22 junho 2008

Boogie Woogie - Boogie Woogie

Todos tem medo da decadência pessoal. Muitas vezes, esta suposta decadência é uma forma de renascimento para a vida. A decadência de meus pais, foi o meu renascimento. Foi graças a ele, que formei meu caráter e personalidade e pude corrigir inúmeros erros pessoais e familiares. Esta é a estória que principiou tudo o que faço hoje... é a estória do primeiro dia de toda a minha vida.

Eu era muito novo quando chegamos em nossa casa pela primeira vez. Não deu pra não fazer cara de muxoxo. Era um lugar feio pra caramba! A porta estava carcomida nas pontas e rangia nas dobradiças. O telhado de cerâmica era irregular e haviam várias telhas quebradas, sendo algumas feitas de vidro, para melhorar a iluminação interna, mas davam um aspecto ainda pior para aquela residência.
A casa era muito pequena, apesar de ter quatro cômodos. Era um quarto, sala, cozinha e banheiro. O banheiro era extremamente pequeno e o chão não era de cerâmica e nem tinha ladrilhos, era feito de um vermelhão estranho e muito feio. Haviam vários pontos pretos e partes descascadas que revelavam o cimento por baixo do vermelhão. Não havia chuveiro e o vaso sanitário estava levemente inclinado pro lado. O cheiro era horrível e lembrava da existência de uma comunidade de baratas na casa. A cozinha era outro desastre. Como era escura?! Alguém genial, teve a brilhante idéia de pintá-la de verde musgo, sendo que a cozinha somente tinha um pequeno basculhante no canto extremo do cômodo. Um basculhante ínfimo com menos de 30 cm de altura. O basculhante e a pintura escura, mais o chão coberto com uma camada de cimento sem areia, bem aplainado. Faziam-na parecer como uma caverna, mesmo durante o dia tínhamos de manter a luz elétrica acesa, senão... nada conseguiríamos enxergar lá dentro.
O aspecto de destruição ficava completo com a janela que existia na sala. Janela na sala é algo bem comum. Mas já viram uma janela que dá para uma parede de tijolos e fica localizada na lateral da casa e não em sua frente. Na casa, pareciam ter construído apenas a sala e o quarto, a cozinha e o banheiro eram um adendo, preparados muito tempo depois, quando já haviam construído a casa ao lado, bem grudada. A distância que separava as duas, foi usada como uma espécie de corredor que unia a sala e cozinha, sendo que, onde era localizada a janela, havia um corredor complementar que levava a uma fenda de poucos centímetros, dando para uma falha entre a construção da casa vizinha e a nossa. Ali, como descobriríamos mais tarde, seria a residência de insetos e mamíferos diversos. Ratos, principalmente.
O primeiro dia trabalhamos até não poder mais. Éramos crianças, por este motivo encarávamos aquilo tudo como uma grande brincadeira. Na realidade, nem imaginávamos que fôssemos morar naquele lugar. Sem nossa mãe naquele primeiro dia, pensamos que voltaríamos para nossa antiga casa. Quando papai disse que ficaríamos ali pra sempre, foi que a 'ficha caiu'. Olhei para a varanda da casa. Tinha 1,5 m por uns 80 cm, para quem estava acostumado com um gramado de 10 m por 25 m de comprimento... vamos dizer... era algum tipo de pesadelo insano. Fiquei realmente assustado com a notícia. Quando mamãe chegou à noite vindo da casa da patroa e trazendo mudas de roupa limpa... a certeza bateu forte. Meu sonho de ter um cachorro foi pro espaço!
No dia seguinte, acordamos cedo para trocar as telhas quebradas e fazer alguns pequenos reparos naquela casa caindo aos pedaços. Papai percebeu que deveríamos limpar a caixa d'água, também. Encontramos um passarinho morto dentro dela. Que nojo! O fedor era insuportável e sobrou para mim limpar aquilo. Tivemos que jogar toda a água da caixa fora e enchê-la novamente. Até terminar de encher, nada de banhos. Nem comida! O rebuliço que estávamos fazendo, atraiu a atenção dos vizinhos. A primeira a tomar coragem e se apresentar foi a vizinha da frente: Dona Virgília. Trouxe um café para nós e ficou tricotando com minha mãe. Contando tudo sobre a vizinha e descobrindo tudo que podia sobre os novos vizinhos.
Enquanto isso, meu irmão do meio, começou a fazer novas amizades e acabou sendo chamado para jogar bolinha de gude. Era bulica e não triângulo, como meu irmão não tinha nenhuma bolinha para apostar, os garotos emprestaram para ele. Me chamaram também, mas não quis ir, era um coelhinho assustado naquele novo meio. Meu irmão mais novo, ficava atrás de minha mãe querendo subir para seu colo. Não teve jeito e minha mãe teve de segurá-lo e foi com ele para casa da nova amiga. Não podia imaginar que seriam as melhores amigas daquela vida. Eu e meu pai continuamos a limpar a casa e preparar tudo. Montamos as camas e o armário que a patroa da minha mãe deu pra ela. Meu pai era 'macumbeiro' e tinha um santuário próprio para suas divindades. Escolheu um ponto em seu quarto com minha mãe e lá, me fez ajudá-lo a preparar tudo. A colocação dos objetos e até da toalha da mesa deviam ser cuidadosamente realizados. Quando ele acabou, ficou satisfeito com a arrumação dos objetos. Pegou um charuto na cômoda da cama e acendeu, começou a entoar um cântico esquisito e recebeu uma entidade. Esta, com a fumaça do charuto, benzeu toda a casa de uma ponta a outra. Minha mãe ficou envergonhada e veio gritando com meu pai, mas ele estava em transe e não respondeu, apenas resmungou de um jeito estranho. Minha mãe olhou pra mim como a pedir ajuda, a única coisa que pude fazer foi dar de ombros.
À noite, tudo estava pronto e arrumado. Minha mãe foi para a casa da vizinha assistir a novela das oito, já que não tínhamos televisão, enquanto meu pai ligava o rádio na Tupi AM para ouvir as notícias. Eu e meu irmão do meio, só queríamos saber do resultado do futebol, mesmo que nós dois ainda não tivéssemos um time de coração. Gostávamos, principalmente, das narrações apaixonadas dos narradores ou o tom indignado dos comentaristas. Aquilo mexia com a gente. Meu pai odiava futebol, mesmo assim deixava sintonizado para escutarmos as notícias ou os jogos, se houvesse alguma transmissão. De repente, um batuque ao longe chamou minha atenção. Era uma música que nunca havia escutado antes. Fiquei prestando atenção no ritmo, já que a canção não dava para escutar direito, estava muito longe. Meu pai falou que era samba! Demorei muito para aprender a gostar daquilo.
Minha mãe voltou para casa após o final da novela, já eram quase dez horas e não estávamos acostumados a dormir tão tarde. Ela fez a cama para mim e meu irmão do meio no chão da casa, pois o mais novo ficaria no sofá, enquanto os dois dormiam na cama no quarto de casal. Nós ficamos na sala. Deitei e de repente senti um formigar nas minhas costas, levantei e liguei o interruptor da luz. tinha uma lacraia na minha cama, dei um baita grito, pois nunca havia visto aquele bicho antes. Meu irmão saiu correndo para a cama de meus pais, enquanto eu tentava matar aquele bicho com a vassoura. Ali começava a minha aventura na favela do Boogie Woogie, onde viveria alguns dos melhores e mais importantes anos de minha vida.

Nenhum comentário: