14 setembro 2008

Poesia - Vida Viva

Qual é a vida que vivemos? Nós vivemos a vida? Ou apenas passamos por ela? Nosso poeta discute este tema e nos exalta a viver a vida.

VIDA VIVA

A vida que ora falo
Não é a vida vivida,
Mas a vida viva,
Aquela que dá vida
Aos que têm vida
E não aquela que está morta
Naqueles que vivem sem ter vida.

A vida que canto é aquela que
Da luz aos radiantes
E como vaga-lumes
Parecem ter luz própria,
Magnetizando aqueles que
Com brilho a si tudo atraí.

A vida que proclamo é aquela que
Transforma o possível
E não teme o inevitável,
Pois paradoxalmente
A vida só se torna leve e viva
Com a certeza do seu próprio fim.


Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Adolescente sem Causa

Adolescentes são um perigo! Para as pessoas a sua volta, tanto para si mesmas. Esta é uma história da irresponsabilidade adolescente colocando à própria vida em risco por absolutamente nada de valor e as consequências para quem o ama.

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Renata viveu sua vida inteira no morro. Nasceu no Hospital Municipal Paulino Werneck e foi criada livre nas ruas do morro do Boogie Woogie. Lá encontrou seu primeiro namorado, perdeu sua virgindade e teve seu primeiro filho, o Renato. O pai, como é muito comum, desapareceu no mundo quando soube que seria mais um pai adolescente.
Renata criou seu filho enfrentando inúmeras dificuldades, sendo a principal morar na casa de seus pais junto com suas outras quatro irmãs. Apenas o irmão mais velho, Fábio, foi morar sozinho após servir no Exército. A casa era pequena e os atritos comuns. Piorando a cada filho que uma de suas irmãs acabavam tendo, escapando apenas a Heloísa, que muitos diziam ser 'Sapata'.
Dificuldade após dificuldade, Renata conseguiu superar os problemas e conseguiu criar seu filho sozinha, pois decidiu não mais casar, apesar de continuar tendo um ou outro namorado de vez em quando. Renato acabou sendo criado sem pai e sem uma figura forte ao seu lado, por este motivo, aparentemente, acabou sendo um 'desgarrado'. Uma espécie de rebelde sem causa, que gostava de viver livremente nas ruas do morro aprontando coisas de criança. Ficou irresponsável e não conseguia entender o significado da palavra: Conseqüência.
Quando fez quinze anos, este seu comportamento o colocou em problemas sérios. Tomou todas em uma festa na rua e começou a gritar que era do TC (Terceiro Comando), a facção que dominava o tráfico no morro naquela época. Ele gritava 'alto e em bom som' para todos ouvirem suas palavras. 'Tirava onda' com as meninas e chegou mesmo a 'passar a mão' em algumas delas, aproveitando a impunidade do medo de todos que não sabiam a verdade. A verdade... ele era apenas uma criança tola e estúpida, como todos os adolescentes são, querendo aparecer para o mundo sem ter nada de especial. Ele via a participação nesta facção criminosa como algo importante e digno de nota. Sua mãe ao saber do que fizera, o repreendeu, mas ele disse para ela 'não esquentar'. “Quem vai relar a mão em mim... um cara do Terceiro!” Vangloriou-se ao cair na cama e curar a ressaca do 'porre' que tomara.
Sorte não anda ao lado dos inconseqüentes! Uma semana depois o morro foi invadido e uma facção rival assumiu o controle do morro. Todos os membros do TC fugiram logo após os primeiros disparos. O morro estava sob nova direção. Um dos invasores bateu na porta de Renata e deu um ultimato para seu filho: “Some com ele daqui, senão vai dormir com as formigas!” Bateu o desespero, Renata e suas irmãs juntaram até o último trocado, tentaram encontrar o pai delas para pedir ajuda, mas este estava em outra cidade trabalhando de pedreiro. Procuraram o novo 'dono do morro', mas este foi irredutível e ainda ameaçou fazer algo com cada uma das 'bonitinhas' ali se o encontrasse na casa delas à noite.
O inconseqüente, ao saber do que acontecera, resolveu que iria enfrentar a 'parada' e não iria 'arregar' pra ninguém. Renata chorou e implorou para que ele fosse embora, mas ele não fez nada disso. Sumiu pelas ruas do morro e escondeu nas lajes que ele conhecia bem de 'soltar pipa'. Os novos proprietários do Boogie Woogie bateram na porta de Renata, que lhes implorou de joelhos que não fizessem nada com seu 'menino'. “É só um garoto tonto, não sabe o que diz!” Você daria atenção a estes pedidos? Muito menos eles! Seguiram em frente e bateram em portas, até que alguém 'dedurou' onde ele estava escondido. Foi bala para todo o lado. 'Sentaram o dedo' para cima dele, que percebendo a seriedade da sua estupidez, correu mais do que o 'Papaléguas'. Os cara do tráfico disseram que nunca viram alguém correr tanto e ainda se desviar das balas como ele. Penso eu, que foi apenas a falta de pontaria daqueles idiotas que se acham os 'reis da cocada preta', mas isto é tema para outra conversa.
Renato chegou até o Jardim e dormiu na praia embaixo de alguns barcos de pesca velhos. No dia seguinte, conseguiu falar para sua mãe onde estava e aceitou fugir. A mãe mandou ele para a casa de um antigo namorado que fora morar em Itaperuna. Foram quase seis anos sem ver o filho.
O morro passou por diversas mãos e até esteve livre do tráfico por um longo período, mas Renata nunca chamou o filho de volta. Lá em Itaperuna, ele terminou os estudos e até arranjou trabalho. Acertou a vida e estava se transformando em um homem. Renata nunca teve coragem de visitá-lo, pois temia que fosse seguida e acabasse levando seu filho à morte.
Após os seis anos, Renato decidiu por si que já não havia mais perigo. Achou que todos os que ouviram ele falar aquelas tolices impulsionadas pela 'cachaça' já não estariam no morro ou teriam morrido. Voltou, primeiro para a casa de uma tia e depois apareceu no morro para ver a mãe, as tias e as avós. Tudo correu bem nesse dia, ele ficou toda a tarde lá e só voltou para a casa da tia durante à noite. No domingo havia uma partida de futebol no Campinho da Vila Panamericana. Renato não falou nada para sua mãe e resolveu vir para o jogo e depois almoçar com ela.
Estava bebendo próximo ao campo, quando um dos garotos da facção rival, que estava passando, o viu. Era um daqueles que o perseguira. Não pensou duas vezes, resolvendo ganhar algum prestígio, foi até sua casa e apanhou uma pistola. Seguiu tranquilamente até o Campo da Vila e quando viu Renato conversando à beira do gramado, se aproximou, encostou o cano da pistola na cabeça dele, puxou o cão e atirou à queima roupa. Renato já chegou no chão morto e sem parte de sua cabeça, completamente deformado pela violência do disparo. Todos correram e o assassino saiu dali tranquilamente e feliz por ter 'ganho' algum respeito com seus camaradas. Renata foi avisada e nem pode ir ver o filho estirado no campo de várzea, coberto de lama e sangue. Desmaiou e teve de ser levada para o hospital. Ela nem ao menos pôde se despedir de seu único filho, perdido para a inconsequência adolescente.

31 agosto 2008

Poesia - Dormência

Enfrentar a dor e ter consciência dela é algo atormentador para qualquer pessoa. Lidar com este fato e sentimento é ainda mais difícil. Nosso poeta nos fala de sua própria batalha.

DORMÊNCIA

Calafrios percorrem pelo meu corpo,

Foge do meu andar o equilíbrio,
Estou atado por uma doce fragilidade
E açoitado pela loucura infinda.

Caminho por um horizonte negro
E como bola de fogo
Enxergo a outrora lua.
A loucura transbora sem aviso.

Cego, tateio uma segurança
Que sei inexistente,
Cada minuto de existência
Transforma-se numa incessante
Busca do fim,

Seja este o fim da tormenta,
Seja este meu próprio fim.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Muleres que Amo - Trator

"Por trás de todo grande homem, existe uma grande mulher!" Esta afirmaçãó é clássica e bem verdadeira, na realidade. Mas nem sempre isto significa que funciona na vida real, este é um caso em que o 'tiro saiu pela culatra'.

É difícil entender! Marta sempre quis casar. Casar com o Ronaldo. Namoraram na adolescência e juntaram dinheiro após a Universidade, compraram uma casa perto dos pais dela e, finalmente, 'juntaram os trapinhos'. Tudo parecia estar ótimo, não? O sonho de Cinderela sendo realizado e tudo mais.
Alguns meses após o casamento, Marta começou uma campanha de mudança na aparência de Ronaldo. Primeiro, o corte de cabelo, depois as roupas e até mesmo o físico. O fez entrar para uma academia e cumprir uma pesada carga de exercícios, pois não queria um marido gordo e preguiçoso. No segundo round, ficou incomodada com o salário do marido. Ele tinha de ganhar mais, pois merecia muito mais. Eles mereciam muito mais. “Quando vier nosso filho, como vai ser?” perguntava ao atônito Ronaldo. Ele não tinha uma resposta, pensava em uma, mas não tinha coragem para expressar em viva voz o seu pensamento. Entrou em campanha por uma promoção, ao mesmo tempo que enviava currículo para as empresas concorrentes. Conseguiu!
Se transferiu para uma empresa concorrente e assumiu um cargo de chefia. Até aí, tudo bem. Tudo que Marta fazia era para o bem do marido e da família. Estava repleta de razão! Mas a cada mudança proposta ao marido, Marta não acompanhava a ascenção do marido, não evoluía. Assim, em pouco tempo, o marido e ela estavam criando um grande abismo entre eles. Ela começou a reclamar do tanto que fizera por ele e agora era assim que ele retribuía.
Ronaldo havia recebido inúmeras responsabilidades que não queria, que nem sabia se tinha capacidade de encarar. Precisava de alguém que pudesse ajudá-lo a enfrentar aquela nova situação e poder continuar crescendo, como era o desejo de sua querida esposa. Era incongruente, mas verdadeiro, Ronaldo precisava da ajuda de uma outra mulher que não sua esposa para continuar vencendo e avançando na vida. Esta ajuda veio de uma outra executiva que conheceu no novo emprego.
Procurou conselhos e dicas de como se sair bem em sua nova atividade. Passou a desabafar com ela, sobre os problemas e as crises em seu casamento, pois Marta não podia entendê-lo e muito menos ajudá-lo naquele novo aspecto de vida. A proximidade foi aumentando e a dependência, também. Ronaldo percebeu logo, que não haveria como escapar de um relacionamento mais íntimo com sua companheira de trabalho. Pesou, então, os prós e contras. Pensou em quanto amava sua esposa e optou por ela. Resolveu que pediria as 'contas' e voltaria para o velho emprego, onde o chefe disse-lhe que o aceitaria de volta. Preparou tudo e foi contar para a esposa, menos a parte de que acabaria dormindo com a executiva da sala ao lado.
Marta ouviu tudo e achou um completo absurdo! “Andar para trás! É coisa de retardado! Fracassado! De alguém sem amor próprio!” E mais alguns adjetivos que não vem ao caso aqui. Ronaldo tentou explicar detalhadamente o que estava acontecendo e o que estava sentindo. Falou até em se separar dela, caso continuasse na empresa. Marta ficou resoluta e o fez voltar atrás. No dia seguinte, Ronaldo desfez todos os preparativos e voltou ao trabalho.
No primeiro dia de retorno, tomou uma decisão ferrenha: não iria procurar sua amiga executiva! Iria evitá-la a todo custo e procuraria conselhos e um ombro amigo em sua esposa. Afinal, são marido e mulher. A primeira tentativa, até surtiu um efeito razoável, pois Marta o ouviu atentamente e tentou ajudá-lo, mas os conselhos dados eram os piores possíveis, já que nada tinham a ver com a realidade vivida por ele na empresa. Ficou indeciso e sem ação, acabando por piorar sua situação frente a chefia.
O aumento de problemas no emprego, o fez buscar, novamente, apoio na esposa. Ela não conseguindo ajudar e percebendo que, os conselhos que ela havia dado só pioravam a situação, mandou ele procurar alguém dentro da empresa para ajudá-lo. Não houve jeito, acabou voltando a ter um relacionamento de amizade com sua amiga executiva. A amizade extrapolou para um relacionamento mais sério e depois para um caso aberto, em que todos no escritório já sabiam.
Marta continuava a agir e a obrigar Ronaldo a evoluir. Com dinheiro extra, melhoraram a casa, o carro e os móveis. As roupas e os eventos que iam, também. Ronaldo passou, então, a levar sua esposa para os lugares que freqüentava com sua amante, no intuito de mostrar aquele novo mundo para sua esposa, como uma forma de compensar o que estava fazendo. Não funcionou! Marta não pertencia aquele mundo e sentiu até ofendida com os modos que era tratada quando saía com Ronaldo. O abismo se abriu ainda mais.
Houve uma festa de aniversário do principal executivo da empresa, Ronaldo levou a esposa, que não se relacionou com nenhuma das outras esposas e quis sair no inicio da festa. Brigaram! Ronaldo, então, fez o impensado para ele. Pediu a separação ali mesmo. Marta enlouqueceu e 'rodou a baiana'. Assim mesmo, nada adiantou e no dia seguinte Ronaldo fez as malas e foi para casa da amante. O mundo de Marta ruiu e ela pôs toda a culpa no fraco Ronaldo. Que finalmente, pôde ter uma vida sossegada longe da esposa trator.

24 agosto 2008

Poesia - Ainda

Existe peso maior do que a nossa própria cobrança. Nos carregar é algo extremamente difícil. Encontrar a solução para nos fazer feliz, é crucial na vida de qualquer um. Nosso poeta nos mostra o quanto o fardo é pesado.

AINDA

Singular espírito
Único na dor
A intensidade clama
Da vida o ardor.


Sol no deserto
Chuva em alagados
Lágrimas sobre o choro
Olhos que saem regados.


Escapa-me o sumo
Resta-me a sede
A existência pesa,
A cruz do meu cansaço.


Ecoa na minha alma
Palavras reticentes,
Frases incompletas,
Expressões não eloqüentes.


Espero com a luz
Que dentro de mim existe,
Estou morto para a luz,
As trevas em mim persistem.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br


Boogie Woogie - Metal Pesado

Música, parece que todo mundo a ama... mas será verdade? Não acredito nisso. Acho que as pessoas gostam do 'evento música' e não da música em si. Sou um apaixonado por música e o grande responsável por isto é o Heavy Metal. Alguns perguntariam: Isto lá é música? eu digo só uma coisa: Ouça!

Quando meu pai comprou o primeiro aparelho de som lá de casa, nós só tínhamos dois discos, ambos do Roberto Carlos, de quem meu pai era um enorme fã. Sem opções, escutei aqueles dois discos até quase fazer um buraco nas faixas, na realidade, quem mais escutava os discos era eu. Meu pai, meus irmãos e minha mãe preferiam escutar o rádio, na maioria das vezes para ouvir os programas de notícias e de discussões dos mais diversos assuntos. Música não era um objetivo em si deles. Era o meu!
Sempre fiz bicos e desde que meu pai comprara o aparelho de som, decidi que juntaria uma 'graninha' para comprar outros discos. Sonhava em ter uma coleção de mais de 1,000 Lps dos mais diversos estilos. Sonhava em ter todo o tipo de música, até aquelas mais desconhecidas do mundo. Não tinha a noção da impossibilidade disso... mas queria. A primeira grana que juntei, decidi ir até o Centro do Rio para comprar algo, pois achava que meu bairro não teria nada de interessante, como era verdade.
Em uma sexta-feira, saí do Colégio fui até o morro e troquei de roupa. Falei para minha mãe que iria sair, mas não disse para onde e rumei para o Centro. Peguei o 324 Ribeira-Castelo e fui sonhando acordado com tudo que iria comprar. Meu objetivo principal era comprar alguma coisa dos Beatles. Meus ídolos até então. Quando cheguei lá, acabei me perdendo na maré imensa de discos que vi. Tinha de todo o tipo e formato, mas infelizmente meu dinheiro não esticava tanto. Percebi de cara, que só poderia comprar no máximo dois. Tentei procurar primeiro nas pontas de estoque. Havia muitos de discoteca, mas não era o que eu queria, pois já estava saindo de moda. Queria rock, por causa dos Beatles. Encontrei uma loja especializada na Rua São José. Havia coisas demais... escolhas demais... tipos demais. Percebi ali o quão pouco eu conhecia de música. Os nomes das bandas me davam idéias, as mais estapafúrdias possíveis. Até que encontrei um disco com uma capa que me chamou a atenção: “House of Holy”, do Led Zeppelin. Já havia ouvido falar do Led e conhecia umas duas músicas, mas no disco não tinha nenhuma delas. Fiquei em dúvida, tinha gostado mesmo da capa. Enquanto segurava o disco na mão pensando se o levaria ou não, minha atenção foi fisgada pela capa de outro disco. Era um disco de capa prateada, com fotos coloridas de uma banda no palco. O vendedor me disse que era um disco ao vivo. Não entendi! Para mim, todos os discos eram ao vivo, mas o vendedor me explicou o que significava. Fiquei fascinado!
A dúvida persistiu por um tempo, dei várias voltas no Centro e entrei em diversas lojas, tive até alguns discos dos Beatles na mão, mas aqueles dois não saíam do meu pensamento. Led Zeppelin e aquele outro ao vivo. O que escolher? Beatles! As capas deles não me 'pegaram'. Led Zeppelin, definitivamente. Era famoso, tinha músicas que eu conhecia e a capa era a mais bonita. Decisão tomada, fui até a loja decidido, segurei o disco na minha mão, mas em cima da hora troquei. Peguei o disco ao vivo: “Made in Europe”, de uma banda chamada Deep Purple. Não tinha a menor idéia do que queria dizer e muito menos o estilo de música, mas levei assim mesmo.
A viagem para casa foi excitante, não conseguia me agüentar de tanto tesão para ouvir minha nova aquisição. Infelizmente, cheguei em casa e já estava dando o Sítio do Pica-Pau Amarelo e começaria a novela das seis. Tentei convencer minha mãe a deixar escutar o disco que comprara, mas ela ficou irredutível. “Na hora da novela, não, senhor!” Fui dormir aquela noite apenas esperando a hora de levantar e ouvir o meu disco.
Acordei às 08:00 h da manhã e corri para a estante, liguei o som e preparei para colocar o disco para tocar, mas minha mãe me deu uma bronca enorme: “Isso lá são horas de acordar os outros.” Tive que esperar até dez horas. Meus irmãos acordaram e correram para brincar na rua, meu pai foi trabalhar e o beco ganhou vida com a luz do sol aumentando sua força. Então, finalmente, escutei! Era uma banda de metal pesado, Heavy Metal se preferir. Era ao vivo e nunca havia escutado nada igual aquilo. Os solos de guitarra me pegaram de todas as formas possíveis. O vocal era vibrante e forte. Tudo era novo diferente e... barulhento. Minha mãe ficou irritada nos primeiros acordes e pediu para diminuir o som da 'vitrola'. Algo que não fiz, pelo contrário, aumentei quase a explodir as caixas de som. Fiquei hipnotizado pela música.
O lado A do LP tinha apenas 3 músicas, bem diferente do disco do Roberto que tinha 7. Uma das músicas tinha mais de 12 minutos de duração e era interpolada por outra sem perder ritmo e harmonia. Fascinante. No lado B, descobri que existia um instrumento chamado balalaica, que era russo e usado para tocar uma música chamada Polka. Era a introdução de uma música que nunca mais sairia de meus ouvidos. Misturada a balalaica, havia um piano, um órgão Moog, Guitarras e Baixo, com um vocal irado. Era a minha música. Entrei para o grupo dos metaleiros. Minha vida mudou dali em diante, tanto musicalmente como no geral. O mundo se abriu para mim.
Enquanto o mundo era aberto para os meus sentidos, o morro iria se fechar. A música não era novidade apenas para mim, o morro inteiro nunca ouvira algo assim. Os primeiros comentários que era a música dos infernos, composta pelo próprio Satã em pessoa. Coisa de maluco ou retardado mental. “Ele vai ficar surdo ouvindo algo assim!” Fui transformado de um garoto inteligente em o ser mais estranho do morro. Todos diziam que eu estava possuído por alguma força do mal. Eu era maléfico! Era uma má influência para todas as crianças. Conclusão: fui incluído na lista negra de cada mãe e pai de família do morro. Ninguém queria que seus filhos andasse com aquele esquisito adorador do demônio. Foram até falar com minha mãe, que apesar de odiar aquela música, me deu todo apoio e mandou todo mundo 'pastar', para não dizer outra coisa.
Eu era apontado na rua e tinha gente que mudava de calçada quando me via. No início, pensei que tinha alguma doença contagiosa, depois pensei em até parar de ouvir o meu disco, para agradar a todo mundo e voltar a ser aceito nos meios sociais do morro. Qualé? Passei a ouvir, também, foi mais Metal Pesado: Black Sabbath, Led Zeppelin, AC/DC, Iron Maiden e tantos outros. Passei a tentar conhecer mais sobre aquela música segregadora, acabei descobrindo o progressivo, o blues, o soul e o jazz. Me afastando cada vez mais do samba e da MPB. Nunca aprendi a sambar, apesar de ter vivido quase toda a minha vida no morro. Fui rejeitado por minha escolha musical, então, rejeitei a deles.
A segregação acabou me ajudando a encontrar pessoas diferentes, de diferentes círculos, gostos, cores e pensamentos. A rejeição me ajudou a expandir meus conhecimentos e meu aprendizado sobre a vida. Minha segregação da sociedade dentro do morro foi uma benção. Uma transformação! Minha vida não poderia ter sido melhor sem o Rock Pesado das bandas de Heavy Metal.
Anos mais tarde, Rock in Rio, o primeiro, aconteceu. O rejeitado era o único do morro que conhecia alguma coisa do que iria se apresentar nos palcos do maior show da Terra. Ninguém sabia o que era um Iron Maiden, Whitesnake ou Yes. Ninguém conhecia o mundo, apenas as fronteiras do morro. Acabei escolhido para mostrar este caminho diferente a todos, que acabaram muitos seguindo pelos mais diversos motivos. De esquisito fui transformado em sábio, de um show para outro.

17 agosto 2008

Poesia - Sem Ar

Imaterial. Invisível. Pouco nos importamos com fatos e coisas que nosso principal sentido não pode detectar. Se não vemos, na maioria das vezes, acreditamos não ser verdade. O famoso São Tomé. Estes são versos que nos remetem a isto.

SEM AR

Ríspido sentido
Envolto em tenra aura,
Desejo infecundo
Translúcida vontade.


Limiar estreito
Que o acaso escolhe,
Conveniente surdez
Oportuna cegueira,


Amorfo plasma
Moldado pelos limites,
Estreitos limites...
Imóvel pasma.


Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Não é o Bastante!

A vida é ingrata! Nunca estamos completamente preparados para enfrentar seus desafios e nunca conseguimos tomar as decisões corretas para nossas vidas. É impossível dizer, o que é certo ou que é errado a seguir em frente no seu dia-a-dia. Esta é uma estória de como uma decisão pode ter um peso imenso na vida de alguém, por mais correta que pareça.

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A vida é ingrata! Mesmo quando realizamos nossos sonhos, muitas vezes os perdemos no momento seguinte ou algum tempo depois. Devemos estar sempre preparados para tudo, pois a vida nos surpreende constantemente. Raquel descobriu isto da pior forma possível.
Estudávamos no mesmo colégio, quando estavámos na sétima série do primeiro grau. Éramos amigos e nos davámos muito bem. Gostava um bocado dela, pois apesar de ser uma gata, não era convencida e nem pendante. Sempre tratava todos com a mesma deferência. Ninguém era melhor que ninguém! Nem tampouco, pior. Ela levava muito à sério a frase: “Todos nós somos iguais...”, esquecendo o restante. Era alguém que, de verdade, merecia ser feliz.
Parecia que seria! Conheceu o Otávio naquele mesmo ano. O chamado “bom garoto”. Era o filho que toda mãe gostaria de ter como genro. Tinha futuro, era inteligente e de boa família, como se dizia antigamente. Depois de engatarem o namoro, ambos viviam em um mundo à parte, em que a população total era de dois. Não havia guerras, politicas, maldade e nem decepções.
A vida foi planejada a partir deste ponto: o momento que ambos se conheceram. Iriam terminar o Segundo Grau, entrar para Faculdade, arrumar um emprego e casar. Teriam três filhos, arremataram uma vez, quando brincávamos sobre o que queríamos ser na vida. Raquel disse uma frase que marcou muito: “Quero ser mãe!” Ela não falou que gostaria de ser médica e nem aeromoça, seu objetivo era ser mãe. Viver para os filhos e o marido. Tanto, que ao entrar para a Universidade, logo abandonou o curso, pois não estava satisfeita. Começou a trabalhar e a juntar dinheiro para o casamento. Enquanto isso, Otávio se formava e conseguia um estágio. Logo, foi contratado e passou a receber um bom salário. Casamento à vista.
A festa foi linda e simples. Sem estardalhaço e apenas com os melhores amigos presentes e alguns familiares. Iniciaram a vida em um pequeno apartamento alugado perto da casa dos pais dela. O pai dela foi o fiador para eles! Tudo perfeito! Mas ficou melhor ainda! Um ano depois, nasceu Elisabete, a primeira filha do casal. Era uma garota linda e perfeita em todos os sentidos. Se Raquel não queria estudar e nem trabalhar até aquele momento, agora a situação garantiu que não mais faria isso por muito tempo. Dedicou total concentração para criar a filha. Não, as filhas! Pois vieram mais duas nos cinco anos após o nascimento de Elisabete. Foram Maria Stuart e Vitória, todas rainhas inglesas, pois era assim que Raquel se sentia em relação às filhas. Era a sua súdita mais fiel.
A vida foi dura neste momento para o casal. Sustentar um apartamento alugado e criar três filhas com o salário de apenas um, não era tarefa fácil. O mês parecia nunca ter fim e nunca ter o suficiente para comprar tudo que suas rainhas precisavam. Os pais dele e dela ajudaram bastante. Ajudaram a criar, ensinar, cuidar e sustentar as meninas. Então, Otávio foi promovido e o sonho da casa própria se tornou realidade. Não só o da casa própria, fnalmente, Otávio pôde realizar o seu sonho: um carro zero, a prestação, é claro, mas era o seu carro zero. A vida parecia ter escrito o roteiro perfeito para a vida de Otávio e Raquel... mas nada no universo é tão simples assim.
Otávio bateu com o carro zero récem comprado. Entrou em coma e foi internado em um hospital particular. As notícias ruins não paravam aí, mesmo que ficasse vivo, ficaria tetraplégico. A vida desmoronou como um castelo de cartas para Raquel. Estava perdendo o amor de sua vida. O único homem com quem dividiu sua cama e seu afeto. O quê ela poderia fazer? Principalmente, o quê ela tinha de fazer?
Os meses de internação foram de total paralisia para Raquel. Não fazia mais nada, a não ser ir para o hospital velar por seu amor. Elisabete assumiu o controle da casa e das irmãs, dando alimento, roupas e as levando para o colégio. Os avôs maternos vinham ficar com elas à noite, até a morte do pai. Otávio morreu quatro meses após o acidente. Raquel ficou de luto mais uns dois meses, sem nada fazer de sua vida. Foram seis meses sem uma existência real para ela. Mas, infelizmente, a vida continua.
Contas chegam aos borbotões! Dívidas estavam acumuladas! Casa, carro, luz, água, colégio das meninas e até o supermercado. Raquel não tinha a menor idéia do que fazer. Eram atividades de Otávio e ela nunca se interessava por nada disso. Não sabia nem o número da conta bancária conjunta deles. Junto com Elisabete, reuniu tudo que tinha, sabia e fez as contas. Estavam falidas! Não podiam pagar a casa e nem as dívidas acumuladas. Usariam o seguro do carro para pagar as prestações restantes e venderiam o carro para o ferro-velho, pois não servia para mais nada aquele monte de lixo assassino. Raquel se recusava a tirar as meninas do colégio particular onde estavam. Decidiu, com ajuda de seus pais e dos pais dele: vender o apartamento e mudar para um menor e mais distante, que pudesse pagar com a indenização e o seguro de vida de Otávio. Mas isto não duraria para sempre!
Ela tinha que trabalhar! No quê? Não sabia fazer nada! A não ser... ser mãe! Conseguiu trabalho de babá, mas pagava muito pouco, comparado com as despesas da casa. Teve de fazer trabalhos extras e passou a ocupar todo seu tempo livre. Não mais podia cuidar da casa como a boa dona de casa que sempre fora. Elisabete assumiu seu lugar. Era ela quem cuidava das irmãs, da comida, das roupas. Amadureceu antes do tempo e Raquel nem pôde ver. Seu sonho de ser mãe estava se esvaindo.
Como o dinheiro não era ainda o suficiente para manter as meninas no colégio particular, pagar aluguel, alimentar e vestir todas elas. Raquel decidiu voltar ao colégio. Fazer cursos de especialização de nível secundário. Estudar e rever o seu segundo grau inteiro, que fizera sem avinco. Em suma, recuperar o tempo desperdiçado ao buscar um único sonho: o de ser mãe. Este mesmo sonho, agora, posto de lado.
Ela conseguiu! Descobriu que tinha aptidão para trabalhar com alimentos, etnão, se formou em engenharia de alimentos. Arrumou um emprego em uma grande empresa e conseguiu, finalmente, dinheiro suficiente para dar entrada em uma casa própria e tentar recuperar o tempo perdido ao lado das filhas. Mas... isto... não foi... possível, novamente. Elisabete estava grávida. Sua filha ia ser mãe. Ela, agora, era avó.

03 agosto 2008

Poesia - Depuração

As dores da mudança e da evolução convivemos todo o tempo e não percebemos, nosso poeta nos apresenta a ela.

DEPURAÇÃO

Verte agora a estancada seiva
Purulenta seiva que assim
A pústula a fez.


Vacilante ainda, goteja fraca,
Receosa do sol,
Receosa do ar.
Exala-lhe o odor
Clareia-lhe a cor
Purifica-se às gotas.


Encontra-se com a luz
Perde-se ainda num infinito mínimo
Surpresa com a vida,
Tonta com a liberdade.


Escorre serena
Progressiva seiva,
Depura-se sem pressa
Até que a clara linfa
Com ti há de se confundir.

Maurício Granzinolli

mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Orelhão

Existem fatos que não conseguimos explicar como acontecem e nem porque, principalmente, quando as mudanças extinguem os motivos da existência de algo, até então vital para todos. Este é um caso destes.

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Furaram a calçada! Vários homens da CETEL, todos vestidos de amarelo, cercavam o buraco. Havia uma pequena caminhonete sem cobertura estacionada do outro lado da rua. Todos que passavam, tentavam dar uma 'espiadinha' para saber o que tanto mexiam aqueles homens de amarelo no chão. Terminado o buraco, foram até a caminhonete e retiraram algo grande de lá. Era amarelo, a cor da companhia de telefones, com uma haste de mais de metro e meio de altura. Um orelhão! O serviço levou quase todo o dia, pois era uma tal de mexer em fio para cá e depois para lá. Fios azuis, vermelhosa, brancos e pretos. Puxados do poste e do chão, até o cimento ser posto sobre o buraco e manter firme e erguido o orelhão.
Era o pioneiro! O primeiro orelhão do morro. Quase ninguém tinha telefone em casa naquela época, já que a posse de um telefone era um artigo de luxo, somente para pessoas abastadas. Um verdeiro investimento, valendo tanto quanto um carro, mas sem desvalorizar, pelo contrário. Acabado o serviço, a caminhonete e os homens de amarelo foram embora sem nada dizer a ninguém. Deixaram aquele orelhão em pé bem no cruzamento da Central com a Visconde Delamare. Um ponto central do morro, de fácil acesso para todos. A multidão logo se juntou para examinar o novo bem público exposto no morro. Os comentários eram os mais diversos possíveis. A grande maioria nem ao menos sabia usar o aparelho.
No dia seguinte, na venda do 'seu' Mozart surgiu uma placa amarela: “Fichas de Telefone: Cr$ 0,50 cada”. Fomos então apresentados as indefectíveis fichas cinzentas para usar no telefone. Tinham tamanho de uma moeda, apenas mais grossas e com umas ranhuras profundas no meio dela, sendo que havia nos dois lados da ficha. Todas eram iguais! Sempre me perguntei de que eram feitas, mas nunca soube e nem conheci ninguém que soubesse. Segredo! O Mozart ganhou muito dinheiro com elas, pois rapidamente o uso do telefone se tornou popular.
Dele, ligavam para os patrões para explicar porque não foram trabalhar ou para 'cantar' alguma menina que haviam conhecido. Às vezes, vendiam roupas e móveis por ele ou chamavam uma ambulância para atender alguém passando mal. Ele tinha 'mil e uma utilidades' para o morro. Descobriram que ele podia receber chamadas também. Então, marcavam um horário e ficavam esperando uma ligação acertada, como para saber a resposta para uma tentativa de emprego ou para saber a resposta de alguém sobre um determinado assunto. Ele fez a tristeza e a alegria de muitas pessoas do morro. Lembro bem, quando o Ricardo recebeu a notícia que seu filho nascera por ele. Chorou como um bebê, pois havia saído para trabalhar e não encontrara a sua esposa em casa quando voltara, então ligou para o hospital e soube que seu varão havia nascido saudável. Felicidade em 'dose cavalar', o pobre do Ricardo chorou como uma criança no meio da rua, sentou no meio-fio com as mãos no rosto e gritou bem alto: “Meu filho nasceu! Sou o homem mais feliz do mundo!” Saiu correndo e foi para o hospital ver sua família recém aumentada.
As fichas aumentaram o valor, mas o movimento não caía, ao contrário, sempre crescia muito mais. Havia dias em que o Mozart não conseguia repor na mesma velocidade que o consumo. Assim, surgiram os seus concorrentes e a venda de fichas de telefone se espalhou por todo o morro. Ninguém mais ficaria sem ligar. O movimento era tanto, que a Cetel, aproveitando a estrutura instalada e colocou um irmão gêmeo amarelo no lugar. A partir de então, as filas tão comuns, desapareceram e todos ficaram felizes com a novidade. Apesar de muitos não gostarem de conversar no orelhão quando havia outra pessoa esperando. Era porquê a pessoa podia ficar bisbilhotando o assunto alheio. Sabe como é que é, quem não ama uma fofoquinha de vez em quando? Assim mesmo, foi um grande sucesso, ajudou e muito as coisas no morro a melhorarem. Foi uma das ações sociais de maior impacto que eu já presenciei lá. Até eu usava o orelhão de vez em quando para conversar com o pessoal do colégio!
O tempo passou e novos orelhões foram instalados no morro, mas o orelhão da Central sempre foi o favorito do morro. Todo mundo usava e até o local onde ele estava instalado ganhou o apelido de: “Praça do Orelhão”, apesar de não haver praça nenhuma lá. O Mozart foi o mais beneficiado por isso, pois seu bar era ao lado do orelhão e, além da venda de fichas, ele podia vender bebidas e outras coisas mais para quem esperava sua vez de telefonar. Negócio que ia de vento em popa. Virou até ponto de referência para quem entrava no morro. Qualquer pessoa quando comprava um móvel na Ultralar do Cacuia, dava o orelhão da Central como referência para a entrega. Passou a fazer parte da vida de quase todo mundo que morava por ali.
Então, quando a CETEL virou TELERJ e depois foi privatizada, começou o boato de que começariam a vender 'telefones' para serem instalados no morro. Muita gente dizia que aquilo era mentira e outros falavam, que ninguém teria condições de comprar, pois um telefone era mais caro que uma casa no Campinho, o local mais caro dentro do morro. As especulações eram tantas e tamanhas, que nada escapava e todos diziam: “Para que preciso de telefone em casa, tem o Orelhão da Central pra gente!” Tratavam-no como uma entidade que tivesse vida e personalidade. Houve até o caso do bêbado “Pudim de Cachaça” que dormia sob ele, mas antes tinha um papo animado com o orelhão, explicando as mazelas da vida que o levaram-no a 'encher o pote'.
Houve então o cadastramento dos moradores para a compra do telefone. Seria, um aparelho por casa e somente um. Mas as coisas atropelaram os eventos na velocidade da luz. Após a privatização, os telefones começaram a ser instalados do dia para noite. Houve casas, como a minha, que foram instalados dois aparelhos. De repente, mais de 50% das residências do morro tinham aparelho. No entanto, o 'amarelinho' da Central permanecia intocável e útil. Muitos continuavam a usá-lo como forma de conexão com o mundo externo. Saíram as fichas de circulação e substituíram pelos cartões telefônicos.
Mas as mudanças continuaram de forma acelerada. Inúmeros orelhões foram instalados por todo morro, na Vila Panamericana, na Visconde Delamare e no Campinho. Os telefones não paravam de chegar as casa dos moradores e o preço dos cartões subia muito rapidamente. A 'pá de cal' foram a popularização dos celulares. No início, o preço absurdo cobrado por eles, ainda tornava o uso restritivo, mas a criação dos celulares pré-pagos, foram uma revolução para classe D e E do Brasil, principalmente, nas favelas. De repente, todos tinham celulares. Até os adolescentes recebiam de seus pais celulares como presente de aniversário ou de Natal. Os orelhões, finalmente, começaram a ser esquecidos. O da Central começou a encher de poeira. Roubaram o aparelho e depois os cabos. A Oi até instalou novos, agora na cor azul, mas não durou muito. Ninguém os usava e agora eram murais para os anúncios mais esdrúxulos, como o da 'Ritinha', um travesti que fazia programas no Jardim Guanabara. Foi o fim, quando em um tiroteio entre gangues rivais, acertaram mais balas nele do que um no outro. O orelhão caiu e ficou dias jogado na Central. Lá no chão, esparramado e destruído... sem uso. O fim de uma era. A única coisa que sobrou daquele tempo, foi o nome do lugar: Praça do Orelhão, continua até hoje.



27 julho 2008

Poesia - Purgando

Nosso poeta volta à toda, falando-nos do doloroso e lento processo da cura emocional.

PURGANDO

Recente-se das chagas
Dor que dela nasceste
Refúgio do sofrimento
Recanto da desilusão

Infiltra-se como câncer
Espalha-se como vírus,
Cianótica presença.


Nutre o sangue com veneno
Engrandece-se sobre a vida,
O corpo jaz dominado.
Ilumina-se com as trevas,
Apaga-se com a luz.


Grita alto seus horrores
Com o eco vai se alegrar
Fantasmas de um pesadelo
Noite que não tem fim.


Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Sociedade do Anel

Já perceberam como um pequeno objeto pode ter poderes mágicos? Esta é uma destas estórias que parecem absurdas, mas são verdadeiras e que nos fazem indagar, quando conseguiremos compreender as mulheres? Tentem!

Compreender as mulheres é uma arte obscura e perdida nas teias do tempo. Os homens não conseguem este feito hercúleo. Alguns ainda conseguem chegar aos princípios básicos do relacionamento com o ente feminino, mas é só este nível que alcançam. Existem, porém, aqueles que nem o botão de ligar do relacionamento conseguem descobrir. O Alberto era um destes casos.
Ele passou toda a sua adolescência sem ter um relacionamento. Ele não era 'gay' e nem assexuado, apenas não sabia como fazê-lo. Teve até oportunidades com meninas que eram uma 'gracinha', mas sua incompetência no jogo de atração, era algo digno de pena. Tentamos ajudá-lo por diversas vezes, sempre demos com os 'burros n'água'. Teve uma menina que veio nos perguntar se ele era 'bicha'. Nem isso pudemos garantir a ela, pois nunca o vimos com uma mulher e nem com um homem.
O tempo passou e, finalmente, Alberto conheceu uma garota. Todos nós apostamos que fora ela quem tomara a iniciativa e sustentava o relacionamento. Com certeza, estávamos corretos. Era legal ver a felicidade do casal. A frase: “Foram feitos um para o outro.” parecia caber 'certinho' para os dois 'pombinhos'. Tivemos até de parar de querer interferir no relacionamento deles, pois estávamos atrapalhando mais do que ajudando. Tudo estava indo às 'mil maravilhas'. Então...
Alberto e Lívia decidiram ficar noivos. Ele, nitidamente, queria garantir que aquela mulher louca, que decidira ficar com ele, não fugiria. Ela... acho que gostava de verdade dele! Sou francamente contra o casamento nos termos atuais, mas para Alberto, este parecia ser o passo mais acertado na sua vida. Ele nunca fora muito centrado em nada e nem realizava nada de excepcional com sua vida. Nada impedia este enlace. Até parece!
Alberto era um cara com ótima aparência. Tinha olhos verdes e era louro, não possuía físico atlético, mas a entrada no exército o ajudou a desenvolver alguns músculos. Nem assim, as mulheres olhavam para ele, apenas Lívia viu algo além de sua insignificância para o universo feminino. Ao ver algo além, colocou um sinal luminoso brilhante sobre ele. As meninas, quando os dois começaram a namorar, começaram a fazer perguntas sobre aquele 'desconhecido' que morava na esquina. Todas elas ficavam espantadas ao descobrir: ele morava ali há mais de 20 anos e era oficial do exército. Os olhares femininos começaram a investigar os detalhes, conseguiram descobrir coisas que nós, os amigos, nunca percebemos. Era o instinto feminino de caçadora entrando em ação. Mas, neste primeiro momento, não partiram para a ação. Esperaram!
Quando Alberto colocou o anel na mão direita de Lívia... tudo mudou. Elas atacaram! A rua parecia ter tido uma abdução em massa da espécie masculina, pois nenhuma mulher queria ouvir falar de outro homem que não fosse Alberto. Era o 'hit do momento'. Era 'up', falar no pobre coitado, que nem poderia imaginar a avalanche que desabaria sobre ele.
No dia seguinte da colocação do anel no dedo de Lívia, as perguntas e a proximidade feminina, cresceram exponencialmente para Alberto. Ele não podia ir até a padaria na esquina de sua casa, sem alguma garota pará-lo para 'bater um papinho'. Perguntavam de tudo e eram todas 'sorriso'. Os rostos ficavam iluminados enquanto falavam com ele. E ele... não estava nem aí! Não percebia absolutamente nada. Os homens são bem mais lentos nestes assuntos mesmo. Nós, os amigos, levamos quase uma semana para perceber o que estava acontecendo. Lívia... muito mais.
Os dois continuavam a levar sua vida de forma tranqüila, como antes. Nada havia mudado para eles, mas sim para o mundo em volta... o mundo feminino. Vieram, então, as primeiras cantadas. Alberto ficou assustado, pois não estava acostumado aquele assédio todo. Fugia na maioria das vezes e chegou mesmo a nos interpelar, pois acreditava que era alguma brincadeira de mau gosto nossa. Ledo engano.
O fim de tudo estava próximo. Havia uma grande amiga de sua irmã mais nova, que fraquentava regularmente a sua casa há mais de cinco anos. Era uma 'gata' muito gostosa e bonita. Ela nunca olhara nem para o rosto de Alberto naqueles últimos cinco anos. Acho que se alguém lhe perguntasse qual era a cor do cabelo dele, ela diria: preto. O anel mágico entrou no dedo dele, ela ficou completamente enfeitiçada por aquele novo Cavaleiro de Armadura Brilhante. Decidiu que seria a dama sortuda a ficar com o Cavaleiro. Preparou o 'bote', foi para a casa dele em um dia em que ninguém estaria na casa, somente ele. Pronto! Não foi preciso muito esforço para convencê-lo de ir para cama com ela. Ele nunca imaginou que poderia ter uma 'gata' daquelas na sua cama. Realizou um sonho! E o sonho virou pesadelo!
A mãe e a irmã pegaram os dois juntos na cama. Acho que era intenção dela desde o princípio. É claro, virou notícia de primeira página nas ruas do bairro, com um certo grau de 'aumentativo' na estória. Cheguei a ouvir versões em que ele estava com três mulheres ao mesmo tempo, mas isto não vem ao caso agora. Lívia soube de tudo e tomou a única atitude plausível. Terminou o noivado e o relacionamento. Alberto ainda envolto na euforia de ter ido para cama com uma 'gata' daquelas, fez pouco caso do fora da ex-noiva e nem tentou conversar com ela. Queia partir para novas 'paragens'.
As novas aventuras de Alberto não duraram. Ele caiu rapidamente na 'real'! A linda amiga de sua irmã, pivô de sua separação, lhe deu um fora no encontro seguinte. Os olhares cobiçosos de até então... desapareceram tão rapidamente quanto o anel em seu dedo. Ele ficou a 'ver navios'... solitário, chegou a pensar em voltar para Lívia, mas deu uma de forte e não deu o 'braço a torcer'. As aventuras de Alberto terminaram tão rapidamente quanto começaram. A Sociedade do Anel foi desfeita.

20 julho 2008

Poesia - Longe dos Olhos

A tirania dos sentidos! Estes limitam o pensamento, apenas os 'criadores' conseguem quebrar estas amarras e viajar por lugares nunca dantes imaginados. É o que nos pede o nosso poeta em seu retorno à casa.

LONGE DOS OLHOS

Antes amadurecer
A vida esbarrando
Nos limites do universo,
Que apodrecer sufocado
Pelas estreitas cercanias
Das ilusões, que nos transmitem
Os olhos.

Universo sem fim,
Que como um vasto campo
Não impõe limites ao pensamento,
Desautoriza a ansiedade,
Asfixia a depressão.

Todo o pensamento é grande
Se escapa à estreita armadilha
Dos cinco sentidos.

Faz, porém perecer alma
E corpo
Ao deixarem-se prisioneiros
No estreito mundo
De um imaginário visual.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie-Woogie - HQ

Todos temos vícios! O meu, sempre me ajudou e muito na minha vida. Aprendi a ler com uma revista do Pato Donald! E esta, me trouxe o gosto pela leitura de livros, dos mais diversos assuntos. A multiplicidade de assuntos existentes nas HQs (Histórias em Quadrinhos) me permitia viajar para os mais diversos destinos: Comics, Mangas, Fumettis, Bandas Desenhadas, era tanta coisa e tantos lugares, que meu mundo se abriu. O suficiente para me interessar pela informação e pelo conhecimento, esta é uma pequena homengem que presto.

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Corria para o ônibus apressado pois, normalmente, este não parava para crianças indo para o colégio. Eu estudava em uma Escola Pública perto da minha casa: a Cuba. Praticamente, todas as crianças do Boogie Woogie estudavam lá. Foi lá que dei meus primeiros passos no mundo da minha escrita e matemática, tive ótimas e dedicadas professoras, lembro-me delas com carinho até hoje: Maria José, Ondina e Dona Júlia, de quem gostava tanto que fiquei grande amigo de seu filho mais novo.
Alcancei o ônibus e sentei no fundo antes do assento do trocador quando ainda havia lugares para as pessoas sentarem e esperarem para depois passarem na roleta, pagar passagem e buscar um lugar para sentar na frente do ônibus. Começava, então, um desafio visual entre eu e o trocador. Ele sabia minha intenção: sair por trás sem pagar a passagem. Era uma manobra arriscada, mas tinha de fazê-lo para economizar o dinheiro que meu pai me dava. Esperava até chegar perto do ponto da escola, como o ônibus passava por uns cinco pontos diferentes próximos à Escola, ficava fácil de aparecer uma oportunidade e cair fora por trás sem que ele me pegasse. Seria melhor se houvesse mais garotos do colégio comigo. Quando éramos muitos, os trocadores nem tentavam nada, pois temiam a reação da maioria, que nunca acontecia, é verdade.
Quando o ônibus chegou próximo à ponte da Colônia, entraram alguns passageiros no ônibus, quando o último passou pela porta e foi pagar a passagem. Dei um pulo da minha cadeira e fui para escada tentar sair, mas fui lento, o trocador conseguiu segurar na minha mochila e tentou me puxar, mas já estava bem lá fora e ele não teve forças suficientes. Então, optou por dar um murro em minha mochila, que me jogou no chão, quase caí dentro do mangue ao redor da Colônia.
Fui para a escola, encontrei amigos, contei minha aventura e procurei minha sala de aula. Até o recreio, tudo sempre estava bem, mas quando o sinal do recreio tocava, sempre começava à tortura. Era hora de segurar a fome e ficar vendo o pessoal ir até a cantina da escola e gastar sua mesada. Eu não podia! Tinha que economizar se eu queria poupar meus trocados, meu pai sempre me dava algum no início do mês, mas sabia que não dava para grande coisa, por isso... me segurava, mas era uma tortura. Uma vez ou outra, conseguia 'filar' um doce ou um salgadinho de algum dos meus amigos. Empurrava tudo com água enferrujada do bebedouro. Tinha, é claro, a refeição preparada pelas merendeiras: macarrão à la “Ki-nojo” ou feijão aguado com alguma carne cozida que, invariavelmente, era músculo. Argh! Eu nem passava perto da porta. O negócio era agüentar calado. Às vezes, minha mãe me preparava algum lanche com pão de forma, mas ela cismava de colocar ovo frito em vários deles. Detestava ovo frito, sempre fazia uma permuta com alguém. Preferia creme de amendoim ou até mesmo pão com margarina. Os sucos ficavam quentes e intragáveis, jogava quase sempre fora, a não ser quando o Antônio estava comendo alguma 'gororoba' estranha que a mãe dele preparava, que ele tinha de empurrar com algum líquido e mesmo um suco quente servia. Era sempre minha cobaia!
Fim da aula, hora de voltar para casa. Normalmente, passava na casa de algum amigo, mas era muito 'enjoado', nunca comia nada na casa de ninguém, mesmo quando o cheiro era convidativo. As mães de meus amigos não me deixavam pegar o que queria e me serviam, fazendo misturas esdrúxulas de comida, que eu detestava. Já disse: sou enjoado. Brincávamos, contávamos estórias e mentíamos bastante. Criávamos fantasias de coisas fantásticas que faríamos e sonhávamos com o nosso futuro. Na época, meu maior desejo era ser motorista de ônibus e ir para um destino diferente todos os dias. Conhecer lugares diferentes e pessoas dos mais diversos tipos, se soubesse como era esta vida na realidade, ficaria longe dela.
Seguia sozinho para casa, olhava algumas vitrines. Em casa, almoçava, normalmente, comida requentada, pois minha mãe já fizera a comida há horas e já estava acostumada com meus horários malucos, portanto não me esperava. Não reclamava nunca, adorava o sabor da comida da minha mãe de qualquer jeito. Tomava um banho e ia contar minhas economias. Juntava as moedas sobre o sofá e fazia às contas. Hoje dava. Saia correndo e procurava um jornaleiro aberto. Lá ficava olhando aquelas maravilhas coloridas me chamando. Eram revistas em quadrinhos de todos os tipos. Queria poder comprar todas elas mas, infelizmente, não tinha dinheiro para isso. Meu objeto de desejo era aquela revista de capa colorida com um garoto com uniforme azul e vermelho, usando uma máscara que cobria todo seu rosto. O Homem Aranha! Juntava às moedas e entregava ao jornaleiro, que já me conhecia. Ele conferia às moedas, mas tinha certeza que estava certo, pois aquele ritual já durava quase um ano. Me entregava aquela revista com capa vermelha em que o Homem Aranha enfrentava um monstro com aparência de lagartixa, só que todo verde: o Lagarto.
Então, começava minha viagem semanal, que não durava mais do que 30 minutos. Antes mesmo de chegar em casa, já ia folheando o meu passaporte para a fantasia. Me via pulando de prédio em prédio, como um Tarzan urbano, junto daquele moleque ousado e franzino, cheio de problemas de 'grana', assim como eu. Sonhava em comprar uma máquina fotográfica para me sustentar e poder comprar mais daquelas aventuras no papel. O sacrifício valera à pena! Em todos os sentidos, pois se hoje escrevo estas mal traçadas linhas, é por causa de um americano que viveu por anos no mundo da fantasia: Stan Lee.

13 julho 2008

Aviso - Poesia

Infelizmente, poralgum tempo não poderemos contar com os inspirados versos de nosso poetinha, pois esta ocupada em suas tarefas e não poderá nos agraciar com suas inteligentes linhas, portanto, a partir desta semana começarei postar algum material traduzido sobre um novo assunto: Jesus Nunca Existiu! Serão textos do escritor e pesquisador americano Kenneth Humphreys sobre o assunto e de diversos autores que pesquisaram esta assunto por décadas, após a descoberta dos textos da Rag Hammadi, no Egito. Por este motivo, quem tiver interesse no assunto... aguarde!

Mulheres que Amo - Canalha

Sempre pensei que as mulheres odiassem os canalhas. Todas, sem exceção, dizem que odeiam. Mas será? Eu não acredito! Na verdade, acho que elas os amam. Esta é uma história do relacionamento de mulheres com um canalha. Divirtam-se!

É incrível, como uma mulher não consegue reconhecer um canalha, quando encontra com um! Eu, por exemplo, apenas de apertar a mão dele, já sei que é um canalha! Todos os meus amigos, também, reconhecem um logo de cara. Como, então, a mulher, muito mais sensível que o homem, não o consegue? Ou será que consegue e apenas não quer ver? É difícil dizer. Conheci uma mulher, que entregou até o apartamento, seu único bem, para o canalha com quem vivia, apesar de todas as pessoas dizerem para não fazê-lo. Ela fez e nunca mais entrou naquele apartamento de novo. Bem como, nunca mais sentiu o sabor dos lábios do 'seu homem', como ela enchia a boca para falar. Pior ainda, quando a mulher vê que o homem é canalha com alguém próximo a ela, mesmo assim continua a tentar, achando que: "Comigo vai ser diferente!" Não é e nunca vai ser. Pau que nasce torto, enverga até viga de aço. Vou contar esta estória.
A Kátia era uma amiga que conheci em um evento, nos encontravam de vez em quando para conversar ou sair em grupo. Tentando me recordar, não a via saindo muito com outros caras, nem lembro de algum namorado dela. Então, apresentei ela ao Luís Carlos, um canalha de 'carteirinha' e 'firma reconhecida'. Ele era extremamente simpático e tinha um enorme carisma, tanto que ninguém conseguia ficar com raiva dele, apesar de tudo que aprontava, mas sempre respeitou as mulheres de amigos próximos, acho que com medo de afastar os conhecidos. Mas amigas... eram outra história. Pediu que eu o apresentasse a Kátia, foi o que fiz. Ela caiu de amores por ele na primeira noite em que se falaram. Começaram a sair e o relacionamento começou a ficar sério rapidamente.
Então, pensei se deveria ou não contar-lhe que Luís Carlos era um tremendo canalha. Não sabia nem como começar a dizer-lhe algo assim. Alguns amigos próximos, me disseram para nem tentar, pois ela iria ficar com raiva de mim e ficaria ainda mais apaixonada por ele. Concordei! Mesmo assim, tentei dar uns pequenos 'toques' para ela, dizendo não ser uma boa idéia o relacionamento entre os dois ou que ambos não tinham muito em comum ou que ela sabia muito pouco sobre ele. Para cada questão levantada, ela tinha uma resposta pronta e imediata, todas baseadas no amor, não aberto a réplica. Decidi, então, conversar com a melhor amiga dela: Carmem.
Carmem e Kátia eram amigas desde pequenas, pelo que me haviam contado, estudaram juntas no Jardim de Infância, pois moravam no mesmo prédio. Até quando Kátia mudou de prédio, as amigas continuaram a se encontrar e conversar, mantiveram a amizade firme, apesar da distância entre elas. Carmem insistiu com seus pais de que queria ficar no mesmo colégio que a amiga, mesmo os pais tendo de se deslocar bem mais para levá-la. Venceu! Era uma amizade forte... sólida, pelo menos, é o que parecia.
Falei com Carmem: disse que a Kátia estava entrando em uma 'furada' e não havia como convencê-la do contrário. Ela estava apaixonada por ele, não havia forma de fazê-la desistir. Quem sabe, você sendo a melhor amiga dela, convença-a de 'sair dessa', antes que ele apronte alguma com ela. Carmem ouviu atentamente o que eu disse e foi conversar com outros caras do grupo que frequentávamos para saber se aquilo não era um surto de ciúmes meu. Logo percebeu que não. Foi conhecer o Luís Carlos, preparada para odiá-lo... infelizmente, o carisma e o charme dele a conquistaram tanto quanto à amiga. Na realidade, acabou apaixonada por ele também. Ao invés de convencer a amiga de desistir, deu força para o namoro, enquanto ele começou a 'dar em cima' dela mesma. Estava formado o triângulo amoroso.
Agora, todos apelidavam o trio de Luís e suas duas esposas. Kátia virou motivo de piada por toda a rua e em nosso grupo de amigos, pois o caso de Carmem com Luís era tão escancarado, que era absurdo ela não ver nada. "Cegueira do amor!", alguém brincou, mas começo a acreditar nisto. Tanto, que Kátia levou o Luís para morar com ela em seu apartamento, recentemente comprado. Soubemos, que enquanto Kátia trabalhava, Luís levava Carmem para o apartamento e ficavam juntos. Luís trabalhava como autônomo para algumas Corretoras de Imóveis, tinha muito tempo livre e horários que davam a ele uma ótima oportunidade para 'aprontar' todas.
O fato estava tão esdrúxulo, que uma sexta-feira, ocorreu o aniversário de um amigo comum, todos nós fomos convidados. Kátia foi com Luís e Carmem apareceu sem ninguém. Em determinado momento na festa, Luís e Carmem foram para uma sala de material de limpeza e 'mandaram ver'. Os gritos dela no armário dava para ouvir em todo o corredor e muita gente ouviu, menos Kátia. A pobre coitada andava pelo salão com todos rindo às suas costas quando passava. Ficou procurando o Luís metade da noite, quando ele voltou, estava desarrumado e cansado, deu uma desculpa esfarrapada, que, prontamente, ela aceitou. A piada da hora era a "Cegueira do Amor". Kátia brigou com duas amigas, que não aguentando mais a situação foram falar com ela. Ela respondeu: "Vocês estão com ciúmes!". Nunca mais falou com as duas.
A história entre ela e Luís só terminou, quando em uma tarde qualquer, voltou para casa para apanhar um documento que esquecera. É claro, encontrou o 'amor de sua vida' e a sua 'melhor amiga', na posição do frango assado. Deve ter sido uma visão tétrica! Mas não pode dizer que ninguém a avisou. Tudo bem, pelo menos, ela fez o certo. Pôs os dois para fora do seu apartamento e da sua vida. Infelizmente, não pediu desculpas a ninguém que ela tratou mal devido ao 'amor da sua vida'. Baixou a cabeça e entendeu o motivo das risadas às suas costas. Ficou humilhada e envergonhada, mas acho que aprendeu a lição: "Não existe o 'amor da sua vida', apenas amores em sua vida."
O incrível foi que Carmem, mesmo Luís tendo feito o que fez com a sua amiga, acreditou piamente que ele não faria o mesmo com ela. "Sou diferente dela! Sou melhor e mais esperta! Ele me ama!" Até parece! Uma coisa descobri com o passar do tempo, os canalhas tem um único e verdadeiro defeito: não sabem o que é o amor! Por este motivo, vivem a procurar algo que eles não conhecem e nem entendem. Então, nunca vão parar, não importa quem esteja ao seu lado. Foi o que acabou acontecendo com Carmem. Menos de um mês após o fim do relacionamento de Luís e Kátia e de ter assumido o relacionamento com ela, Luís conheceu uma mulher casada, para quem mostrou um imóvel. No imóvel mesmo, começou o novo relacionamento. Durou uns oito meses, até a 'esperta' Carmem descobrir no Hospital Miguel Couto, quando foi chamada às pressas, pois seu namorado havia sido baleado por um marido traído. A 'esperta' Carmem, percebeu, então, que os risos às suas costas eram para ela. Chegou a perdoá-lo e culpar a 'vaca' daquela mulher, pelo que ele havia feito. Não durou, duas semanas depois, descobriu uma nova amante dele e 'jogou a toalha'.

05 julho 2008

Poesia - Redonda

Partidas são dolorosas! Para quem parte e para quem fica. Nosso poeta nos fala de sua dor e em sua perspectiva em partir.

REDONDA

Parto agora,
Deixo-te já
Ó defectível espera,

Incômodo chumbo
Denso chumbo,
Chumbo da minha costela.

Desagrega-te em pedaços
Fragmentos de granada,
Explode antes a si.

Jorra o fervente enxofre,
Polui o que lhe circunda,
Esférica forma.

Rola-te agora ao abismo
Pois com perseverança
Destruíste cega, seus sustentáculos
De arestas.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Respeito

Minimizamos bastate os fatos que geram as desgraças de nossa sociedade. Diminuímos os fatores e a importância dos valores da sociedade no caráter das pessoas. Sempre culpamos terceiros e nunca assumimos a nossa parcela de culpa por tudo de ruim que acontece em nosso dia-a-dia. Esta é uma estória que mostra as facetas de inverdades ou mitos que usamos para justificar a verdade dos fatos. Por este motivo, nunca conseguimos seguir adiante e consertar o que tem de ser consertado.

Vejo na TV um monte de gente teorizar os motivos que fazem uma criança entrar para o tráfico. A resposta óbvia sempre é: dinheiro. A falta dele, é claro! Mas, acho que a falta de dinheiro é apenas um dos componentes nesta intrincada estória. A grande maioria dos garotos, que se meteram no tráfico quando morava dentro do morro, não tinham problemas de dinheiro, como afirmado pelo rapper Falcão. Nem tinham problemas familiares, alguns tinham a família nuclear perfeita: pai, mãe, uma irmã, o pai trabalhava fora e sustentava a famíla e a mãe ficava em casa cuidando dos filhos. Ambos no colégio e sem problemas de agressões ou violações. Vou contar a vocês a estória do Diego.
Diego era um garoto com outro qualquer na favela. Era 'magrinho', cheio de espinhas na cara e não era bom em nada que fazia. Chegou a ser coroinha da igreja de Nossa Senhora das Graças, lá no Campinho, mas por imposição da mãe, do que vontade própria. Não tinha problema de relacionamento com ninguém. Brincava com todas as crianças, gostava de soltar pipa, rodar pião e, principalmente, de 'pera,uva, maçã e salada mista', era a sua chance de dar uma 'bitoquinhas' nas meninas. Sempre pareceu um garoto feliz e cheio de saúde. Todos adoravam o pai dele e a mãe, apesar de ser um pouco fofoqueira, era 'boa gente'. Então, quando ele apareceu com arma em punho junto com a 'galera' do tráfico, todos ficaram espantados. "Não tinha nada a ver!" foi o que todos disseram. Queríamos conversar com ele, para saber o porquê daquela súbita mudança. Ninguém se atrevia a chegar perto, enquanto ele estivesse com a 'galera' do tráfico. Na escola, o cercamos e fomos perguntar o porquê. Ele estava 'fissurado'. Falou do respeito que tinha conseguido entrando para o tráfico. As meninas passaram a olhar para ele. Podia comprar aquele tênis maneiro que tinha visto no comercial de TV e ninguém mais iria 'gozar' com a cara dele. Era muito pouco! Para ele era o suficiente.
Rapidamente, Diego comprou roupas maneiras e arrumou uma namorada 'super-gostosa', uma menina que nunca olhara para ele antes, quando não era 'ninguém'. Os pais ficaram desesperados com tudo aquilo. O pai tentou intimidá-lo, como qualquer pai faria, mas uma arma brandida em frente a seu nariz, desmotiva qualquer um. A mãe apelou para o lado emotivo e chorou 'cântaros', mas nada adiantou. O 'respeito' atingido por ele no morro era muito mais importante. Estava 'tirando onda' na 'maior'. Todos olhavam para ele agora... com temor, mas para ele não importava, pelo menos olhavam para ele. Desfilava com sua 'gata' por todo o canto. Não deixava sua pistola de lado, por motivo algum. Saiu até de casa e foi morar com alguns outros garotos do tráfico. A mãe ficou mais desesperada ainda e o pai deu 'graças a Deus', pois temia o que poderia acontecer no futuro.
O que poderia acontecer, começou uma semana depois, quando a polícia invadiu o morro e 'mandou bala' pra cima da 'molecada'. O chefe do morro foi preso, várias armas apreendidas, maconha e cocaína, também, muito dinheiro perdido. Além disso, dois 'buchas' mortos. Diego foi perseguido por dois policiais que 'soltaram o dedo' pra cima dele. As balas bateram nas paredes das casas do morro e soltaram lascas em seu rosto. Seu conhecimento de 'pique-bandeira' ajudou a fugir dos policiais, que logo se perderam no emaranhado de becos do morro. Sangue e dor espalhadas pelo morro. Os buchas tinham quinze anos os dois. Foram mortos pelos primeiros tiros dos policiais. As mães estavam inconsoláveis! A mãe de Diego... completamente insandecida.
A mãe de Diego correu o morro inteiro atrás dele, tentando descobrir onde ele estava escondido. Não conseguiu descobrir nada, mas acabou encontrando-o dentro do armário de sua própria casa. A mãe chorou de felicidade e gritou que nunca mais deixaria ele voltar para aquela vida. Ele reagiu na hora e voltou para aquela vida naquele mesmo momento. A mãe ficou ainda mais desconsolada. O pai não sabia o que devia ou podia fazer pelo filho. Diego foi juntar-se a seus companheiros e a vida voltou a ser o que era para ele. Não durou, é claro!
Duas semanas depois, foi a vez de uma facção rival invadir o morro, aproveitando que o chefe havia sido preso. O tiroteio durou a noite inteira, desta vez foram encontrados oito mortos. Diego fora perseguido, novamente, por membros da gangue rival, pensando que conseguiria despistá-los, assim como fez com os policiais, mas um dos membros da gangue rival, era um antigo morador. Diego ficou cansado e caiu. Os dois membros da gangue o alcançaram e iriam matá-lo, quando tiros perto deles o distraíram e permitiram que Diego pudesse fugir. Sua facção ganhou a batalha daquela noite e Diego percebeu que os truques da infância não serviam mais. Ficou escondido por três dias em uma lixeira, comendo os restos. Foi encontrado pelos lixeiros que o expulsaram dali. Não tinha mais sua pistola, perdida na fuga desesperada. Sondou nas bordas do morro para saber quem havia vencido, quando soube que era a sua própria facção, decidiu voltar para casa.... a sua casa!
Chegou em casa, pediu perdão à sua mãe e a seu pai. O aceitaram na mesma hora e voltaram a ser uma família feliz, assim pensaram. Nada feito, dias depois os membros remanescentes estavam recrutando novamente e o foram buscar em casa. Ele falou que não queria voltar, mas não tinha escolha... ou estava com eles... ou estava contra eles... e se estivesse contra... ele já sabia o destino. Não houve jeito, falou com seu pai e sua mãe e voltou para o tráfico. Sempre buscando fugir de qualquer confronto ou ação explosiva. Às vezes, nem ia buscar o pagamento e ficava horrorizado, quando aparecia aqueles garotos 'vibradores' com o perigo e a morte. Percebeu que tinha um grande medo de morrer. Percebeu que o amor da sua 'super-gata' era tão falso quanto nota de dois mil reais. Queria sair, mas agora não sabia como.
A polícia invadiu novamente o morro, desta vez Diego se deixou capturar. Os policiais o prenderam, o interrogaram com os punhos, mas Diego não disse nada. Na verdade, não sabia nada que servisse para os policiais ou que eles houvessem perguntado. Diego foi parar em uma delegacia antiga, onde as celas estavam super-lotadas. Passou uma noite infernal, onde dormiu apenas duas horas em pé, encostado em dois outros presos, que a cada momento davam beliscões em sua bunda. Foi apertado nas coxas, na bunda, nos mamilos e no dia seguinte, um dos presos com uns trinta anos, o agarrou e o beijou na boca, enquanto apertava seu pênis com força. Pegou a mão dele e o fez bater uma 'bronha' nele. O cara gozou na mão de Diego, que teve de limpar o esperma na camisa que vestia. O cara prometeu a Diego que teriam umas noites maravilhosas juntas dali por diante. O respeito havia ido embora e começara o pesadelo. Diego começou a imaginar os pesadelos que viveria naquela cela. Sabia que não sairia tão cedo dali. Nunca ficara tão arrependido na vida! Era um completo idiota e imbecil por ter se metido naquela vida. Nada valeria a pena, passar pelo que estava passando. Foi violentado diversas vezes na cadeia, algumas vezes os policiais vinham vê-lo gritar.
Dias depois, um advogado da sua facção criminosa conseguiu tirá-lo da cadeia. Diego não sabia como e nem queria saber. voltou para casa, mas sabia que os membros da facção viriam atrás dele. Sua vida estava acabada! Morreria em um tiroteio ou cometeria suicídio na prisão para não virar mulher de ninguém. Não queria contar nada para seus pais. Vergonha e dor estavam profundamente misturados. Queria tê-los escutado antes. Antes de tudo aquilo. Uma 'boceta' não valia aquela encrenca toda. Aquele sofrimento todo.
Os pais de Diego o pressionaram até ele falar. Ele contou tudo. A mãe chorou copiosamente por horas e o pai saiu para tomar um porre daqueles. Quando o sol começou a surgir no horizonte, Diego estava se preparando para voltar para a gangue. De repente, seu pai chegou com um caminhão na porta. Retiraram todos os móveis e pertences que davam para carregar e colocaram dentro do caminhão. Muita coisa ficou para trás, em menos de 30 minutos carregaram tudo e desapareceram, para nunca mais ninguém saber de seu paradeiro.

29 junho 2008

Poesia - Por Quem Choro

Todos nós condenamos abertamente o egoísmo e criamos palavras para abrandá-lo, como: individualismo. Mas tudo é a mesma coisa com uma roupagem mais suave e sem o peso do tempo nele. Estes são versos egoístas e... ótimos, que mostram que individualidade, quando não restritiva do direito de outrem, é uma coisa ótima.

POR QUEM CHORO

Não choro agora
Pelos famintos e desempregados,
Nem pelas vítimas de cataclismos,
Nem pelas mães, que
Para uma guerra alheia
Entregaram seus filhos.

Não, não choro agora
Nem por ti, ó pátria,
Pilhada por sua própria
Descendência.

Choro agora por mim,
Choro por estes versos
Repletos de falta de luz,
Choro por não cantar o canto
Dos pássaros.

Choro por não enxergar a aurora
Cor de aurora,
Choro pelo sol que se fez chuva
Ao meu contemplar.
Choro pelas estrelas
Que apagaram suas luzes,
Magoadas pela fosca luz
Do meu olhar,
Choro pela lua que de mim se foi
Escondendo-se num eclipse.

Choro por meu peito,
Choro por meus olhos
Que refletindo minha alma,
Descolore a infinita aquarela
Que aos bons olhos
Chama-se vida.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Pesada Concorrência

Uma das máximas do capitalismo é que a concorrência empurra e moderniza o sistema econômico. Esta é uma verdade que podemos aplicar a quase tudo, principalmente, nas relações humanas. E não existe uma concorrência mais pesada e disputada do que a trava dentro de casa entre mães e filhas pela atenção do pai. Este é um conto sobre uma dessas concorrências.

Ela começou a chegar no trabalho muito mais bonita. Na realidade, as últimas duas semanas começamos a descobrir que Ângela existia. Até, então, não prestávamos atenção nela, com exceção de momentos em que necessitávamos algo dela. Era uma mulher de meia-idade com duas filhas adolescentes, escondida sob camadas de roupas e um penteado mal feito, para dizer a verdade, não feito. As primeiras a notar as alterações na imagem de Ângela foram suas companheiras de trabalho. Era o cabelo em um novo penteado, depois de uma cor diferente, mas vivo e luminoso. O novo corte realçava os traços de seu rosto. "Ela era bonita, apesar da idade!" Todos nós ficamos espantados com o fato em questão.
Depois das amigas notarem as mudanças, nós, os homens, percebemos que ela havia alterado a maquiagem. De fato, ela estava se maquiando pela primeira vez desde que me lembrava de tê-la vista trabalhando naquele escritório. Havia encontrado uma forma de mostrar o quão era bonita. E era mesmo! Os homens vibraram com a mudança. Teve uns caras de outros departamentos, foram até a nossa sala para perguntar quem era aquela nova funcionária. Queriam a ficha completa dela. Quando contamos a eles que ela trabalhava ali a mais de 8 anos, ninguém acreditou. Nem mesmo nós!
Foram pequenas mudanças que fizeram um bem enorme para a aparência de Ângela. Não só para a aparência, mas para sua auto-estima, também. Eu lembro que ela estava sempre de cabeça baixa e nunca encarava ninguém nos olhos. Sempre estava olhando para o chão e seu tom de voz era extremamente baixo, quase inaudível. Agora, ela andava com a cabeça erguida e o nariz empinado. Não só o nariz, outros pontos de sua anatomia, também. Estava virando a cabeça de vários homens no escritório. Deixando algumas mulheres com raiva e com ciúmes daquela transformação. Era sempre parada para conversar com alguém, que ela não tinha a menor idéia de quem era, sobre assuntos que não tinha o menor interesse. Ela percebia o assédio masculino e dava pequenos e enigmáticos sorrisos. Era uma festa para os fofoqueiros de plantão.
A terceira etapa da transformação veio na forma do vestuário. Surgiram decotes e mini-saias no caminho de Ângela. Descobrimos que ela tinha longas e belas pernas torneadas, podia estar um pouco acima do peso, mas continuava sensual e "gostosa". Mesmo o princípio de 'barriguinha' que ela tinha, era sexy. A cada nova peça de roupa que ela chegava no trabalho, virava objeto de profunda e detalhada análise dos homens. Os decotes tinham que ser minuciosamente pesquisados e compreendidos. Não faltavam candidatos para a tarefa, mas Ângela não era uma mulher 'dada'. Mesmo tendo ocorrido uma mudança em seu comportamento, com o crescimento de sua auto-estima, ela ainda era uma mulher reservada e não dava abertura para ninguém, nem mesmo para as chefias, que agora começavam a solicitar sua presença constantemente em seus escritórios. Nos quatro últimos anos que trabalhei nesta empresa, não lembro uma única vez que tenham, no mínimo, pronunciado o nome da Ângela uma única vez. No momento, chamá-la ao escritório para falar de banalidades, era uma boa forma de olhar para suas bonitas pernas.
Apesar da terceira alteração não ter sido muito bem sucedida, a transformação no visual de Ângela levantou uma questão tão palpitante quanto a cor de sua calcinha: por quê ela havia sofrido aquela profunda transformação? A primeira resposta veio das 'amigas' do escritório, para elas era óbvia a resposta: O marido a estava traindo. Aquela era uma patética tentativa de reacender a antiga chama entre eles. A resposta parecia mesmo a mais provável, pois em quatro anos não lembro do marido dela ter vindo a qualquer evento do escritório. Foi só comentar, para ele aparecer no final do expediente para apanhá-la de carro. A mulher sofrera uma bela transformação e não passara despercebida, nem mesmo para o 'maridão'. Veio demarcar território e dizer: "Aqui ninguém tasca!" O sorriso de Ângela aumentava a cada dia.
Bem, se não era por causa do marido, o que seria o motivo para esta alteração. Os 'psicólogos' de plantão, logo aventaram a hipótese de ser uma crise de meia-idade. Ela estava sentindo a necessidade de se afirmar como mulher para com a sociedade. Trocando em miúdos, ela queria aparecer e mostrar para todo mundo o quanto era bonita e gostosa. Não era uma má teoria, mas por quê não havia acontecido antes, pois ela já havia entrado na meia-idade faz tempo. A discussão ganhou ares de tese acadêmica. Todos os pontos eram motivo para discussão, até mesmo uma alteração na cor do cabelo ou no tipo de roupa que ela vestia, rendia umas boas horas de conversa na sala do cafezinho.
Foi quando uma das chefes de setor, sugeriu que aquela mudança seria uma tentativa de voltar no tempo. As roupas e a maquiagem, não eram próprias para sua idade e sim para o rosto e gosto de uma mulher mais jovem. a discussão esquentou nos corredores do escritório. Seria uma tentativa de recuperar os anos perdidos para o passar do tempo. A resposta parecia ser positiva desta vez. O cabelo pintado, as cores de esmalte e as roupas colantes realçando o corpo, denotavam uma identificação com as jovens recém saídas da adolescência.
Foi, então, que a filha mais velha de Ângela foi ao escritório. Que beleza! A garota era deslumbrante e tinha um corpo de parar o trânsito, realçado por um top que deixava a bela 'barriguinha' à mostra. Os marmanjos estavam babando pela menina. Mas enquanto os homens, literalmente, 'babavam', as mulheres examinaram detalhadamente a aparência da menina. O tom do cabelo era o mesmo, a grife das roupas delas era a mesma, o tipo de maquiagem e a cor do esmalte eram muito semelhantes. O tom final para colocar um ponto de exclamação naquela discussão, foi o corte de cabelo idêntico de ambas, mãe e filha. A resposta estava na cara: era uma concorrência de mãe e filha. A transformação não foi motivada por ciúmes do marido, não foi uma crise psicológica de identidade e nem foi uma tentativa de recuperar os anos dourados da adolescência, mas sim fazer frente para sua mais nova e perigosa concorrente: sua filha.

22 junho 2008

Poesia - Febre

Febre e desejo. Paixão e consumação. Palavras que se confundem e nos dão idéias erradas sobre nós mesmos. Nosso poeta demonstra isto com uma simples analogia, que vocês compreenderam abaixo.

FEBRE

Oh desespero crescente,
Ilusão transformada
Em loucura.

Procuro-te em vão
Em cada cabelo;
Em cada olhar;
Em cada andar;
Em cada perfume.

Acordo desapontado
E mergulho no pesadelo
De acreditar que não mais
Existe.

Faço nova viagem
E agora estou certo
De sua presença,
Sinto-a dentro de mim
Pulso no seu ritmo.

Ouço com os teus ouvidos
Sinto a dor que sentes
E vejo o mundo com os teus
Olhos.
Estás no meu sangue
E falta-me célula que não a tem.

Acordo porém,
O sonho é breve
E como homem
Uma ilusão não basta.

Desejo vê-la
Desejo senti-la
Desejo tê-la.

Maurício Grabzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Boogie Woogie

Todos tem medo da decadência pessoal. Muitas vezes, esta suposta decadência é uma forma de renascimento para a vida. A decadência de meus pais, foi o meu renascimento. Foi graças a ele, que formei meu caráter e personalidade e pude corrigir inúmeros erros pessoais e familiares. Esta é a estória que principiou tudo o que faço hoje... é a estória do primeiro dia de toda a minha vida.

Eu era muito novo quando chegamos em nossa casa pela primeira vez. Não deu pra não fazer cara de muxoxo. Era um lugar feio pra caramba! A porta estava carcomida nas pontas e rangia nas dobradiças. O telhado de cerâmica era irregular e haviam várias telhas quebradas, sendo algumas feitas de vidro, para melhorar a iluminação interna, mas davam um aspecto ainda pior para aquela residência.
A casa era muito pequena, apesar de ter quatro cômodos. Era um quarto, sala, cozinha e banheiro. O banheiro era extremamente pequeno e o chão não era de cerâmica e nem tinha ladrilhos, era feito de um vermelhão estranho e muito feio. Haviam vários pontos pretos e partes descascadas que revelavam o cimento por baixo do vermelhão. Não havia chuveiro e o vaso sanitário estava levemente inclinado pro lado. O cheiro era horrível e lembrava da existência de uma comunidade de baratas na casa. A cozinha era outro desastre. Como era escura?! Alguém genial, teve a brilhante idéia de pintá-la de verde musgo, sendo que a cozinha somente tinha um pequeno basculhante no canto extremo do cômodo. Um basculhante ínfimo com menos de 30 cm de altura. O basculhante e a pintura escura, mais o chão coberto com uma camada de cimento sem areia, bem aplainado. Faziam-na parecer como uma caverna, mesmo durante o dia tínhamos de manter a luz elétrica acesa, senão... nada conseguiríamos enxergar lá dentro.
O aspecto de destruição ficava completo com a janela que existia na sala. Janela na sala é algo bem comum. Mas já viram uma janela que dá para uma parede de tijolos e fica localizada na lateral da casa e não em sua frente. Na casa, pareciam ter construído apenas a sala e o quarto, a cozinha e o banheiro eram um adendo, preparados muito tempo depois, quando já haviam construído a casa ao lado, bem grudada. A distância que separava as duas, foi usada como uma espécie de corredor que unia a sala e cozinha, sendo que, onde era localizada a janela, havia um corredor complementar que levava a uma fenda de poucos centímetros, dando para uma falha entre a construção da casa vizinha e a nossa. Ali, como descobriríamos mais tarde, seria a residência de insetos e mamíferos diversos. Ratos, principalmente.
O primeiro dia trabalhamos até não poder mais. Éramos crianças, por este motivo encarávamos aquilo tudo como uma grande brincadeira. Na realidade, nem imaginávamos que fôssemos morar naquele lugar. Sem nossa mãe naquele primeiro dia, pensamos que voltaríamos para nossa antiga casa. Quando papai disse que ficaríamos ali pra sempre, foi que a 'ficha caiu'. Olhei para a varanda da casa. Tinha 1,5 m por uns 80 cm, para quem estava acostumado com um gramado de 10 m por 25 m de comprimento... vamos dizer... era algum tipo de pesadelo insano. Fiquei realmente assustado com a notícia. Quando mamãe chegou à noite vindo da casa da patroa e trazendo mudas de roupa limpa... a certeza bateu forte. Meu sonho de ter um cachorro foi pro espaço!
No dia seguinte, acordamos cedo para trocar as telhas quebradas e fazer alguns pequenos reparos naquela casa caindo aos pedaços. Papai percebeu que deveríamos limpar a caixa d'água, também. Encontramos um passarinho morto dentro dela. Que nojo! O fedor era insuportável e sobrou para mim limpar aquilo. Tivemos que jogar toda a água da caixa fora e enchê-la novamente. Até terminar de encher, nada de banhos. Nem comida! O rebuliço que estávamos fazendo, atraiu a atenção dos vizinhos. A primeira a tomar coragem e se apresentar foi a vizinha da frente: Dona Virgília. Trouxe um café para nós e ficou tricotando com minha mãe. Contando tudo sobre a vizinha e descobrindo tudo que podia sobre os novos vizinhos.
Enquanto isso, meu irmão do meio, começou a fazer novas amizades e acabou sendo chamado para jogar bolinha de gude. Era bulica e não triângulo, como meu irmão não tinha nenhuma bolinha para apostar, os garotos emprestaram para ele. Me chamaram também, mas não quis ir, era um coelhinho assustado naquele novo meio. Meu irmão mais novo, ficava atrás de minha mãe querendo subir para seu colo. Não teve jeito e minha mãe teve de segurá-lo e foi com ele para casa da nova amiga. Não podia imaginar que seriam as melhores amigas daquela vida. Eu e meu pai continuamos a limpar a casa e preparar tudo. Montamos as camas e o armário que a patroa da minha mãe deu pra ela. Meu pai era 'macumbeiro' e tinha um santuário próprio para suas divindades. Escolheu um ponto em seu quarto com minha mãe e lá, me fez ajudá-lo a preparar tudo. A colocação dos objetos e até da toalha da mesa deviam ser cuidadosamente realizados. Quando ele acabou, ficou satisfeito com a arrumação dos objetos. Pegou um charuto na cômoda da cama e acendeu, começou a entoar um cântico esquisito e recebeu uma entidade. Esta, com a fumaça do charuto, benzeu toda a casa de uma ponta a outra. Minha mãe ficou envergonhada e veio gritando com meu pai, mas ele estava em transe e não respondeu, apenas resmungou de um jeito estranho. Minha mãe olhou pra mim como a pedir ajuda, a única coisa que pude fazer foi dar de ombros.
À noite, tudo estava pronto e arrumado. Minha mãe foi para a casa da vizinha assistir a novela das oito, já que não tínhamos televisão, enquanto meu pai ligava o rádio na Tupi AM para ouvir as notícias. Eu e meu irmão do meio, só queríamos saber do resultado do futebol, mesmo que nós dois ainda não tivéssemos um time de coração. Gostávamos, principalmente, das narrações apaixonadas dos narradores ou o tom indignado dos comentaristas. Aquilo mexia com a gente. Meu pai odiava futebol, mesmo assim deixava sintonizado para escutarmos as notícias ou os jogos, se houvesse alguma transmissão. De repente, um batuque ao longe chamou minha atenção. Era uma música que nunca havia escutado antes. Fiquei prestando atenção no ritmo, já que a canção não dava para escutar direito, estava muito longe. Meu pai falou que era samba! Demorei muito para aprender a gostar daquilo.
Minha mãe voltou para casa após o final da novela, já eram quase dez horas e não estávamos acostumados a dormir tão tarde. Ela fez a cama para mim e meu irmão do meio no chão da casa, pois o mais novo ficaria no sofá, enquanto os dois dormiam na cama no quarto de casal. Nós ficamos na sala. Deitei e de repente senti um formigar nas minhas costas, levantei e liguei o interruptor da luz. tinha uma lacraia na minha cama, dei um baita grito, pois nunca havia visto aquele bicho antes. Meu irmão saiu correndo para a cama de meus pais, enquanto eu tentava matar aquele bicho com a vassoura. Ali começava a minha aventura na favela do Boogie Woogie, onde viveria alguns dos melhores e mais importantes anos de minha vida.

15 junho 2008

Poesia - Ferimento

O aprendizado na vida vem do sofrimento. Vem com a dor e suas consequências. Ninguém aprende nada sem sofrer na vida. Nosso poeta toca neste delicado assunto do aprendizado de como viver. Um aprendizado duro e sofrido, mas nencessário.

FERIMENTO

Há ferimentos leves,
Traumáticos mas não fatais,
Leva-nos ao sofrimento
Conserva-nos a esperança.

Martírio cotidiano,
Rito que se renova,
Dor que se faz trevas,
Prenúncio de nova luz?

Vida que tem seu ciclo,
Vida que chega ao fim,
Com ferimentos graves
A vida se deixa ir.

Mata a esperança somente,
O corpo deixa sadio,
Transforma-o em vivo sem vida
Até que o morto corpo
Tire-lhe a própria vida.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Paraíso

Em nossa vida existem inúmeros mitos. O principal entre homens e mulheres é: "Em mulher não se bate nem com uma flor." Esta frase estabelece a superioridade física do homem sobre a mulher e que nós não devemos utiilizar isto como uma vantagem sobre elas. Mas não fala nada sobre: elas usarem esta vantagem sobre nós. Esta é uma história de como este mito pode ser usado contra os homens indiscriminadamente, apesar de estarmos corretos acima de tudo e como, às vezes, seguir as regras, por mais duras que sejam, é o melhor caminho.

Trabalhar com mulheres não é fácil! Em um primeiro momento, você pensa, que a vida vai ser a maior maravilha, pois terá o convívio de 60 mulheres. É um harém! Você se sente o próprio sultão. Mas a verdade é... não é mole não, conviver com tantas mulheres. Imagine, se uma esposa dá tanta dor de cabeça... 60 esposas... estouram o seu cérebro. Foi quase isso que aconteceu comigo. Juro... fiquei por um triz de não ficar tentado de enforcar uma delas. Deveria tê-lo feito! Mas, mesmo estando completamente correto, ainda fui acusado, sentenciado e punido sumariamente por todas as outras, por algo que não fiz. Veja bem, havia pelo menos 6 delas que eram minhas amigas próximas... amigonas, a meu ver. Imagine se não fossem!
A estória foi a seguinte: trabalhava em um supermercado e supervisionava o trabalho das caixas e empacotadoras. Hoje, tem um nome novo e bonitinho: Gerenciador. Na época, éramos os Supervisores. É tudo a mesma merda, apenas com um nome mas 'maneiro' pronto para o Século XXI. Mas, vamos ao que interessa! Como disse, era o supervisor das caixas e empacotadoras. Quando descobri que uma das meninas estava roubando iogurte para comer escondido no depósito, a peguei no flagra. Dei um tremendo 'esporro' nela, tomei o iogurte e mandei que fosse para o vestiário feminino, até eu decidir o que iria fazer com ela.
A decisão era difícil para mim, pois era a primeira vez que a pegava fazendo algo assim. Acredito, piamente, que todos tem o direito de errar pelo menos duas vezes. Você a avisa nas duas primeiras e toma uma atitude na terceira. Foi por isso que tomei o objeto do roubo, dei uma bronca e a mandei para o vestiário esfriar a cabeça. Não pretendia puní-la, apesar das regras do supermercado serem taxativas quanto ao assunto: quem fosse pego roubando, deveria ser demitido sumariamente por justa causa. Por causa de dois iogurtes! Nem pensar, a bronca deveria ser o suficiente. Se ela fosse rescindente, tomaria uma medida mais enérgica, pensei.
Como estava na hora do meu almoço, decidi ir para casa e pensar um pouco mais enquanto comia. Avisei meu chefe da minha saída e de que tinha mandado a Margareth para o vestiário, pois ela havia 'aprontado' e eu havia dado uma bronca nela longe dos olhos de todos, para não humilhá-la. Meu chefe concordou comigo e me permitiu ir para casa almoçar. Fui! Duas horas depois estava de volta ao batente. Logo na chegada, vi Margareth descendo as escadas do escritório do gerente aos prantos. Achei estranho, mas melhor não comentar. Já havia tomado uma decisão, não contaria nada para ninguém e colocaria o objeto do roubo no lugar e ninguém notaria. Vou dar uma segunda chance a ela, pensei.
Assim que me apresentei na frente de loja, meu chefe disse que o gerente queria falar comigo e que deveria ir imediatamente para sala dele. Fui! Lá, descobri o motivo do choro. Margareth foi até o gerente e, enquanto eu almoçava, me denunciou por agressão. Estava com o uniforme rasgado, como prova da minha brutalidade e insensibilidade. Como todos os homens do mundo, é claro! O gerente não se conformava. Achava que eu era um dos melhores funcionários da loja e nunca poderia imaginar que eu fosse do tipo violento. Eu não sabia o que fazer.
Fiz, então, o óbvio. Contei o que acontecera de verdade, mesmo sabendo que seria a minha palavra contra a dela e de estar infringindo uma norma capital do supermercado. Acho que fui convincente o bastante, pois o gerente resolveu chamá-la e fazer uma 'acareação' com nós dois. Olha, se eu não soubesse a verdade, teria pena dela também. Teria me considerado um 'canalha de marca maior'. A garota deveria ser atriz e não empacotadora. Chorou um rio de lágrimas na frente do gerente e, a cada duas palavras, soluçava convulsivamente. Recontou a estória e, graças a deus, uma mentira sempre tem 'pernas curtas'. Ela afirmou que a agredi na entrada do vestiário feminino e próximo ao refeitório. Como todos sabiam, eu não comia no supermercado, pois morava bem perto e, raríssimas vezes, subia para o refeitório ou para a área dos vestiários. Até o gerente sabia disso! A coisa ficou pior quando ela falou a hora da agressão. Era a hora em que estava saindo para almoçar e para minha sorte, saí com uma funcionária da padaria que morava perto da minha casa. Ela podia confirmar a minha versão.
O barco fez água, mas ela não deu o braço a torcer e nem admitiu estar mentindo. Inventou umas três versões diferentes, todas elas com uma ação impossível ou improvável da minha parte. O gerente percebeu que ela estava mentindo. Mandou-a para casa, pois o idiota aqui não estava mais com o fruto do roubo e não tinha como provar no momento o que ela havia feito. O gerente decidiu dar a ela uma suspensão de dois dias e me manter normalmente. Ufa! Escapei dessa, pensei cá comigo. Ledo engano, podia ter convencido o gerente, mas todas as outras funcionárias da frente de loja, me odiaram pelo que eu 'fizera'. Nenhuma delas falou comigo nos dias que se seguiram até o retorno de Margareth. Depois disso, elas me chamavam para dar uma lição de moral, onde não podia dizer uma palavra, pois homem é tudo assim, sempre está errado, mesmo estando certo. Sempre um canalha! Não havia nada que dissesse para convencê-las do contrário. Sem chance de defesa, aceitei meu castigo resignado, para falar a verdade, foram algumas semanas de paz na minha vida.
Ao mesmo tempo, a própria Margareth começou a falar comigo e agir como se nada houvesse acontecido. Chegou mesmo a fazer piada da situação. Não achei graça nenhuma! Ainda mais, com todas as outras me odiando por algo que não havia feito e sem o direito de contar a minha versão dos fatos. Me arrependi amargamente de não tê-la entregue para o gerente como estava nas regras, quis dar uma de bonzinho e mefu...
Alguns meses de inverno gelado depois, Margareth foi pega novamente roubando. Agora, não por mim, mas por outro supervisor, que cumpriu seu papel à risca. Levou-a direto para o gerente, juntamente, com a prova do crime. Alguns pacotes de biscoito recheado de chocolate. Demitida por justa causa! Concessão de perdão total para a minha pessoa. Fui absolvido no segundo julgamento, principalmente, após minha acusadora ser acusada. Perda de credibilidade.
O mais incrível disso tudo, foi que, todas elas, acharam que o Supervisor fora rigoroso demais. Poxa, alguns pacotes de biscoito recheado, não dava nem 5 reiais. Ele podia ter relevado esta, não podia? Falaram todas quase em uníssono. Eu apenas pensei, graças a Deus que ele é mais impiedoso e justo do que eu!