo, a própria Margareth começou a falar comigo e agir como se nada houvesse acontecido. Chegou mesmo a fazer piada da situação. Não achei graça nenhuma! Ainda mais, com todas as outras me odiando por algo que não havia feito e sem o direito de contar a minha versão dos fatos. Me arrependi amargamente de não tê-la entregue para o gerente como estava nas regras, quis dar uma de bonzinho e mefu...
Alguns meses de inverno gelado depois, Margareth foi pega novamente roubando. Agora, não por mim, mas por outro supervisor, que cumpriu seu papel à risca. Levou-a direto para o gerente, juntamente, com a prova do crime. Alguns pacotes de biscoito recheado de chocolate. Demitida por justa causa! Concessão de perdão total para a minha pessoa. Fui absolvido no segundo julgamento, principalmente, após minha acusadora ser acusada. Perda de credibilidade.
O mais incrível disso tudo, foi que, todas elas, acharam que o Supervisor fora rigoroso demais. Poxa, alguns pacotes de biscoito recheado, não dava nem 5 reiais. Ele podia ter relevado esta, não podia? Falaram todas quase em uníssono. Eu apenas pensei, graças a Deus que ele é mais impiedoso e justo do que eu!

08 junho 2008

Poesia - Apenas Ilusão

"Nem tudo que reluz é ouro!", ditado popular que já foi bem mais conhecido. Passa a clara mensagem que as aparências enganam e nossos olhos não são bons conselheiros. Os versos de nosso poeta esta semana tratam deste tema delicado, vamos apreciá-lo.

APENAS ILUSÃO

Voa desajeitado o antigo besouro
De forma arcaica
E aerodinâmica desfavorável.

Com sacrifício procura
Manter-se no ar
Na tentativa de livrar-se
Das trevas
E alcançar a traiçoeira luz.

Atira-se contra a alva parede
Como que para celebrar seu êxito,
Vai ao chão
E levanta-se num vôo amorfo
Até a fonte de luz.

Está agora próximo ao fim,
Pois ao abandonar as trevas
Que o amedrontava
Mas o protegia,
Encontrou a clara luz
Que lhe abriu os olhos
E lhe mostrou a morte.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Faixa de Gaza

Esta é uma expresão já ouvia por quase todas as pessoas no mundo: Faixa de Gaza. Um local árido e sem valor econômico no Oriente Médio, mas fruto da disputa entre Israelenses e Palestinos. Uma luta fratricida! Povos irmãos que se odeiam. Assim, são as diversas lutas das facções criminosas no Rio de Janeiro e em todo Brasil. Irmãos que se odeiam. As facções surgem dentro do seio das mesmas facções que desejam derrubar, realizando um ciclo eterno de nascimento e morte. Esta é uma destas estórias fúteis dos morros do Rio de Janeiro.

Terra de Ninguém... No Man's Land. Era uma expressão utilizada na Primeira Guerra Mundial para o território que ficava compreendido entre as duas linhas inimigas, significando a região a ser conquistada para empurrar o inimigo de volta a seu próprio território. Era uma expressão de Campo de Batalha. No morro, tínhamos a nossa própria Terra de Ninguém. Era a região da Rua Central que recebia a perpendicular vindo da Rua do Campinho, era o exato ponto de intercessão entre as duas partes do morro. A parte baixa e a parte alta. Havia um orelhão nesta área, bem em seu centro, mas ninguém tinha a coragem de usá-lo, após às seis da tarde. Era muito arriscado!
Esta área se tornou uma Terra de Ninguém, quando uma nova facção do tráfico decidiu se estabelecer no morro. Primeiro tentaram invadir e tomar o ponto da 'boca de fumo' à força. Mas a facção atual estava bem instalada e não cedia o território com facilidade. Algumas baixas depois, a nova facção criminosa percebeu que não conseguiria nada com a tática da invasão pela força. Examinou os ponto geográficos onde estavam baseado as 'boca de fumo' da facção mais antiga e decidiu colocar as suas em pontos cegos distantes da área de comercialização deles. Estava iniciada a Livre Concorrência do Tráfico de Drogas.
O morro nunca foi um paraíso para os comerciantes de entorpecentes. Na realidade, nunca deu lucro para uma facção criminosa instalada. Imagine para duas. O prejuízo era líquido e certo. Assim como a disputa de poder entre eles. Os idealizadores da montagem das 'bocas de fumo' no morro, não iriam admitir que fizeram uma besteira, culpavam um ao outro por seu fracasso anunciado. Os donos das 'bocas' mais antigas, diziam que tudo ia bem até a chegada daqueles 'chupa-sangues' dos infernos. Os 'chupa-sangues' diziam que a concorrência desleal dos outros é que atrapalhava o faturamento. Solução: eliminar a concorrência. A luta fratricida teve início!
Os ataques as 'bocas' era contínuo e frequente. Muitas vezes, as facções pagavam a policiais para impetrar uma 'batida' nas 'bocas' alheias. Capturar armas e drogas. Às vezes, prender um ou outro viciado para assustar os clientes do concorrente. A luta ganhou contornos de guerra e as batalhas eram travadas no junção da Central como o Campinho. Era a Terra de Ninguém! Recebeu o apelido de Faixa de Gaza, ali tombava pelo menos um 'soldado' por semana naquela luta. Ali, podíamos encontrar projéteis de todos os tipos e formatos. As paredes das casas e lojas comerciais pareciam com queijos suíços de tantos furos que tinham. Um bar construído na década de 50, recebeu tantos tiros em sua parede lateral, que esta ruiu na primeira chuva.
A guerra era levada às últimas consequências por ambos os lados, sem se importar com quem estivesse no meio do caminho. A primeira vítima, não alistada nas facções, deu manchete de jornal para a guerra local. Na página principal do jornaleco que publicou as mortes, havia estampado uma foto da Central com os seguintes dizeres em baixo: Faixa de Gaza. O apelido pegou e as duas facções intensificaram seus esforços no combate uma da outra. Os corpos tombados na Faixa de Gaza aumentaram e já faziam jus à guerra travada por Israelenses e Palestinos no Oriente Médio. Era muito difícil de dizer qual era a luta mais fútil: a internacional ou a local. A imprensa intensificou a cobertura do combate e passou a ser 'pulo dos nove' nos noticiários diários do Rio de Janeiro, a batalha pelo controle do Boogie Woogie.
A presença da imprensa neutralizou a ação dos mercenários contratados: os Policiais Militares que atuavam para ambos os lados. Assim, as facções não perdiam suas armas, mas não conseguiam reposição com facilidade. A Logística do evento estava seriamente prejudicado. Recorreram as favelas que davam suportes as suas atividades bélicas no local. Pouco podia ser feito, pois atravessar a cidade com armamento não era tarefa fácil e nem barata. Existiam diversos pontos de coleta ao longo das principais vias de transporte da cidade do Rio de Janeiro. A posição geográfica do Boogie Woogie não colaborava e não permitia múltiplas rotas de acesso. A apreensão das armas era tarefa de fácil execução. A luta ficava cada vez mais cara!
Temos de entender que, ao contrário dos Estados Unidos, as forças para-militares do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, não dá muita importância para a vida humana, nem mesmo a sua. Por este motivo, a única coisa que pode deter uma conflagração deste tipo, são os prejuízos financeiros não repostos. Pode-se ter prejuízo, mas sempre com a expectativa de receber bem mais no futuro. A promessa não parecia existir no Boogie Woogie. A disputa pela Faixa de Gaza não estava levando as duas facções a lugar nenhum. Apenas mais baixas e prejuízos diversos. A contabilidade não fechava!
Passaram a tentar novas táticas, utilizando ações de guerrilha urbana, com o objetivo de derrubar os líderes de cada facção no comando do morro. O resultado foi a morte de diversas 'buchas de canhão', nada digno de nota para eles. Os prejuízos continuavam a se aglomerar galopantemente nas portas de cada um deles. Uma hora teriam de prestar as contas pela luta na Faixa de Gaza. A solução era simples e única: um acordo e a retirada pacífica de uma das facções do morro, com uma pequena compensação para o retirante. O problema era que, quem se retira-se, seria apontado como derrotado na posse da Faixa de Gaza. Sua vida dentro de qualquer facção criminosa seria bem curta, podia encomendar o caixão, rapidinho. O que fazer, então?
A disputa para ver quem tinha o 'pau' maior, prometia ser infindável, quando os chefes das duas facções resolveram chamar seus comandados no morro e realizar uma Conferência de Paz, bem no Centro da faixa de Gaza. Reunião marcada e a presença dos líderes locais do tráfico garantida. A fase dois do plano era a mais simples de todas. Arranjar os Judas! Os Judas matariam os líderes insanos daquela sangrenta disputa, bem no meio da Faixa de Gaza, para servirem como exemplo. Preparativos completos. A reunião foi realizada e os assassinatos, também. A paz foi declarada! Uma das facções resolveu deixar o território nuca conquistado e buscar campos mais verdes para sua ambição. A Faixa de Gaza carioca, finalmente, encontrou a paz... temporária.

01 junho 2008

Poesia - Um Governo

O Governo deveria governar, organizar e melhorar o funcionamento da vida de seus cidadãos. As pessoas deviam se beneficiar de seus serviços e de suas ações. Mas, lógica invertida, o Governo parece agir de forma contrária a estas máximas. Parece que, quanto mais desgoverno, desorganização e a piora na vida das pessoas é o objetivo primário a ser alcançado. Verdade ou mentira é a discussão política de nosso poeta o dia de hoje.

Atormentaste enquanto espírito
As consciências dos conscientes,
Perturbaste com suas críticas
A ordem dos organizados,
Espalhaste sua falsa
Boa semente,
Para que o vento a transportasse
E fecunda, germinasse
Nos ouvidos esperançosos.

Apostaste protegido pela tua ausência
Injustiças que não conhecera.
Espalhaste por fim a discórdia
E ansiaste pelo desgoverno.

Estás agora materializado,
Oh covarde consciência oculta,
Assumiste o corpo
Que antes amaldiçoara,
E justamente se fez vítima
De suas próprias idéias e palavras.

Que fazer agora sem a proteção
De sua conveniente ausência?
E com o corpo exposto às mesmas críticas
Que de forma apocalíptica tecia?

Como dar conta agora
Dos filhos que hão de nascer
Das mentes emprenhadas
De frustradas esperanças?

Devias sentir agora o peso
De um espírito encarnado,
Mas hipocritamente sorri,
Pois depositaste com sarcasmo
Nos ombros de milhões
Aquela mesma pesada cruz
Que prometeste destruir.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Amor de Mãe

Existem inúmeros mitos sobre o comportamento humano. Alguns deles são transformadas em leis imutáveis da natureza. O amor de mãe é uma delas, apesar dos inúmeros casos que contrariam esta afirmação. Este é um destes inúmeros casos.

Ver aquelas quatro crianças largadas no quintal da casa vizinha, era algo digno de pena. Estavam sujas e com fome. Dependiam da bondade dos vizinhos e dos parentes da mãe. Não tinham os pais morando com elas, pois cada uma delas era filha de um pai diferente. Era deprimente vê-las abandonadas pela mãe, que estava à caça do próximo otário a manter seu estilo de vida. A mãe sempre estava bonita e cheirosa, pois escolhera a profissão de esposa para sustentar sua vida.
Ela descobriu esta vida na adolescência. Tinha uma amiga que morava com um cara que a bancava. Dava tudo para a casa, depois que tivera um filho com ele. Nem precisava viver muito tempo com ele, pelo contrário, o melhor era quando o idiota era casado e não podia deixar que a família descobrisse. Recebia a grana todo mês e tinha que aguentar o 'pé no saco' uma vez por semana, enquanto a idiota da esposa tinha de aguentá-lo todos os dias. O primeiro passo era fácil: forró, baile funk, gafieira, qualquer lugar onde houvesse um homem procurando uma aventura. A escolha deveria ser pelo tamanho de sua carteira, nunca por beleza, inteligência ou por ser sexy, a escolha deveria ser por quanto ele poderia gastar com ela e se ele gostava de gastar com ela. Sempre tem um idiota que achava que conquista uma mulher por seus 'dotes' financeiros. Se ela fizer um 'docinho' e não dar na primeira noite, o idiota é fisgado. Depois, quando o sexo acontecer é só elogiar o desempenho medíocre do garanhão, que o caminho para sua conta bancária está pavimentado. Depois, é deixá-lo mostrá-la como seu novo troféu de caça e a carteira dele está acimentada na parede de sua sala. Uma criança é golpe final no idiota, que faz de tudo, por um tempo para mantê-la longe de sua família.
Infelizmente, não é uma situação definitiva. O idiota cansa, o dinheiro termina e o cara fica insuportável. Tá na hora de uma nova presa. Um novo bobo da corte 'pagão', pois enquanto os peitos tão firmes e a bunda dura, dá para conseguir uns 'bonitinhos'. Uma hora destas, a quilometragem faz cobrar seu preço, pois o taxímetro nunca pára de marcar. O segundo, sempre fica um pouco 'cabreiro', pois tem uma criança na jogada. Ele reluta, pois pode acontecer um confronto com o 'pagão' anterior, mas sempre é fisgado por estar 'comendo' a mulher dos outros. É excitante! Nisto, é fisgado 'facim facim'. Quando percebe, já não consegue ficar sem o 'jantar fora de casa'. Sem excitação e a aventura de pegar aquela mulher dos outros. O dinheiro começa a fluir aos poucos: "A menina tá precisando de leite!" ou "Estou sem nada em casa, aquele desgraçado não paga a pensão!", coisas do gênero. Então, um belo dia, vem a notícia, o exame, o desespero, o choro por que ele não a ama, porque mandou ela tirar a criança. Ela é cristã, não pode fazer uma coisa dessas, é uma vida dentro dela. O sexo acabou e as contas começaram, quando vê, já tem um novo 'pagão' na área. O negócio é arrumar formas de arrancar até o último vintém dele, pois sabe que isto não vai durar para sempre. No processo, existe uma vítima, que não é o 'pagão' imbecil, mas sim o filho do primeiro idiota. Não sendo mais a fonte de renda da família, é colocado de lado e esquecido. O pobre não pode mais ficar doente, chorar ou desejar nada, pois agora tudo é dado e pensado para o novo 'reizinho' do lar. Até quando, quem pode dizer.
O tempo passa, o relacionamento enfraquece, o medo da família também. Percebendo o poço sem fundo em que se meteu, o 'pagão' começa a regular o fluxo para o filho bastardo. Continua ajudando, mas não mais com a mesma frequência desejada pela 'mãe' das crianças. Momento de um novo 'pagão' entrar em cena. Também, é hora de investir em maquiagem e vestuário. Os idiotas não caem mais nos 'peitos' e 'bundas' dela simplesmente. Será preciso uma produção maior e uma escolha em padrão inferior aos anteriores, pois os de alto padrão não irão comparecer depois de uma 'verificada' no material 'oferecido'. Esta, também, é a hora da primeira criança chegar ao colégio. Se estiver com sorte, vai estudar, se não, ficará em casa assistindo tevê e tomando conta do irmãozinho. "Estudar para quê? Eu nunca estudei e me dei bem na vida!" responde a mãe para os vizinhos.
Em algum forró quente da periferia, o novo 'pagão' surge. Não dá para escolher muito e o fator idade é preponderante. Tem que encontrar um velho otário, para arrancar dele o seu sustento. Ao encontrá-lo, tem de fazer o papel da 'filhinha do papai', bem inocente, quase casta no início do relacionamento. O macho velho fica deslumbrado e a cobre de presentes. Cada noite, uma celebração da virilidade do 'papai'. Ele compra a felicidade dos 'países baixos', por um preço módico no início, mas com uma fatura de um tamanho indescritível depois. No que avança o relacionamento, o custo da felicidade cresce exponencialmente. Como a fatura está ficando muito cara, o 'pagão' pensa em ficar apenas com uma casa, que não é a da esposa. Chega o momento crítico de manter tudo como está. Ela tem de convencê-lo a ficar com a esposa, primeiramente, usa a tática do drama. "Não posso fazer isto com ela e seus filhos! Não sou uma dessas!" Depois, tenta a tática dos custos da separação. Por último, apela para a denúncia anônima para a esposa. Assim, o marido fica preso a ambas, mas não consegue sair de casa, na maioria dos casos. É a tática mais arriscada, mas normalmente funciona com os 'pagãos', pois são todos uns 'cagões', não conseguem enfrentar família e nem sociedade.
A criança é mais um último e derradeiro golpe para mantê-lo no papel de 'pagão'. É um ícone a sua virilidade, a sua honra de macho. Ele faz questão de mostrar o sua nova filha para todo mundo. "olha como sou macho! Meu pau ainda tá de pé e eu dou muito no couro ainda!" Este fica preso por anos com seu orgulho afagado desta forma. Alguns, nem se dão conta que aquela criança pode nem ser sua, mas o troféu da virilidade está ali para todos verem e ninguém questionar. Este, normalmente, mantêm seu caso por décadas, pois seu ego é quem mais recebe em troca dos atos em si. Demora para sair de cena, normalmente, falido.
Nestas temporadas de machos diferentes, ela vai fazendo seu 'pé de meia' para os invernos vindouros. Tem de estar preparada para o momento em que terá de fazer o supremo sacrifício: trabalhar. Entre o terceiro e o último 'pagão', começa o suplício. Arranja algum trabalho de esforço intelectual mínimo e que seus dotes, um pouco caídos, influenciam em sua contratação. O tempo todo reclama, mas é um bom lugar para descobrir o novo 'pagão'. Alguém ainda mais velho que o último e com bem menos capital para gastar. Este, infelizmente, vai ter de morar com ele. Não vai aceitar gastar grana com três pequerruchos sem um recebimento diário. Ser vista com o novo porco 'pagão' é humilhante, mas necessário para suportar aquela vida.
O último filho vem. O porco 'pagão' fica felicíssimo e aumenta o fluxo de capital para casa. As crianças mais velhas são colocadas de lado para o novo 'queridinho' da casa assuma seu trono. As mais velhas tem de ficar acostumadas com o segundo plano. Algumas brigam, tentam chamar a atenção, mas o padrasto coloca ordem na casa com a mão pesada. Algumas vão parar no pronto-socorro, mas a conivência da mãe, faz com que nada seja feito contra o 'pagão' agressor. A vida segue assim, a nova criança com uma vida boa por alguns anos, enquanto os outros três vivem uma vida miserável de surras e esquecimento. É claro, o 'pagão' encontra uma 'carne' mais fresca e se manda.
A última armação aconteceu, não dá para arrumar nenhum novo 'pagão'. O patrimônio conseguido nas temporadas dos machos, vão ter de manter a vida razoável que ela levou até então. As crianças, agora todas tem algo em comum: o esquecimento da mãe por profissão.