08 junho 2008

Boogie Woogie - Faixa de Gaza

Esta é uma expresão já ouvia por quase todas as pessoas no mundo: Faixa de Gaza. Um local árido e sem valor econômico no Oriente Médio, mas fruto da disputa entre Israelenses e Palestinos. Uma luta fratricida! Povos irmãos que se odeiam. Assim, são as diversas lutas das facções criminosas no Rio de Janeiro e em todo Brasil. Irmãos que se odeiam. As facções surgem dentro do seio das mesmas facções que desejam derrubar, realizando um ciclo eterno de nascimento e morte. Esta é uma destas estórias fúteis dos morros do Rio de Janeiro.

Terra de Ninguém... No Man's Land. Era uma expressão utilizada na Primeira Guerra Mundial para o território que ficava compreendido entre as duas linhas inimigas, significando a região a ser conquistada para empurrar o inimigo de volta a seu próprio território. Era uma expressão de Campo de Batalha. No morro, tínhamos a nossa própria Terra de Ninguém. Era a região da Rua Central que recebia a perpendicular vindo da Rua do Campinho, era o exato ponto de intercessão entre as duas partes do morro. A parte baixa e a parte alta. Havia um orelhão nesta área, bem em seu centro, mas ninguém tinha a coragem de usá-lo, após às seis da tarde. Era muito arriscado!
Esta área se tornou uma Terra de Ninguém, quando uma nova facção do tráfico decidiu se estabelecer no morro. Primeiro tentaram invadir e tomar o ponto da 'boca de fumo' à força. Mas a facção atual estava bem instalada e não cedia o território com facilidade. Algumas baixas depois, a nova facção criminosa percebeu que não conseguiria nada com a tática da invasão pela força. Examinou os ponto geográficos onde estavam baseado as 'boca de fumo' da facção mais antiga e decidiu colocar as suas em pontos cegos distantes da área de comercialização deles. Estava iniciada a Livre Concorrência do Tráfico de Drogas.
O morro nunca foi um paraíso para os comerciantes de entorpecentes. Na realidade, nunca deu lucro para uma facção criminosa instalada. Imagine para duas. O prejuízo era líquido e certo. Assim como a disputa de poder entre eles. Os idealizadores da montagem das 'bocas de fumo' no morro, não iriam admitir que fizeram uma besteira, culpavam um ao outro por seu fracasso anunciado. Os donos das 'bocas' mais antigas, diziam que tudo ia bem até a chegada daqueles 'chupa-sangues' dos infernos. Os 'chupa-sangues' diziam que a concorrência desleal dos outros é que atrapalhava o faturamento. Solução: eliminar a concorrência. A luta fratricida teve início!
Os ataques as 'bocas' era contínuo e frequente. Muitas vezes, as facções pagavam a policiais para impetrar uma 'batida' nas 'bocas' alheias. Capturar armas e drogas. Às vezes, prender um ou outro viciado para assustar os clientes do concorrente. A luta ganhou contornos de guerra e as batalhas eram travadas no junção da Central como o Campinho. Era a Terra de Ninguém! Recebeu o apelido de Faixa de Gaza, ali tombava pelo menos um 'soldado' por semana naquela luta. Ali, podíamos encontrar projéteis de todos os tipos e formatos. As paredes das casas e lojas comerciais pareciam com queijos suíços de tantos furos que tinham. Um bar construído na década de 50, recebeu tantos tiros em sua parede lateral, que esta ruiu na primeira chuva.
A guerra era levada às últimas consequências por ambos os lados, sem se importar com quem estivesse no meio do caminho. A primeira vítima, não alistada nas facções, deu manchete de jornal para a guerra local. Na página principal do jornaleco que publicou as mortes, havia estampado uma foto da Central com os seguintes dizeres em baixo: Faixa de Gaza. O apelido pegou e as duas facções intensificaram seus esforços no combate uma da outra. Os corpos tombados na Faixa de Gaza aumentaram e já faziam jus à guerra travada por Israelenses e Palestinos no Oriente Médio. Era muito difícil de dizer qual era a luta mais fútil: a internacional ou a local. A imprensa intensificou a cobertura do combate e passou a ser 'pulo dos nove' nos noticiários diários do Rio de Janeiro, a batalha pelo controle do Boogie Woogie.
A presença da imprensa neutralizou a ação dos mercenários contratados: os Policiais Militares que atuavam para ambos os lados. Assim, as facções não perdiam suas armas, mas não conseguiam reposição com facilidade. A Logística do evento estava seriamente prejudicado. Recorreram as favelas que davam suportes as suas atividades bélicas no local. Pouco podia ser feito, pois atravessar a cidade com armamento não era tarefa fácil e nem barata. Existiam diversos pontos de coleta ao longo das principais vias de transporte da cidade do Rio de Janeiro. A posição geográfica do Boogie Woogie não colaborava e não permitia múltiplas rotas de acesso. A apreensão das armas era tarefa de fácil execução. A luta ficava cada vez mais cara!
Temos de entender que, ao contrário dos Estados Unidos, as forças para-militares do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, não dá muita importância para a vida humana, nem mesmo a sua. Por este motivo, a única coisa que pode deter uma conflagração deste tipo, são os prejuízos financeiros não repostos. Pode-se ter prejuízo, mas sempre com a expectativa de receber bem mais no futuro. A promessa não parecia existir no Boogie Woogie. A disputa pela Faixa de Gaza não estava levando as duas facções a lugar nenhum. Apenas mais baixas e prejuízos diversos. A contabilidade não fechava!
Passaram a tentar novas táticas, utilizando ações de guerrilha urbana, com o objetivo de derrubar os líderes de cada facção no comando do morro. O resultado foi a morte de diversas 'buchas de canhão', nada digno de nota para eles. Os prejuízos continuavam a se aglomerar galopantemente nas portas de cada um deles. Uma hora teriam de prestar as contas pela luta na Faixa de Gaza. A solução era simples e única: um acordo e a retirada pacífica de uma das facções do morro, com uma pequena compensação para o retirante. O problema era que, quem se retira-se, seria apontado como derrotado na posse da Faixa de Gaza. Sua vida dentro de qualquer facção criminosa seria bem curta, podia encomendar o caixão, rapidinho. O que fazer, então?
A disputa para ver quem tinha o 'pau' maior, prometia ser infindável, quando os chefes das duas facções resolveram chamar seus comandados no morro e realizar uma Conferência de Paz, bem no Centro da faixa de Gaza. Reunião marcada e a presença dos líderes locais do tráfico garantida. A fase dois do plano era a mais simples de todas. Arranjar os Judas! Os Judas matariam os líderes insanos daquela sangrenta disputa, bem no meio da Faixa de Gaza, para servirem como exemplo. Preparativos completos. A reunião foi realizada e os assassinatos, também. A paz foi declarada! Uma das facções resolveu deixar o território nuca conquistado e buscar campos mais verdes para sua ambição. A Faixa de Gaza carioca, finalmente, encontrou a paz... temporária.

Um comentário:

Matheus do BW Lado B disse...

MORRO DO BOOGIE WOOGIE(BW) fez história no trafico e tambem nos bailes de vorredor fechando com o LADO B