29 dezembro 2007

Poesia - Mágica

O tempo é um eterno fantasma... um Deus obscuro e inescapável. Alquimista da vida, soluciona tudo... transmuta tudo. É o que nos conta nosso poeta hoje.


MÁGICA

Inefável mundo,
Que irremediavelmente
Desfaz-se
Por entre os dedos
Ávidos em detê-lo.

Trêmula mão que
Com o nervoso suor,
Vê escorrer por entre
Células, doce seiva
Que um dia alimentou
Com vida
O que hoje apenas existe.

Flashes esporádicos,
Que ferem a tela dos olhos
Com uma luz
Que cada vez mais pálida,
Insiste em iluminar lembranças,
Cujo presente
Obriga a sentir saudades.

Estéril da raiz
Às folhas,
Colho hoje uma atormentada morte,
Paradoxalmente nascida
De uma serena semente.

E a tímida luz que dá vida ao amanhecer,
Atinge sua plenitude
Até ser engolida pelas trevas.

É um exercício contínuo,
Que serve apenas para nos lembrar
Que o tempo é eterno,
E mágico, na química de transformar.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Humildade

É difícil crer que uma mulher fique grávida de propósito, mas diversas vezes vi acontecer, nomrmalmente, da maneira mais estúpida possível e com o amante mais improvável ainda. Pior, é quando isto acontece com alguém muito próximo a você. Pior ainda, quando este alguém teve todo e qualquer tipo de apoio para não fazer esta imensa estupidez. É o que veremos no conto de hoje.

Minha sobrinha é uma idiota! Fico com raiva só de pensar! Conseguiu estragar sua vida, apesar de todos os avisos que recebeu para não fazer. Falamos das consequências de fazer. Mostramos os prós e contras. Vencemos tabus e até mesmo convencemos o pai dela a conversar com ela. E olha, tem duas irmãs que já haviam cometido a mesma estupidez. Mas é como digo, todo adolescente é um poço de estupidez. Nenhum tem um pingo de cérebro, conseguem estragar tudo aquilo que deveria ser o melhor memento da vida.
Ela, a estúpida, ficou grávida. Pior ainda, casou com o imbecil que a engravidou. Infelizmente, a estória não começou neste ponto. Os pais dela, os tios e até os avós resolveram não deixar acontecer a mesma desgraça com ela que havia acontecido com suas irmãs. Ser mãe adolescente, uma praga que definitivamente acaba com a vida da mãe, da criança, do marido e todos ao seu redor, mas, principalmente, da pobre criança que não pediu para vir ao mundo sendo fruto de um erro estúpido.
Ela não pode reclamar de nada saber, de nunca ter conversado com a sua mãe ou mesmo não saber da existência de formas de evitar este desastre. A mãe e o pai (contrariado) conversaram sobre sexo, informaram como evitar filhos, os perigos de uma gravidez em tenra idade, os riscos de doenças sexualmente transmissíveis e as consequências para a vida de qualquer mulher ser mãe na adolescência. Os exemplos eram vivos e próximos, as duas irmãs mais velhas. Todos achamos que esta não jogaria sua vida fora por burrice e desejos mal compreendidos. Ledo engano! A tristeza é saber que a culpa foi maior dela do que do próprio imbecil que a engravidou.
Ao contrário dela, o rapaz nunca havia conversado com ninguém sobre sexo. Seu conhecimento vinha de Playboys e Sexy da vida. Os clichês da rua alimentaram suas fantasias. Os especialistas consultados por ele, eram os virgens companheiros de primeira viagem do colégio. Tão imbecis quanto ele! Incrível, como um imbecil pode ser convencido por outro a fazer tamanha estupidez, que o conselheiro nunca conseguiu fazer. Mas sempre tem um otário. Também, graças a santíssima trindade, sexo tornou o produto mais vendável do mundo, até mesmo superando o amor.
Quando ambos deram a notícia (juntinhos de mãos dadas, tão bonitinhos... tão estupidozinhos) para a família, pareceu a todos que fora a minha sobrinha quem seduzira o pobre e tosco garoto. Foi uma chuva de acusações e xingamentos de toda a espécie. É claro, que a briga vazou para culpar os pais dela, que não sabiam criar as filhas, pois era o terceiro erro consecutivo. Só podia ser incompetência. E neste caso, tenho que concordar, apesar de terem feito tudo que era humanamente possível para aconselhar a filha. Tudo que é dito por especialistas na tevê, tudo o que os pais dizem fazer para ajudar seus filhos a não cometer estupidez tão grandes... infelizmente, nada funcionou. O pior de não funcionar, é a total desolação dos pais ao encarar mais um fracasso. Eles estavam arrasados, enquanto ela... radiante. Os dois queriam uma festa de casamento, mas, escolados pelos fracassos anteriores, os pais dela não concordaram com o casamento. Morariam juntos por alguns anos, caso o relacionamento ainda estivesse intenso, casavam-se. A idiota... perdão, minha sobrinha... gritou, esperneou, socou e resmungou. Chegou a ameaçar sair de casa, caso não houvesse um casamento. Os pais ficaram irredutíveis: sem casamento, por agora. Caso, quisessem se casar, ficariam por conta própria. Ela gritou que iria morar na casa dele com os pais dele, questão totalmente apoiada por seus próprios pais, pois a casa não tinha lugar para mais ninguém. Porém, os pais dele, percebendo que teriam de arcar com toda aquela brincadeira sozinho, resolveram brecar o irrequieto pinto de seu filho. Dizeram não.
Não houve casamento e a minha idi... digo, sobrinha, foi morar com os pais dele. Foram os meses do paraíso, em que ela foi alçada ao pedestal da Deusa da Feminilidade. Um mundo passou a girar em torno dela. Ela era o Centro do Universo das duas famílias. Tudo mais não tinha nenhuma importância! O nascimento do herdeiro, transferiu o cetro do poder para o Redentor recém-nascido. Agora, o culto era a Continuação da Vida, não mais a feminilidade, que seria, paulatinamente, colocada de lado para alocar o novo Deus nascido.
Embalados pela felicidade da chegada de uma nova vida dentro do seio familiar. O casal estava sempre sendo bem tratado e se aproximaram, vivendo um momento único em suas vidas, que fez a todos acreditarem que o casamento poderia realmente dar certo. Para tristeza do feliz casal, só durou até o dia em que trouxeram o bebê para casa. A primeira noite da criança na nova casa foi uma tortura. Gritou e chorou a noite inteira. A mãe e o pai de "primeira viagem" nem acordaram. Precisou a mãe dele, levantar de sua cama e acordar o "feliz casal". Brigaram naquela mesma noite, para saber quem era o responsável por cuidar da criança durante à noite, cada um apresentando as razões mais estapafúrdias para não ser o felizardo. Além disso, passaram a levar broncas o tempo todo da mãe dele, por não saberem cuidar de seu filho.
A vida não é um inferno contínuo... é quase, para quem escolhe o caminho errado, mas tem dias que se consegue apagar o fogo no rabo das estúpidas adolescentes e salvar uns dias para o bem da vida delas. Acabou acontecendo com a minha sobrinha, depois de entrarem no ritmo da criança... veio uma calmaria. Substituída, rapidamente, pelas brigas por poder entre ela e a mãe dele. A mãe dele nunca deixando-a esquecer, de quem era a dona da casa e quem morava de favor ali. Sofrendo todo tipo de escárnio e humilhação, resolveu dividir um pouco com sua mãe. Passou a reclamar diariamente no "ouvido" de sua mãe, pobre coitada. O pai ficou "com peninha" e disse que se acontecesse novamente, ele acolheria o "feliz casal" em casa. É claro que aconteceu, muito mais rápido que o pai gostaria.
Uma semana depois, marido e mulher desembarcavam de "mala e cuia" na casa dos pais dela. Ela pensou que tudo seria como antes, mas agora trazia consigo dois novos passageiros e por mais que os avós adorassem o novo membro da família, não podiam suportar que a sua filha permanecesse na mesma vida que tinha antes. As brigas recomeçaram, mudando apenas de contendor: sua mãe. As brigas eram ainda piores, pois uma de suas irmãs e a filha dela moravam na casa e o "feliz casal" era um incomodo muito "mal-vindo" naquele memento. As brigas ficaram ainda piores, apenas por um orgulho estúpido e injustificável, não voltaram para casa dos pais dele. Para o garoto, o difícil era suportar as constantes queixas de sua "companheira", as brigas ele não via, passava dia inteiro trabalhando com o pai e forçava cada vez mais a chegar bem tarde para não se envolver naquele gritaria absurda que o estava deixando louco.
A idio... minha sobrinha, para fugir das constantes brigas, passou a passear com o bebê todos os dias. Em consequência, encontrou antigas amigas e amigos do tempo de colégio. Ficou sabendo de todas as novidades, que ela não poderia compartilhar, e ficou com água na boca sobre os novos "points" e os novos "gatinhos" do colégio. Recebeu um "intensivão" sobre as fofocas para ficar em dia sobre tudo e todos, já que não mais podia participar daquilo tudo. As amigas adoravam encontrá-la e paparicavam o novo rebento o tempo todo, melhor dizendo por um mês inteiro, foi o quanto durou a novidade. Rapidamente, ficaram entediados dos "gu-gus-da-das", de ouvir falar em mamadeira, cocô na fralda e xixi no lençol, a vida era bem mais interessante que isso, todas elas pensavam.
Logo após o consequente desaparecimento das amigas, ela soube que haveria uma grande festa no colégio. Recebera convite e decidira que tinha que "voltar à vida". Pediu a sua mãe para ficar de babá, comprou um vestido de festa e convenceu o marido a ir. Este conseguiu até um carro emprestado para levá-los. Mas (a vida é cheia de "mas", não é?) no dia da festa, à tarde, o bebê, começou a ficar com febre, vomitar e sentir falta de ar. Foi ficando pior a cada minuto, não houve escolha e tiveram de levá-lo para o hospital. Até tudo ficar esclarecido e o garoto voltar a ficar bem, lá se fora a grande festa. A idio... minha sobrinha, ficou conformada que sua antiga vida não existia mais e nunca iria voltar. Decidiu investir tudo no seu casamento e em sua filha.
Os três anos se passaram, o pai do menino estava indo bem no trabalho. Ela resolveu voltar a falar em casamento e, principalmente, irem embora da casa dos pais de ambos. O garoto protelou o máximo que pode, mas foi empurrado para um casamento fadado ao total fiasco. Para sorte de ambos, uma semana antes do casamento, com tudo já pronto, o garoto deu uma de "macho" e "chutou o pau da barraca". "Não vou me casar com ninguém! Não tenho idade e nem sei se estou apaixonado. Não vou me casar!" E não se casou, cada um foi para seu lado. Apesar disso, cumpria com todas as obrigações com a criança.
A idio..., minha sobrinha, resolveu então, que definitivamente não era obrigada a ter uma vida própria e dedicou quase toda a sua juventude a infernizar o ex. Foram anos "boníssimos" para o ódio e a estupidez, muitos deles passados diretamente para a filha. Seu lema passou a ser: 'A vida é uma merda! Porquê os homens são uns canalhas!" Foi quando ela veio conversar comigo. Até então, nem nos falávamos direito, e eu era seu padrinho. Chorou, lamentou e falou o quanto era infeliz por culpa dos outros. Peraí?!?! 'Culpa de quem?' indaguei irritado. Ela citou praticamente o mundo todo, menos a única e verdadeira culpada de toda aquela desgraça que era a sua gravidez na adolescência, um ato de pessoas imbecis e sem cérebro, como são todos os adolescentes.
Segurei ela pelos ombros e gritei com enorme força, cuspindo em seu rosto: 'Foi você!' Ela ficou assustada e voltei a gritar, a única culpada ela era, pois tinha sido preparada para não fazer aquela estúpida coisa, que não era o sexo em si, mas sim não ter usado preservativo. 'O que custava usar uma camisinha?' 'Foi ele!' Quase disse um grande palavrão, a força em casos como este não está no homem, mas sim na mulher, caso ela recuse o homem não consegue fazer mais nada, ele se humilha para ter o mínimo possível dela. Ele poderia tê-la estuprada, alguns diriam, mas não foi o caso e qualquer um podia perceber, que era mais fácil ela estuprar ele do que o contrário acontecer. Fiz ela encarar a verdade, fizeram aquilo tudo por desejo próprio, por pura vaidade. Para mostrar que podia a terceiros que hoje em dia nem sabem que ela existe, pois vivem vidas felizes em algum lugar a "anos-luz" de distância dela. Só havia uma idiota, irremediavelmente idiota... 'você!'. Apontei bem no seu rosto. Ela deu um tapa na minha mão e foi embora correndo. Horas depois o pai dela apareceu para perguntar o porquê de eu ter batido na filha dele, olhei bem para ele que já sabia a verdade. Fomos tomar uma cerveja e não dissemos nada. No final, após ele pagar a conta, falou desolado: "Elas nunca irão aprender humildade!".

22 dezembro 2007

Poesia - Quase Bêbado

Para onde vamos, qual é o destino de cada um de nós nesta vida e ainda... como vamos chegar lá. Nosso poeta nos coloca as dúvidas em uma bela métafora.

QUASE BÊBADO

Sigo com passos vacilantes
A trajetória do improvável
Infinito.

Sem norte a cumprir,
Deixo ao vento a responsabilidade
Da aleatória rota.

Não temo a direção do vento,
Tampouco, sua velocidade,
Se sou atirado aos rochedos,
Ou se sou salvo por uma ilha.

Com o rigor do nada,
Contemplo as paisagens
Que me são impostas.

Respiro do vácuo
Que me é oferecido
Como sobra dos que souberam
Escolher,

E durmo com imagens
Sem parâmetro com o real,
Até acordar, e então sonhar
Que só o acaso me conduz.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Paz & Amor

Natal nos faz pensar em muitas coisas, principalemte, em como tratamos as pessoas à nossa volta. Este é um pequeno Conto de Natal que fala de como tudo podria ser bem melhor.

Sair de casa e não saber se voltará, transformou-se em uma rotina na vida diária do Rio de Janeiro. Todas as pessoas que vivem na chamada Cidade Maravilhosa, convivem com este medo. Este medo, porém, é bem mais presente na vida de um profissional: o Policial. Desde que inicia na profissão, uma sentença de morte paira sobre a sua cabeça. Todos os dias... todas as semanas... todos os meses, esta sentença está presente. Influencia as suas ações e de todos os que o amam.
César era policial a quase cinco anos, já não pensava mais neste fato. O hábito havia transformado o medo em apenas mais um detalhe do viver. Afetava-o mais, a rejeição que sentia das pessoas a sua volta: vizinhos, transeuntes, comerciantes e o povo em geral. Havia medo em seus olhos quando o encaravam... quando o encaravam! Machucava ver mães segurando mais firme o pulso de uma criança, quando ele se aproximava. Já não usava a farda quando saía de casa e sua esposa não contava para os vizinhos o que ele fazia. Dizia, sempre, que trabalhava no ramo da segurança. Haviam mudado de residência três vezes desde que ele entrara para a Corporação.
César nunca fez nada de desonesto ou tomou atitudes que pudessem trazer tamanha rejeição a sua pessoa... mas outros o fizeram e agora tinha de conviver com este fantasma da culpa alheia. Era como ser um pária, em meio a sua comunidade. Ficou pior, quando foi designado para trabalhar dentro de um DPO na favela do Boogie Woogie, na Ilha do Governador. Pois via acontecer "coisas erradas" concretizadas pelos dois lados da história: policiais e comunidade. Cumpria estritamente seu dever e sempre buscava manter uma certa distância de tudo e todos. Não envolver-se passou a ser uma regra de vida e esconder sua verdadeira face, passou a ser uma questão de sobrevivência. Só podia ser ele mesmo em sua residência... com seus familiares. Aquilo gerava uma enorme tensão em sua vida. Em muitos momentos, esta tensão acabava explodindo sobre seus entes mais queridos.
Era Natal, em anos anteriores, que César não chegou a conhecer, a comunidade dava presentes para os policiais do posto. Eram convidados para a ceia e recebidos nos lares das pessoas de bem. Comerciantes sempre organizavam uma "vaquinha" para presenteá-los. Nos dias de hoje, nem era bom que ficassem no posto, pois diversas vezes o feriado era comemorado dando tiros nos policiais de plantão. Atitudes de jovens inconseqüentes e sem nenhum tipo de respeito a vida. Mas, infelizmente, uma maioria que tinha o controle através do medo e da inação. César fora escalado para o plantão de Natal no posto. O novo comandante do Batalhão queria demonstrar força e decidiu não retirar nenhum policial do plantão dentro das favelas do bairro, para mostrar que seus policiais não tinham medo da "bandidagem".
César saiu de manhã, beijou esposa e filha como de costume, mas seu coração e alma não estavam normais. Eram 24 horas que passariam em um vagar menor que de costume. Seria a volta do medo que havia deixado de ter importância anos atrás. A esposa deu conselhos, alguns amigos do Batalhão, também. Mas que conselhos poderiam ser de alguma validade em uma situação extrema como aquela. Ninguém estaria vestindo aquela farda azul e servindo de uma alvo para pessoas beligerantes com desejo de demonstrar sua masculinidade e coragem colocando uma bala em sua cabeça.
Passou no Batalhão, trocou de roupa e pegou as ordens com o Oficial de Plantão. Encontrou seu parceiro desta longa noite de Véspera de Natal. Estava tão assustado quanto ele. Um apoiou o outro e seguirão na viatura 013 para o morro. Ao estacionarem no Campinho, foram fuzilados pelos olhares de todos: comerciantes e moradores. Há muito nenhum policial passava à noite de Natal no morro. Foram para o DPO e ficaram encastelados lá.
O Campinho fervilhava de movimento. Estavam preparando uma grande ceia para os moradores, instalaram até mesmo uma árvore de Natal com diversos presentes para todos. O relógio implacavelmente mostrava cada segundo de angústia e dúvida que ambos passavam ali. Às quatro horas da tarde, os sinos da Capela de Nossa Senhora das Graças bateu, anunciando a missa de Natal. César era católico e devoto, sempre ia as missas ao Domingo com a família. Sempre assistia a Missa do Galo quando podia. O sino batia insistentemente para chamar os fiéis. César tomou a sua mais ousada decisão. Iria assistir a Missa, seu parceiro tentou dissuadi-lo da idéia, mas ele ficou irredutível.
Desceu as escadas do Posto e foi para o Campinho sobre os olhares de moradores e comerciantes assustados. Entrou na Igreja, colocou a mão na pira de água benta e fez o sinal da cruz. Sentou ao lado de uma família, que assustada se afastou, mas a filha menor foi chegando perto e olhando fixamente para César, que lhe deu uma piscadinha e arrancou risos da menininha. Antes da comunhão, havia o cumprimento das pessoas da comunidade para desejar Feliz Natal. César estava preparado para que ninguém falasse com ele, apesar de todos o conhecerem. Mas a bela menininha quebrou todas as expectativas, não só o cumprimentou como fez questão de dar-lhe uma abraço. A família seguiu o exemplo e todos na Igreja também. À noite encheu-se de sorrisos de confraternização e felicidade.
O padre, que organizara a ceia, convidou César para participar. O medo ainda presente, o inclinava a recusar. Mas a menininha segurou em sua mão e o convidou. César não conseguiu recusar, mas resolveu não sentar a mesa e ficar em pé, comendo. Foram servidos os "comes e bebes", veio oi Coral de Crianças para cantar músicas natalinas. Abrirão os presentes e as crianças desembestaram alegremente a correr por todos os cantos. César estava feliz, sorria e ria despreocupadamente. Até que de repente, os "donos do morro" aparecerão! César não teve tempo de puxar seu revólver, que nada adiantaria, mas teria a oportunidade de se defender.
O prenderão! Um bandido de cada lado e bateram no seu rosto. O "patrão" decidiu matar aquele PM insolente, que se acha melhor do que os outros. Apanhou uma arma de grosso calibre e apontou para César. Foi quando, a pequena e delicada menininha, com toda a coragem conferida pela inocência dos seis anos de idade, puxou a camisa do "patrão" e pediu: 'Não machuca ele, não, seu moço! É Natal!' O patrão tentou empurrá-la para longe, mas ao ver os olhos cheios de lágrimas da menininha, não conseguiu atirar. Resolveu dar uma surra apenas para ensinar uma lição, mas o gesto de coragem e bondade daquela corajosa infante, fez com que os moradores cercassem César e o retirassem das mãos do "patrão" e seus asseclas. Não deixaram ninguém o tocar. Também, não deixaram que voltasse para o Posto. Chamaram seu parceiro e todos comeram e festejaram o Natal em paz. Sem tensão... sem morte. Feliz Natal à todos
.

15 dezembro 2007

Poesia - Não Quero

Sintonia, hoje teremos um poema de nosso grande amigo e colaborador que está em sintonia com o texto que apresento. As consequências de nossos atos por prazer e amor.


NÃO QUERO

Não quero que escorra
Das profundas artérias
Da tua prodigiosa história
O sagrado sangue com o qual
Me transfundi.

Não quero que sujas,
Minhas mãos
Que as tuas apoiaste,
Se ponham insanas
À depredar suas formas.

Não quero que teus ouvidos,
Que à minha voz
Escutaste em cantos e prantos,
Sejam arranhados com insensatas
Palavras de desprezo.

Não quero que seus braços
Que num abraço me acolheste,
Abrace agora a ingratidão do vazio,
Numa solidão que não merece.

Não quero que pensamentos
Que emanam do meu fracasso,
Macule a alvura da tua alma,
Que um dia foi minha luz.

Não quero que minhas pragas
Por vezes a ti rogadas,
Encontre em seu corpo santo
O eco da injustiça.

Não quero tê-lo coma algoz
De chagas que não abriste,
Muito menos o carrasco
De um suicídio que é só meu.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Família

Culpa e dor formam a tragédia que vou contar hoje, consequência de decisões tomadas sem pensar nos problemas que podem causar algumas poucas horas de prazer.

Muito se discute sobre a influência dos pais sobre a vida futura de seus filhos. Tereza e Adílson foram os responsáveis pela destruição da vida de seus filhos? Foram uma imagem ruim a seguir? Apesar do casamento ter iniciado com um grande amor entre eles, ambos tiveram que 'mover mundos e fundos' para poderem ficarem juntos. Abriram mão de muita coisa para isto. Em algum memento, teriam de pagar o preço por esta escolha.
O casal foi morar junto muito jovem, ela tinha 17 anos e ele 21. Um ano depois de terem saído da casa de seus pais, Tereza ficou grávida do primeiro filho: Robson. O nascimento trouxe os primeiros problemas para o casal. Como moravam em uma casa de apenas um cômodo, o bebê teve de ficar na mesma cama do casal. O constante choro de Robson, irritava profundamente Adilson, que tinha de ir trabalhar na manhã seguinte para pagar as contas. Ao mesmo tempo, Tereza, que havia perdido seu emprego devido a gravidez, tinha que cuidar sozinha da casas e de Robson. Em nenhum memento, Adilson 'levantava um dedo' para colaborar no serviço da casa ou de cuidar do menino. Os domingos, então, desaparecia de manhã bem cedo e só retornava para dormir.
Os atritos cresceram, mas foram amainados com o nascimento de Tadeu, o segundo filho. Todas as diferenças foram postas de lado para cuidar do novo rebento. Tereza teve uma gravidez difícil, o que a deixou extremamente nervosa, passou a comer alucinadamente e engordar. O nascimento foi por cesaria e Tadeu nasceu muito bem de saúde, o mesmo não podendo ser dito da mãe. Ao sair do hospital, Tereza teve de ir para a casa da mãe, ficar aos cuidados dela até o fim do resguardo. As brigas com a mãe, faziam com que Tereza descontasse em Adílson, irritando-o tanto, que este passava até duas semanas sem visitar a esposa na casa dos sogros.
Os problemas foram ficando piores, pois as despesas só faziam aumentar e Tereza quase nunca conseguia trabalho. Dois filhos pequenos para cuidar e pouca experiência profissional, fez ela perceber que as portas estavam fechadas para ela. Tentou o trabalho informal, mas ganhava muito mal. Para completar a tragédia, Tereza ficou grávida pela terceira vez. Porém, desta vez, Adílson não aceitou nada bem e saiu de casa, por um período curto, mas saiu.
A casa era um pandemônio total, três crianças pequenas e um casal adulto em uma casa de um cômodo. Foi o fim do sexo! Foi o fim do casal! Viviam sob o mesmo teto, mas já não eram nada um para o outro... minto, eram inimigos que dormiam lado a lado. As brigas agora eram diárias e cada vez mais violentas. As crianças ficavam no fogo cruzado, assistindo tudo de camarote. Estas brigas deixaram Adilson tão nervoso, que brigou no trabalho com seu chefe e foi demitido por justa causa. A partir de então, não conseguia arrumar nenhum trabalho de carteira assinada. Era o fim da renda familiar!
Adilson começou a beber e a sair com diversas mulheres. Tereza não ficou atrás e, apesar das crianças, saía sempre que podia com um cara diferente. O morro todo sabia... o morro todo comentava. A família dos dois estava mais horrorizada ainda do que na época em que se casaram. O pior ainda estava por vir, o filho do meio, Tadeu, começou apresentar um quadro de distúrbio mental. Ele dizia que via a avó morta flutuando na casa deles. Um dia, inclusive, para fugir da avó fantasma, pulou gritando pela janela e mergulhou dentro de um barril cheio de água, onde mesmo quase se afogando, recusava-se a sair. Levaram anos para convencê-lo que sua avó não estava vigiando a família.
Adilson, como não conseguia arrumar emprego, começou a fazer 'bicos' e depois entrou para o ramo do trambique. Aplicava diversos golpes, todos de pequena monta nas pessoas. Passou a usar os filhos Robson e Washington em seus golpes, ensinando todo o tipo de forma para enganar as pessoas. Os dois viriam a se transformar em craques no assunto, apesar de não ser pelo exemplo do pai em ação. Adílson foi preso! Em um dos golpes, acabou exagerando e a polícia o agarrou e levou-o preso. Se as coisas já eram ruins na casa deles, ficaram ainda pior quando Tereza teve que 'se virar' para sustentar três crianças.
Tereza até que conseguiu sustentar a família, com três empregos diferentes e trabalhando de segunda a segunda. Quase não via os filhos e nem tinha uma clara idéia do que faziam. Foram criados nas ruas do morro, vivendo em casa de amigos e dependendo da caridade de terceiros para comer e vestir. Tadeu era o que mais penou neste período, pois era um menino sensível... eufemismo para gay mesmo. Acabou sendo envolvido por outros garotos mais velhos que o usavam de forma que não interessa comentarmos aqui neste texto. Se não tinha uma 'cabeça' muito boa, o aliciamento por garotos mais velhos, piorou bastante seu equilíbrio. Robson e Washington passavam as manhãs no colégio e à tarde brincavam como qualquer criança normal. À noite, porém saiam para dar pequenos golpes, fazer roubos na casa dos vizinhos e até mesmo a trabalhar carregando caixas para os comerciantes em troca de comida e roupa. Ficaram muito bons em sobreviver nas ruas.
Envelheceram e chegaram à maioridade, cada um vivendo seus próprios caminhos. O pai saiu da cadeia e tentou voltar para casa, mas Tereza, calejada da convivência com os homens, botou ele pra correr. Tadeu afastou-se da família, conseguiu um emprego e ninguém mais o viu por um bom tempo. Robson e Washington continuaram a dar golpes e a fazer assaltos à residências dos bairros nobres da Ilha do Governador. Em um destes golpes, acabaram fazendo um 'ganho' de quase dois milhões, ficando ricos da noite para o dia. Infelizmente, nada é tão fácil assim. O dinheiro e a casa pertenciam a um presidente de escola de samba e bicheiro, com uma fama de matador do cacete. Tinham que arrumar um bode expiatório para não serem pegos e depois sumir. O bode, era óbvio, não podia ser outro, senão seu próprio pai. Armaram para o velho e o bicheiro mandou pegá-lo na casa dos pais dele, onde vivia naqueles dias, foi levado à força e nunca mais foi visto. Ao mesmo tempo, ambos foram embora do morro e a reapareceram em Villar dos Telles dois anos depois, com uma fábrica de calças jeans.
O negócio não deu certo! Os dois não eram comerciantes, mal conseguiam fazer contas de aritmética, imagine controlar um patrimônio de alguns milhões. A falência os levou de volta para a casa de sua mãe, Tereza. Washington, o mais novo, voltou a conviver no morro, entrou para o tráfico de drogas e ascendeu rapidamente na cadeia de comando da quadrilha. Era ambicioso e descontrolado, passou a usar a cocaína e não pagar, com os débitos acumulando rapidamente. Chegou a um ponto insuportável, o chefão mandou 'apagar' ele. Morreu na véspera de seu aniversário de 21 anos.
Robson, que não tinha a coragem e nem a disposição do irmão, continuou a dar trambiques na praça. Em um deles, roubou dinheiro de uma aposentada que morreu por não ter dinheiro para comprar seus remédios. Os filhos dela descobriram tudo e foram atrás de Robson, que conseguiu fugir... sua mãe não teve a mesma sorte. Tereza tentou defender o filho, o que irritou enormente os agressores, deram-lhe uma surra tão grande, que ela ficou em coma por mais de 20 dias.
Robson esperou o tempo passar e depois de alguns meses, resolveu voltar para a casa. Os primeiros dias, foi cuidadoso, mas depois relaxou e quando se preparava para dar mais um golpe na praça. Os filhos da aposentada o acharam, desta vez, não pararam de bater até que o corpo fosse uma massa disforme, tiveram que fazer a identificação pelas digitais.
Tereza saiu do hospital, quase sem conseguir andar. Voltou para a casa, agora com apenas um único filho, que não tinha a menor idéia de onde estava. Mas o destino foi cruel, Tadeu apareceu na casa de sua mãe algumas semanas depois. Veio dar uma notícia para a mãe. Ele iria morrer! Estava com AIDS, transmitida para ele por um parceiro soro positivo. Queria voltar para a casa da mãe para ficar com ela os últimos momentos da vida. Na época, o coquetel de remédios não eram distribuídos. Tereza o recebeu e cuidou do filho até sua morte aos 25 anos, o que morreu mais velho. Marido, primogênito, o do meio e o caçula nenhum deles sobreviveu a um casamento errado e fadado ao fracasso, motivado única e exclusivamente na vontade férrea dos 'pombinhos'.

09 dezembro 2007

Poesia - Arquétipos

Nossa poeta nos fala da prisão que nos mesmos criamos e que vivemos em função de acreditar em fatos e idéias preconcebidas por outrem, necessitando o pensamento próprio e personalista para nos libertar.

ARQUÉTIPOS

Ignoto estigma
Que assombra mentes
Confundindo a ilusão
Com o real.

Invisível aura que dá fé
À visões,
Substancia sonhos
E materializa imagens.

Recorre a arquivos do inconsciente,
Ressuscitando etéreas moléculas
De uma história escrita talvez,
Por um irrecuperável vento.

Desperta o sono de antigos arquétipos,
E os defronta com a suposta luz
De uma presunçosa consciência.

Instala-se então uma guerra
Entre mundos opostos,
Sem escrúpulos,
Trava-se a luta
Usando mente e corpo
Como campo de batalha.


Sem piedade escraviza o espírito,
Que ora respira dos ares da consciência
Ora submerge nas trevas do inconsciente.
Sem parâmetros, e destroçado pela
Disputa interna,
Refugia-se para amenizar o sofrimento,
O espírito, na loucura.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - A Santa

Por séculos as mulheres sofreram uma total aniquilação de sua individualidade e existência própria. Aniquiladas pela fé em religiões patriarcais. Por dois mil anos foram aprisionadas em suas consciências e, infelizmente, ainda existem pessoas que desejam o retorno a tal estado de coisas. Esta é a história de uma mulher que se libertou dos grilhões da fé.

Rute nasceu e foi criada no interior do Estado do Rio. Seus pais eram cristãos fervorosos, que decidiram ensinar-lhe os preceitos da fé, uma vida de virtude e temor a Deus, principalmente, de temor a Deus. Sua infância foi solitária e isolada. Seus pais não deixavam-na brincar com outras crianças, a não ser seus parentes, quando estes visitavam sua casa. Seus primos a achavam estranha e introspectiva, sem nem saber o que era isto. Os irmãos do pai dela, diziam a ele, que não era saudável para uma menina ser criada daquela forma, pois um dia teria de enfrentar o mundo e eles não poderiam mantê-la afastada por toda a vida. Mas os pais não se importavam, a sua fé os protegeria, afirmavam.
A frequência aos cultos no domingo, era um dos poucos momentos que Rute podia sair de casa. Sem ter costume de fazê-lo, ficava assustada e arredia, chegando mesmo a se esconder de outras crianças que queriam brincar com ela. Os pais a mantiveram assim, ensinado-a em casa a palavra de Deus e as tarefas domésticas, como devia ser para uma menina. Matemática, geografia, história, a não ser a de Jesus Cristo, química, física e outras coisas mais, eram consideradas desnecessárias para uma menina.
Infelizmente, para os pais dela, a vida é bem mais cruel e Deus não tem tempo para olhar por todos, então, o sítio em que vivam quebrou devido a dívidas. O pai foi obrigado a vender e com que restou, vieram para a cidade grande em busca de uma nova vida. O renascimento não era uma tarefa fácil, pois nada sabia fazer, a não ser trabalhar a terra, e a esposa era uma Dona de Casa típica, que nem opinião tinha, a não ser sobre questões de Deus.
O pai arrumou um emprego de ajudante de pedreiro e a mãe de empregada doméstica, onde ficava a semana inteira morando na casa da patroa, levava com ela Rute. Compraram uma casinha em uma favela com que restou do dinheiro do sítio e a vida teve seu recomeço. Mas a patroa da mãe dela, vendo aquela criança dentro de casa todo dia sem ir à escola, começou a cobrar da mãe para arrumar um colégio para ela. A mãe se esquivava e dizia que não era preciso, tudo que ela devia aprender, ela e o marido ensinariam. Mas a patroa não aceitou, pressionou tanto, que Rute acabou sendo matriculada em uma escola pública.
Sem nunca ter ido à escola e sabendo apenas ler a Bíblia, Rute começou no primário, apesar de ter uma idade superior a das outras crianças. Penou! Foi chamada de retardada e mal-tratada pelas outras crianças que não aceitavam seu jeito arredio e seu tamanho. Misturada com a inocência, era uma cruz pesada demais para uma criança carregar. Mas nunca reclamava nem para mãe ou ao pai sobre seus problemas no colégio. Sofria em silêncio, como toda boa mulher temente a Deus, na visão deturpada dos pais cristãos. À noite, seu conforto era ler as sábias palavras de seu salvador.
A vida foi em frente, veio a adolescência e a juventude, sem nunca Rute conseguir se ajustar aquele mundo pagão que fora jogada. Feliz só se sentia na Igreja. Lá acabou conhecendo um outro devoto, Mário, filho de nordestinos e trabalhador duro como seu pai, conseguiu permissão para frequentar a casa dela. Iniciaram um namoro nos moldes de séculos atrás. Toques na mão era a única intimidade permitida e muito menos beijos. Mário estava apaixonado, aceitava tudo, e Rute assustada, não sabia o que devia fazer, mas seguia a opinião das únicas pessoas em quem confiava: os pais. Disseram que devia namorar o pio Mário. Depois deviam ficar noivos e por fim, casar. Rute seguiu todos os conselhos imaginando ter a vida perfeita de sua mãe e da mãe de Deus.
Casaram-se! Houve festa e alegria, Rute se permitiu um sorriso, mas estranhou toda aquela gente tão próxima dela, pois não gostava daqueles exageros e desperdícios, Mário era só contentamento, pois finalmente poderia beijar, tocar e ter sua mulher por inteiro. Sua mãe, antes dela ir para a casa com o marido, a chamou para conversarem. Explicou que uma mulher deve obediência ao marido e deve realizar suas vontades e desejos, alguns pecaminosos, mas apenas no intuito de terem filhos, pois só assim é aceito por Deus. Nada mais disse. Não explicou absolutamente nada a filha, sobre a vida marital ou sobre sexo. Sobre corpo, moradia do pecado. Só afirmou que não poderia haver prazer na consumação do casamento. Rute não entendeu nada, mas silente seguiu com seu marido.
A noite de núpcias foi uma tortura! Nem ela e nem o marido tinham a mínima idéia de como fazer e o que fazer. O marido cheio de desejo e sem nunca ter sido ensinado a se importar com a mulher ao seu lado, acabou ferindo-a na primeira noite. Rute ficou desesperada com seu destino, o marido infeliz com sua primeira noite de prazer, pois fora rápida e sem alegrias. Assim como seria a vida de ambos dali pra frente. A vida dela era simplesmente cuidar da casa e preparar as coisas para a chegada do marido. Sozinha pela primeira vez na vida durante as horas de espera, passou a cultivar o hábito de assistir televisão. Foram seus primeiros ensinamentos reais da vida. Foi a primeira vez que descobriu existir uma vida diferente daquela lhe foi ensinada pela mãe. No início, acreditou ser coisa do demônio, tentando toda a gente, mas com o passar dos dias e o convívio mais próximo com outras pessoas no supermercado, na padaria, no cabeleireiro, na farmácia e mesmo na igreja, agora sem a presença dos pais. Acabou criando novas expectativas e descobriu que o marido, também, devia tê-las. Não sabia bem o que fazer a respeito, sentia apenas um aperto no peito.
As noites eram ainda mais terríveis, pois tinha de cumprir suas obrigações como esposa, era um ato de fé e abnegação. A dor era sempre presente e nada podia dizer e nem sentir, o marido uma vez a acusou de ser frígida, mas nem ele e nem ela sabiam o que significava aquilo. Ficou grávida no primeiro ano do casamento e teve uma linda menininha, que colocaram o nome de Madalena. Isto os deixou mais próximos e aqueceu um pouco o casamento, apesar de Mário desejar, e não escondia isso, que queria um filho homem para ajudá-lo quando crescesse. "Mulher não serve para nada!" afirmava ele. O garoto veio um ano depois e mais um dois anos após ele. Eram três filhos, mais três bocas para alimentar e mais trabalho na casa. O único alívio foi que as noites em que devia cumprir seu papel de esposa, passaram a ser mais espassadas, agora só dormiam juntos uma vez por semana. Havia dias em que Mário nem voltava para casa. Bem... um dia ele não voltou mais. Conhecera uma 'galega' na rua, que era "bem melhor na cama do que você". falou. Deixou a casa e a vida dela, com três crianças, nem ao menos dava dinheiro para cuidar dos filhos, pois ela nem sabia que existiam advogados para cuidar de casos assim.
Decidiu trabalhar fora para cuidar das crianças. Um pastor arrumou um emprego de empregada doméstica, como a mãe, em uma casa de fiéis da igreja e a vida de Rute recomeçou pela terceira vez. Os pais vieram dar-lhe conselhos e recriminá-la por ter perdido o marido. Vieram uma vez... vieram a segunda vez... vieram a terceira vez recriminá-la, foi quando Rute perdeu a paciência, culpou os pais por tudo de ruim que havia acontecido com ela e a falta de preparo que ela tinha para a vida. O pai quis gritar com ela e, então, fez o ato mais corajoso de toda a sua vida. Colocou-os para fora. Largou a igreja e voltou para a escola e decidiu que seus filhos nunca passariam por aquilo, principalmente, a primogênita. Finalmente, ela descobriu o verdadeiro caminho da fé: o conhecimento de si mesma.

02 dezembro 2007

Poesia - Noites sem Sol

Nosso poeta traz sua fascinação pelo horário amado por todos os escritores: a noite. Tanto para o bem quanto para o mal.

NOITES SEM SOL

Não, não são iguais todas as noites.
Há noites cheias de luz,
De uma sublime luz,

Imperceptível aos limitados olhos,
Emite suas ondas numa freqüência divina,
Que só à alma atinge.

Há também noites sem luz,
Mesmo quando ensolaradas de tanta luz.
Igualmente furta-se esta, à míope
Percepção do olhar.

Esta semeia a peste,
A dor e o ranger de dentes,
Sangra a alma e tortura o corpo,
Faz-lhe faltar o ar.

Pode haver nessas noites a luz,
Mas não a que clareia o caminho,
Não a que conduz à luz.

Com o horizonte à distância dos pés
E a verdadeira luz tragada pelas trevas,
Fica apenas a certeza desta alma
E deste corpo
Estarem incondicionalmente aprisionados
Pela vida das noites sem luz.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Passagem do Bastão

Sou como muitos, acho o funk carioca horrível. Péssimos cantores, batida repetitiva e temas nem sempre interessantes, mas tenho de admitir, é uma forma de expressão das ruas, principalmente, das favelas, como um dia foi o samba. Esta é a história da troca de guarda.

Os morros mais antigos e tradicionais foram formadores de Escolas de Samba, no Rio de Janeiro. A existência de uma sempre esteve intimamente ligada a outra. Grandes agremiações como a Mangueira ou Escolas totalmente desconhecidas como a Unidos do Cabuçu. As comunidades sempre forneceram a alma e a criatividade para as Escolas, assim como seus compositores e as famosas baianas, escolhidas entre as mais tradicionais famílias moradoras das favelas que compõem a área da agremiação. O Boogie Woogie como toda a favela da cidade do Rio de Janeiro, também, participava de uma Escola de Samba: a União da Ilha do Governador.
A Escola já esteve entre as grandes do Rio de Janeiro, como sambas históricos como: O que será?, Domingo e Festa Profana. Alguns dos sambas enredos chegaram a ser gravados por grandes nomes da música popular brasileira, como: Caetano Veloso e Simone. Este passado de sucesso sempre foi mantido por duas grandes instituições da agremiação: a bateria e seus compositores. Os compositores, em sua maioria, eram da comunidade e seguiam tradições familiares dentro do samba. Assim era a família Moreira, em que o patriarca da família tinha sido compositor da União da Ilha e seu filho. além de compositor, foi, também puxador da Escola. O que tudo indicava que a terceira geração seguiria os passos de sucesso dos antepassados. Lucas Moreira, quando tinha seis anos, já acompanhava o pai nas rodas de samba. Tocava tamborim como ninguém e reservaram um lugar de destaque para ele em um bloco de rua, formado apenas por crianças. Pai e avô consideravam-no um legítimo sucessor das tradições sambistas da família.
Faziam tudo para convencê-lo a seguir os passos da família. O avô sempre repetia, mostrando uma antiga fotografia, que havia composto um samba para o Chico Buarque e tinha até mesmo tirado uma fotografia com ele. Logo depois de exibir a foto pela milésima vez, o avô cantava o samba que tinha composto para o Chico. O pai mostrava, então, a gravação e sua participação no disco do Dominguinhos do Estácio, um famoso puxador de samba carioca. Além dos pais, as mães, também, influenciavam Lucas a tomar a mesma direção do pai e do avô. Acreditavam que ele poderia ir ainda mais longe que os dois.
Lucas foi bem mais longe do que eles, mas não na direção que a família desejava. Lucas descobriu no colégio o funk. Conheceu alguns garotos mais velhos que iam a bailes e seguiu com eles a trilha desta nova experiência. Tentou conversar com o pai e o avô sobre aquele som inusitado e com uma batida tão dançante quanto o samba deles. Mas o pai e o avô não quiseram ouvir nada a respeito desta "gritaria" que nem podemos chamar de música. A atitude deles acabou jogando o garoto Lucas para mais próximo do funk. Começou a escutar os MCs e a ouvir os discos das equipes de som como: Furacão 2000 e Cash Box. Adorou aquela batida contagiante. Ficou ainda mais fascinado quando foi a uma festa com participação do DJ Marlboro. O som, as luzes, as meninas, tudo dentro do baile o enfeitiçou e encantou de forma irremediável. Ele seria um MC, foi a decisão que tomou naquela noite.
Lucas foi até um amigo que tinha tudo sobre funk, pegou alguns CDs, revistas e roupas emprestadas. Começou a ouvir tudo e experimentar tudo relacionado ao funk. Conheceu garotos e garotas do colégio fascinados pela sonoridade funk. Conheceu material da antiga e sangue novo das carrapetas. Estudou sintetizadores e batidas eletrônicas. Colocou todo o purismo de lado e percebeu a forma como os garotos do morro ficavam fascinados por aquela música, cantando-a em todas as esquinas. Os temas das músicas eram mais próximas da realidade dos meninos e meninas do morro, falavam de coisas que se via todos os dias nas ruas da favela. Seja sobre violência ou seja sobre sexo. Mesmo quando as músicas falavam sobre o amor, eram marcadas por uma leitura totalmente particular que falava diretamente aos novos anseios e dúvidas dos adolescente do morro. O funk estava substituindo o samba como linguagem das ruas dentro das favelas. Lucas sentiu isto dentro da alma e do corpo.
Lucas compôs um funk falando da transição do samba para o funk nas ruas do morro onde morava. Preparou a roupa, conseguiu o equipamento e convidou algumas amigas de corpo bonito para serem suas dançarinas. Quando aconteceu uma festa na própria União da Ilha para apresentação de novos talentos da comunidade. Lucas achou a oportunidade perfeita para mostrar seu futuro aos pais e aos avôs. Convidou-os a todos para a apresentação, sem mencionar o que iria fazer. Todos foram pensando que ele cantaria algum samba que compôs, como toda a família antes fizera.
Acomodaram-se na primeira fila e pacientemente esperaram o mais novo Moreira entrar oficialmente para o mundo do samba. Quando chegou a vez de Lucas, a família estranhou, pois não viu tantans e nenhum instrumento de percussão, nem mesmo um violão. Como pode? Ele vai cantar à capela? Será? Todos se perguntavam. O pior veio a seguir quando carregaram para o palco uma estranha mesa com toca-discos em cima. Ligaram aquela parafernália eletrônica, luzes se acenderam e uma batida sintetizada começou a soar pela quadra. Duas meninas dançando de forma provocativa entraram no palco e ficaram dançando por alguns segundos, parecendo que iriam fazer sexo uma com a outra dentro de alguns segundos. Foi quando Lucas entrou no palco, cheio de cordões e com um óculos escuro anos sessenta e um boné de equipe de basquete americana. Ele começou a cantar aquela música ofensiva e agressiva, acompanhando a ritmada e constante batida sintetizada do funk.
Primeiro, houve uma certa revolta. O avô queria ir embora e começou a gritar palavrões e insultos para todas as direções. O pai ficou perplexo e não queria acreditar naquilo tudo. Como podia ser verdade? Mas a mãe e avó prestaram a atenção no que o menino estava fazendo. Prestaram a atenção na música, na letra, nas roupas e no show muito bem realizado. Era bem profissional e correto. A música podia não agradar aos ouvidos da família, mas a letra da música era inteligente e bem feita. O garoto sabia cantar, também! Não desafinava e nem berrava, tudo estava no perfeito andamento e ritmo. O trabalho era "digno de nota". Elas seguraram o braço de seus respectivos companheiros, fizeram-nos sentar e ouvir até o fim.
Lucas não ficou abalado nem quando o avô começou a gritar e xingar. Profissionalmente, continuou a cantar e dançar. Sua equipe permaneceu perfeita, sem pestanejar nem por um memento. Nada falhou ou deu errado. Cada memento ficava mais seguro do que queria fazer. Quando viu seu pai e seu avô sentando-se para assistir o final da apresentação, ganhou ainda mais confiança e teve vontade de chorar. Não fazia aquilo como afronta a eles, mas fazia aquilo porque sabia que aquela era a nova linguagem das ruas da favela onde morava. Era a nova forma de comunicação dos jovens moradores das favelas de falarem sobre si mesmos, de seus desejos, suas vontades e sonhos, como um dia foi com o samba.

25 novembro 2007

Poesia - Noite dos Morcegos

Nosso poeta nos traz a angústia que precede o raiar do dia, esta representada por tormentos físicos do plano sentimental.

NOITE DOS MORCEGOS

Na madrugada que parece não ter fim,
O forro da velha casa,
Já quase morta,
Afogada em goteiras,

Abriga o ruído de gambás,
Tentando recriar a vida,
Misturado ao lamento de eternos fantasmas,
Que habitam invisíveis
O úmido ar, que denso,
Enche cada cômodo da casa
Em desespero.

Dormindo seu sono invertido,
Pulguentos morcegos
Infestam os cantos
Mais escuros do porão,
Enquanto imperceptíveis
Teias de aranha,
Dispõem-se em uma cortina de proteção,
A uma atmosfera que também é sua.

Um esqueleto de cão
Coberto de sarnenta pele,
Impedido pela fraqueza de latir
Apenas geme,
Lamentando estar vivo.

No galinheiro, aves mortas,
Deixam escorrer pelos
Dilacerados pescoços
Um sangue negro,
Que espalha ao chão
Pedaços de coágulos.

É uma noite que se iniciou
Com a recusa da permanência do dia.
Há chuva, vento e frio,
Nessa madrugada
Que parece jamais ser vencida
Pelo sonhado amanhecer.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

24 novembro 2007

Mulheres que Amo - Como acabar com um casamento

Todos nós imaginamos como uma mulher decide o fim de um casamento, quais são seus motivos. Irei contar uma pequena e esclarecedora estória, que não serve para todas as mulheres, mas para uma boa parte sim.

Temos relacionamentos com pessoas em decorrência de antigas amizades. Clara era uma destas pessoas! A conhecia desde o segundo grau, mas nunca fomos muito próximos, já que ela era uma das "dondocas" da época, hoje em dia chamam de populares, é só diferença semântica. Ela era uma porre total e uma completa "patricinha" de carteirinha, mas como eu era amigo de Ana Paula, acabava convivendo e participando de um relacionamento, pra mim emblemático da forma que muitas mulheres encaram o casamento.
Clara conheceu Marco Antônio quando estávamos na Faculdade. Ele era advogado e ela fazia estágio em seu escritório. Emendaram, rapidamente, um relacionamento. Quando nos reuníamos o assunto sempre era o "Homem Perfeito", como o havíamos apelidado, antes de conhecê-lo. "Ele é tudo de bom!" afirmava categoricamente. No início, acreditamos que era mais um caso de propaganda enganosa, devido ela "levantar a bola" dele para "subir a sua moral" frente as outras meninas. E nem precisava, pois era uma das mulheres mais bonitas que conheci em toda a minha vida, uma pena o "pacote" não vir completo, sempre havia um defeito de fábrica em algo tão belo. No caso dela... era a personalidade. Querendo ou não, ela nos incluiu em seu relacionamento, pois o mesmo não estaria completo sem platéia.
Conhecemos o cara e, apesar de tudo, descobrimos que não era propaganda enganosa. O cara era realmente muito legal. Um verdadeiro "gente boa", destoando completamente dela. Fizemos amizade fácil e passamos a conviver de bom grado, sem reclamar, mesmo tendo ela a tiracolo.
O relacionamento evoluiu e acabamos sendo convidados para o casamento. Bela festa e ótimo bufê, uma das poucas que gostei. Continuamos a nos ver, cada vez mais esporadicamente, até a formatura, quando cada um foi para seu lado construir sua vida. Fiquei muitos anos sem notícias da turma, pois não sou daqueles que ligam muito para o passado. Até me reunir com Ana Paula, novamente, em um restaurante no Centro do Rio. Convidamos alguns antigos colegas, mas poucos vieram. A "coisa" até que estava animada, mas tudo mudou quando vimos o marido de Clara, que não viera, com uma bela loira "dando uns amassos" em uma mesa do canto. Ana Paula ficou irada e queria dar "porradas" no "safardana canalha". Desaconselhamos e continuamos com a nossa própria festa.
É claro, que no dia seguinte, Ana Paula ligou para Clara e foi vê-la. Contou tudo que vira no restaurante, xingaram e juraram que iam matá-lo assim que o encontrassem. Ana Paula foi embora e Clara para casa. Mais tarde, descobrimos por um amigo que trabalhava com ela, que nada acontecera. A vida do casal 20 continuava na "maior paz"! Ana Paula não se conformou com aquilo, mas falamos para ela esquecer tudo, pois em briga de marido e mulher "ninguém põem a colher". Ficou o dito pelo não dito. Na verdade, o casal conversou e Marco Antonio acabou demitindo a secretária que estava com ele no restaurante, mas continuou encontrando com ela e arrumou um emprego melhor para ela no escritório de um amigo. Mas, ambos, haviam tomado uma atitude.
Alguns anos se passaram, fomos na festa de aniversário de um ano do primeiro filho deles: César. Era o estereótipo do casal perfeito e feliz. Muitos beijos, muitos abraços, muitos sorrisos e sempre um ao lado do outro o tempo todo. As mulheres foram para o jardim da bela casa onde viviam e ficaram "tricotando" coisas sobre: casa, filhos e casamentos. Os homens ficaram na cozinha e na sala, bebendo cerveja e conversando sobre: futebol, dinheiro e carros. Notamos o desaparecimento do Marco Antônio por uns momentos, pediram para que eu o encontrasse, já estávamos em cima da hora para cantar o parabéns e cortar o bolo. Fui até um cômodo no segundo andar e o encontrei dando uns amassos em uma adolescente, que não devia ter mais de 16 anos. Os dois fingiram estar apenas conversando e desceram. A festa correu feliz e perfeita.
Dias depois, fui a praia na Barra e adivinha quem encontro lá: Marco Antônio. Com quem? A bela adolescente da festa. Era uma verdadeira maravilha, principalmente, de biquíni. Sem mostrar embaraço, juntou-se a nós e ficamos bebendo e conversando. O relacionamento estava indo "de vento em popa", já tinha mais de seis meses que se encontravam. Clara não sabia de nada e nem podia saber, acrescentou ele. Como ali só haviam homens que o conheciam e nenhum grande amigo de Clara, todos resolvemos ficar de "bico fechado". Mas se alguém achou que algo assim é passível de ficar escondido... ledo engano. O problema estourou no dia dos namorados, quando Marco Antônio trocou os presentes. Entregou o da amante para a esposa e o da esposa para a amante. Foi um escândalo. Era "bola sete" a separação deles. Não "rolou"!
Ninguém conseguiu entender, mas o feliz casal superou as infidelidades do marido e seguiram em frente com a vida. Veio a segunda filha e cabelos brancos em Marco Antônio e os sinais da idade para Clara. Não era mais aquela mulher deslumbrante da juventude, apesar de ainda ter um charme e uma beleza marcantes. então, aconteceu o terceiro caso de infidelidade de Marco Antonio, desta vez, fora com uma sobrinha de Clara. Pior, a engravidou! Era o fim do casamento deles, certo? Nem pensar, novamente a bela e forte Clara deu um sinal de uma grandeza desconhecida por todos nós, continuou casada e fez o marido ajudar o filho de sua sobrinha, algo que não faria falta no orçamento da família, mas seria decisiva para a "pobre menina". Esta foi mandada para o interior e o caso, rapidamente, esquecido. Sem dúvida alguma, o respeito por Clara cresceu enormemente! Não conseguia acreditar em sua bondade e quanto devia amar aquela homem tão infiel.
Um ano depois, recebi um convite de casamento. Era de Clara! Estava se casando com um tal de Olacir alguma coisa, o nome era conhecido, mas não sabia de onde. Depois descobri que era um grande empresário do setor agropecuário. Foi um choque enorme! Como pode? Liguei para Ana Paula para perguntar se havia recebido o convite. Mas do que receber, ela já havia conhecido o novo consorte de Clara. Perguntei o que houve? Ana Paula foi curta e grossa: Marco Antônio faliu! No dia seguinte, a ter sido decretada a falência nos negócios, Clara decretou a falência do casamento.


18 novembro 2007

Poesia - Suave

Nosso poeta nos traz hoje, a lição de que devemos nos preparar com serenidade para as mudanças da vida... pois esta é uma das realidades do mundo.

SUAVE

Enquanto durar meu sofrimento,
Que eu tenha o corpo forte,
A alma apaziguada,
O espírito humilde

E uma serenidade no olhar
Que o faça produzir
Sua própria luz,

Para quando a tempestade
Que circunda o meu viver,
Romper suas comportas
E como uma avalanche
Iniciar seu ciclo de destruição,

Encontre em mim suavidade tanta,
Que ao contrário de lançar-me
Às rochosas margens de causas já perdidas,
Levar-me á flutuar incólume,

Até que a orientação do destino,
E, somente ela,
Faça-me conforme sua vontade.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - A Venda

As mudanças sempre tem dois aspectos: um positivo e outro negativo, no conto de hoje teremos a história da transformação do comércio dentro do morro. Sua evolução e a antiga relação muito pessoal entre as pessoas e seu comerciante.

A venda de "Seu" Mozart era um antigo armarinho, daqueles do tempo de nossos avós, em que penduravam carne seca, lingüiça e outros embutidos em uma espécie de varal feito de madeira, para os clientes colocarem a mão e sentirem se o embutido estava bom. Era um lugar de doces lembranças, pois ali descobri as delícias das guloseimas da infância. Muito açúcar! Tudo com muito açúcar como tinha que ser para encantar a criançada, sem contar o festival de cores. Lembro até do dia em que ele colocou na vitrina as marias-mole de diversas cores: rosa, marrom, verde e branca. Foi uma festa! Todos avançaram, combinação perfeita: açúcar e cores divertidas.
A venda de "Seu" Mozarto tinha uma peculiaridade, eram os horários da clientela. De manhã bem cedo, a mercearia ficava cheia de mães e donas de casa comprando café moído na hora, pão, manteiga (margarina era artigo de segunda) e leite para fazer o café da manhã da família. Depois, ainda de manhã, era a vez da garotada tomar conta. A maioria pegava os trocados que juntava e corria para a venda comprar doces ou brinquedos da antiga. Bolas de gude, pião, pipas e jogar no "furadinho", uma espécie de bingo em que você comprava um número e furava aquele número em um tabuleiro prateado, então, de acordo com o número que marcara, saia uma bola na parte de baixo, que indicava o prêmio que ganharia. Na maioria não se ganhava nada, o jogo sempre pertence à casa. Mas acho que o mais divertido era o sonho do que poderíamos fazer se ganhássemos um daqueles prêmios fascinantes expostos ao lado do "furadinho". Brincadeiras e sonhos compunham a manhã da venda. O horário do almoço, normalmente, era um horário morto. A venda ficava vazia e Mozart aproveitava para comer ali mesmo atrás do balcão a sua marmita, que Dona Zulmira trazia para ele. Nunca esqueci o cheiro daquela marmita, parecia plástico queimado, era horrível, me dava ânsias de vômito, enquanto ele devorava avidamente aqueles "petiscos" fedorentos. À tarde e à noite a venda passava a ser dominada pela confraria masculina, os homens enchiam a venda, seja para beber ou jogar conversa fora, muitos encostavam o cotovelo no balcão e ali ficavam por horas, bebendo e conversando. Tinha, é claro, aqueles que só ficavam com um copinho da "mardita" na mão sorvendo o líquido ácido aos poucos. Saíam carregados lá pela madrugada, mas era a sua "diversão".
Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi o "Caderninho" de "Seu" Mozart. Anotava tudo que vendia e faturava no caderno. Grande parte dos moradores do morro tinham seu nome naquele "caderninho", no futuro, se alguém pudesse recuperá-lo, poderia fazer uma tese sobre o consumo das favelas naquela época, só examinando aquele "caderninho", que não importava se no início ou no fim do ano, sempre tinha uma aparência gasta e destruída, mas sempre mantido ao lado do balcão. Lembro bem que Mozart não deixava ninguém chegar perto dele, uma vez roubamos o "caderninho" e ele nos perseguiu o morro inteiro e chamou até os "guardas" do posto para nos pegar. Ele ficou, realmente, desesperado com o roubo do "caderninho". Era como sua vida estivesse ali dentro.
Mozart era folclórico, havia se transformado em um mito para os moradores, pois era o mais velho morador que todos ali lembravam. Parecia, para todos, que ele estava ali há anos, bem antes da chegada do primeiro morador. Na verdade, Mozart estava há 25 anos no morro, sendo que 23 tomando conta da venda. A venda tinha a aparência de estar do jeito que ele comprara. Meu pai me falou, que quando ele era pequeno, tudo na venda de "Seu" Mozart era exatamente igual a como está agora. Nada havia mudado! Mentira, ficara mais sujo e mais escuro. Era uma das muitas peculiaridades da venda, sempre parecia mal-iluminada, já não sabia se era escuro porque estava sujo ou se tinha a impressão de sujo pois sempre estava escuro. Era como o Tostines!
Foi quando um grande rebuliço começou a acontecer na frente da venda, Mozart estava convidando à criançada para um jogo. O jogo era a demolição da imensa geladeira de madeira que ocupava metade da venda. Era uma imensa parede de madeira com algumas portinholas com alumínio no meio, onde ficava guardado tudo que era refrigerado. Aquilo era um imenso elefante, sujo e fedorento que diminuía o espaço e todos reclamavam do seu cheiro, quando Mozarto tirava uma cerveja ou um pedaço de presunto de dentro. A brincadeira seria um prêmio para a criança que conseguisse destruir seu lado da imensa geladeira primeiro, cada uma receberia uma pequena marreta e uma pá para encher o carrinho com o entulho retirado. Não podia perder aquilo, quantas vezes fiquei olhando para dentro daquela imensa geladeira, enquanto ele tirava o picolé que havia comprado de dentro, principalmente, o de milho verde, muitas vezes comprava o picolé ou o refri apenas para dar uma olhada lá dentro. Nós, as crianças, discutíamos por horas o que deveria existir lá dentro. Monstros, guloseimas, sujeira ou todo tipo de fantasia infantil percorria elétricos e agitados cérebros em crescimento, cada um com uma idéia mais estapafúrdia que a outra.
Fui selecionado para a demolição. Começaríamos por cima! Subimos uma escada e começamos a dar pancada, sem ter muita noção, não fazíamos estrago quase nenhum na imensa madeira escura da geladeira. Carlinhos, que era o mais forte, foi o primeiro a conseguir arrancar um pedaço e fez um barulho enorme na venda fazia de "Seu" Mozart. Vazia! Era a primeira vez que percebia que a venda estava completamente vazia, não tinha absolutamente nada dentro, nem mesmo os potes de vidro onde ele colocava os doces ou os imensos sacos de farinha abertos em cima para à venda no varejo. Marquinhos colocava mais um pedaço da geladeira no chão. Quando consegui arrancar o primeiro pedaço, a minha visão foi aturdida com o pedaço da parede totalmente mofado e de cheiro insuportável. O trabalho seria nojento! Apesar da brincadeira ser uma disputa com direito à prêmio, todos estavam se divertindo e provocando uns aos outros. A cada descoberta que fazíamos, seja na parede liberta, seja de dentro daquele imenso buraco negro que era a geladeira, um gritava para o outro informando o que descobrira. Todos queríamos partilhar aquele memento único, que não sabíamos ser o fim de uma era. A geladeira veio totalmente abaixo. Mozart deu o prêmio para o Carlinhos e nos mandou para casa, mas todos queríamos ajudar a retirar o entulho. Ninguém foi para casa, limpamos tudo em uma imensa brincadeira de criança. Lá pelas quatro estava tudo pronto. Mozart baixou a porta corrediça de alumínio, uma modernidade que se fez necessária com a mudança no perfil dos moradores. Fechou o trinco e deu um longo abraço nos amigos mais chegados, percebi que algumas das mulheres estavam chorando. Nós não entendíamos aquilo.
Mozart veio até nós e trouxe um monte dos doces que tinha na venda. Deu um bocado para cada menino e menina da rua, passou a mão nas nossas cabeças e sorriu docemente. Era um bom velhinho! Todos gostavam muito dele! Era parte do patrimônio e história do morro, a vida de quase todo morador poderia ser contada por ele. Foi testemunha ocular de tudo que havia acontecido no morro por quase três décadas. Mas, agora... estava se despedindo.
No dia seguinte, uns homens chegaram e derrubaram com marretas a porta de alumínio da venda. Corri para a casa e gritei para minha mãe que estavam arrombando a venda de "Seu" Mozart. Mamãe mandou eu me acalmar, ninguém estava roubando nada. "Seu" Mozart havia vendido a venda e aqueles "moços" com marreta eram empregados do novo dono. A porta e grande parte do interior da venda foi posto abaixo. Na verdade, ficou apenas as quatro paredes de sustentação. Colocaram uns tapumes na frente e começou um festival de "bateção" lá dentro, gerando todo tipo de especulação da criançada sobre o que seria. Esquecemos do velho Mozart em menos de uma semana. Quando os tapumes foram tirados, foi revelada uma moderna padaria em seu lugar. Clara e com balcão de vidro. Novos doces, novos pães e marcas que só víamos em supermercado. Parecia, a todos, que havia apenas benefícios. Tudo era muito limpo... muito perfeito. Mas algo me chamava a atenção... nunca mais senti o delicioso cheiro de café moído na hora, agora comprava um saquinho quadrado em que o café vinha à vácuo, do qual nunca conseguia sentir cheiro algum. Muito menos um cheiro delicioso. Os doces... nunca mais foram tão saborosos e nem tão diversificados, muitos desapareceram e nunca mais retornaram. Havia muita coisa boa... mas também havia seus pontos negativos.
No dia seguinte a inauguração, chegou a notícia: "Seu" Mozart havia falecido. Ninguém nuca soube o motivo... acho que à maioria nem foi no enterro, a casa dele não era no morro e ninguém sabia onde era. Sabíamos apenas que... uma era chegara ao fim!

10 novembro 2007

Poesia - Água da Neve

Há imagens que são únicas e expressam mais que palavras, é o assunto de nosso poeta em seu texto desta semana.

ÁGUA DA NEVE

PRECIPITA-SE AO SOL
COMO A CRISTALINA ÁGUA,
QUE SE LARGA DA NEVE
EXPULSA PELO CALOR.

FAZ-SE CONFIRMADA A SUA PRESENÇA,
E RETÉM OLHARES
QUE IMÓVEIS
PARECEM EMBALSAMADOS.

O FINO VENTO
QUE QUEBRA A ESTÁTICA
DO MOMENTO,
É APENAS AQUELE
QUE PRODUZES AO RESPIRAR.

E O CHEIRO IMAGINÁRIO
QUE EXALAS,
SÃO MOLÉCULAS DOMINANTES
QUE TOMAM O AR,
E LEVA-TE A ESTAR PRESENTE
ONDE AR HOUVER.

O RIGOROSO LIMITE DA PELE
QUE TE CONDUZ À POSSIBILIDADE DO VISÍVEL
ESPELHA-TE EM INCOMPARÁVEL IMAGEM
À QUAL SE RENDE O UNIVERSO.

E O DESENHO QUE LHE DA FORMA
E LHE ESCULPE EM TALHO ÚNICO,
AGASALHA TUA ALMA INDOMÁVEL,

QUE SERENAMENTE SELVAGEM
ESCAPA PELOS TEUS OLHOS,
E EMBEVECEM
AQUELES QUE A COMTEMPLAM.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Sabedoria, substantivo feminino

Diferente dos contos anteriores, este falará de uma situação vivida por uma mulher, na qual pouca será dito sobre ela, pois o marcante na história é o marco das consequências que se seguiriam após os fatos relatados. O fato está romanceado, mas buscando ser o mais fiel possível da verdade, pois esta é a história da última intelectual mulher no período de mil anos do início do cristianismo, após sua morte, nenhuma mulher de real relevância histórica surgiu por mais de mil anos. Consequência do nascimento do Salvador dos Homens.

A turba se reúne no meio da cidade sob a liderança de Pedro. Nas sombras, o Patriarca Ciro indica o alvo e a vítima: o alvo será a Biblioteca, esta deverá ser totalmente queimada e nenhum livro deverá sobrar, tudo tem de virar cinzas; a vítima, a mulher demônio de nome Hypatia, não deverá mais ver a sua dourada luz solar. Portando as instruções de seu mestre terreno, Pedro volta para a multidão reunida, agora para realizar o trabalho de seu Senhor.
Freneticamente exorta a multidão contra o antro do demônio, que espalha mentiras sobre Nosso Senhor. Espalha veneno em forma de papéis sem importância e significado, deixando o mais sagrado de todos os livros relegado ao esquecimento. "Como uma mulher pode comandar homens?" grita para multidão. Inflama a indignação masculina frente a força feminina. A turba grita em aprovação e seu ódio destila o desejo de alcançar a Glória Divina. Tochas são acesas, paus e pedras, pequenos instrumentos de metal e uma raiva descontrolada são reunidas pelo ajuntamento de vingativos Homens de Deus.
Na Biblioteca, as Filhas da Biblioteca, lideradas por Hypatia, são avisadas sobre a reunião que acontece na cidade. Os motivos, os desejos e a motivação, são inexplicavelmente claros, mas o objetivo é incompreensível para todas. A destruição de um lugar sagrado do saber. A queima e destruição da reunião da inteligência humana por séculos! O que pretendem com isto? "A escuridão!" responde a filosofa e matemática. Ela está certa, apenas uma luz deverá iluminar a humanidade nos próximos séculos e não será o saber intelectual e nem mesmo a razão humana. Pois foi proclamada a Era das Trevas em nome da Iluminação Espiritual.
As Filhas da Biblioteca preparam para defender sua "fé" e seu "credo". O primeiro grande problema são as deserções dentro do quadro da Biblioteca, já que muitos homens não tem a força de caráter suficiente para enfrentar a própria morte em defesa de algo tão insubstancial como livros. Outros abandonam a Biblioteca, não por covardia, mas por não aceitarem ter um mestre de sexo feminino. "Elas deveriam estar tomando conta de seus maridos e filhos e não interferindo nos assuntos do Senhor!" O abandono é o caminho mais curto para aumentar a força da turba ignorante que ruma para destruir sua única salvação. Os únicos a prontificar-se a ajudar a defender a Biblioteca, são os sacerdotes de uma religião contrária, mas que sempre primou pela preservação da alma humana, através do saber.
As defesas são armadas, a turba chega e a luta pela defesa de ideais tão diversos tem início. As Filhas da Biblioteca defendem seus muros com todo o vigor possível, mas os representantes da intolerância crescem a cada memento. Os reforços da ignorância só tendem a crescer e crescer, enquanto os paladinos da razão desaparecem na mesma velocidade. Podemos dizer com toda certeza: Deus está do lado da ignorância! A primeira linha de defesa caí! As portas da imensa Biblioteca não resistem as constantes investidas cegas do inimigo. A venda nos olhos os ajudam a ser cada vez mais destemidos, principalmente, tendo seus líderes incentivando cada avanço de uma posição estrategicamente segura.
As defesas vão caindo uma a uma. Os Homens de Deus alcançam os primeiros tomos, que são imediatamente queimados sob gritos eufóricos: "Não deixem nenhum! Que tudo vire cinzas em nome de Deus!" Os livros rapidamente são reduzidos a uma massa disforme de cinzas escuras no chão e a fumaça da sabedoria da Luz do Mundo é transformada em névoa negra, que vaga pelos corredores e contamina a alma dos defensores da vida terrena, enquanto, destemidamente os incendiários sobem nível a nível dentro da Biblioteca, destruindo tudo e todos em seu caminho. A invasão do Templo de Oração ao lado da Biblioteca é rapidamente realizado, sacerdotes são assassinados, relíquias quebradas, tudo que contém algum valor é levado pelos fiéis da ignorância. Alguns já desistem de seu intento, pois alcançaram uma Graça mais relevante dentro do Templo e não podem esperar para "curtir" a tão sagrada graça alcançada.
As filhas da Biblioteca defendem seu lar e as salas de aula, Hypatia tenta manter suas "meninas" unidas e fortes, mas já sabe o desfecho desta cruel história. Para Hypatia, o pior é o sinal que está sendo emitido por todo o Império, é o fim da razão, o fim do sentimento, o fim do saber, o fim de uma vida voltada para o bem, não mais será propagada novas técnicas para curar os doentes, para construir edifícios e até mesmo falar sobre Deus. A Luz do Mundo está prestes a se apagar. O farol, que por séculos iluminou o mundo, deixará de existir em poucas horas, todas elas sabem disso. Não podem esperar ajuda externa, pois a nova religião conquistara corações e mentes das pessoas de maior poder na mais bela cidade do Egito. Hypatia olha ao seu redor, fumaça e destruição para todos os lados. Nunca mais terá alunos percorrendo aqueles corredores em busca de conhecimento e sabedoria. Nunca mais a mulher poderá sentar à mesa com homens do mesmo níveis para discutir os destinos da sociedade... da humanidade. Nunca mais a mulher terá voz no desenvolver da humanidade, nunca mais a mulher será o repositório da sabedoria da Terra. As mulheres serão a partir de agora, meras escravas do patriarcado. A Luz do Mundo está caindo pesada sobre todas as capitais do Mundo mediterrâneo!
O som das pancadas nas portas do último refúgio das Filhas da Biblioteca começa a ficar ensurdecedor. A primeira fissura já dá pra ser notada. Ela se alarga e cede, não há mais defesa... não há mais futuro... não há mais avanços... só existe a morte, decretada com o nascimento do Salvador dos Homens. O pecado original será punido com a morte, já que não soube qual era o seu lugar no plano de existência divino. Algumas das mulheres tentam se defender, mas não há como! São muitos... são fortes... são inspirados pelo ódio Sagrado. As mais belas e mais novas são tomadas pelos invasores, suas vestes são rasgadas e formam filas para expurgar de dentro delas o Pecado Original. Eles expurgam uma... duas... Três... cem vezes. Algumas já estão mortas pela humilhação sofrida, nada mais sentem em seus corpos abusados e torturados. As mias velha tem um destino melhor, são decapitadas de imediato, ou então, esfaqueadas. Morte instantânea!
Hypatia assiste a tudo, infelizmente, não de forma impassível, sofre ao ver tudo que construiu e produziu ao longo de sua vida ser tragado pelo ódio divino do Salvador do Mundo. A cada atrocidade sofrida por uma de suas irmãs, seu coração sofre e uma estaca é fincada em seu coração. Ela fica prostrada e pede misericórdia, não para ela, mas para suas irmãs. O divertimento não pode parar, pois o trabalho de Deus é incessante. O choro aflora com força, a última imagem da vida de Hypatia é o sofrimento físico e mental sem fim a que suas irmãs e companheiras são submetidas. O líder chega e a levanta do chão, puxa seu cabelo e força assistir a tudo. São horas de tormento, mas que estão apenas no início. O início para todas as mulheres da humanidade.
Após a morte e estupro da última das Filhas da Biblioteca, a levam para fora. Assiste a Biblioteca arder em chamas. Seus muros desabam nas águas mediterrâneas e a fumaça negra anuncia a morte do saber para a humanidade. Um símbolo vivo do que mais importante o homem havia realizado até ali... vira cinzas. Os gritos de júbilo ecoam pela noite. As tochas são erguidas e os homens começam a rezar em agradecimento a Deus por uma vitória esmagadora sobre os mentirosos que o negam. Pedro gargalha para o brilho rubro de seu trabalho sagrado. Chama alguns de seus homens mais chegados e pede os instrumentos para o ritual de respeito e humildade para com Deus.
Uma fogueira é acesa em frente da filosofa Hypatia. Suas roupas são arrancadas e jogadas nas chamas. Depois os livros que ela escreveu sobre matemática e filosofia, também. A deitam no chão e vários homens começam a estuprá-la seguidamente, sem dó e nem piedade, mas não há matam. Mantida viva para a seção de tortura continuar. Seus ossos são quebrados e seu corpo é mutilado com auxílio de conchas marinhas. A pele e a carne arrancadas são jogadas na fogueira do respeito. Os ossos são limpos e jogados ao mar. Quando o sol nasce. O trabalho sagrado está quase completo. Pedro vira para turba e ordena: "Agora, subam nos destroços deste lugar maldito e coloquem uma cruz, como símbolo vivo da infinita bondade de Deus para com os homens e do único e verdadeiro Deus, que trouxe a salvação para nossas almas. Ele que é a Luz do Mundo!"

04 novembro 2007

Poesia - Dicotomia

Máscaras, quem não as usa no seu viver diário? Quem de nós não esconde algo que não deseja ver revelado. É uma dura batalha manter na superfície aquilo que desejamos mostrar para o mundo à nossa volta. Não nosso verdadeiro interior, mas apenas a máscara que usamos em sociedade, para fazer o convívio ser mais fácil e confortável, não importando quão desconfortável é usar a máscara. Nosso poeta nos fala deste díficil convívio com a máscara do dia-a-dia.

DICOTOMIA

Melhor talvez se vestisses de negra fuligem,
A repugnante aparência,
Sem a incomoda mesclagem
Que o conduz à fatal dicotomia.

Em conforto viveria,
Pois a falsa esperança
Por ti nutrida, não lhe exporia
Em constante ridículo
De renegar parte sua
Tão desnuda e visível.

Salvo estaria do desgastante embate
Contra a outra metade de si próprio,
Metade que suportas,
E desesperadamente tenta ocultar,
Até mesmo do frio espelho,
Que cruelmente
Aponta-lhe sempre
A porção que não queres ver.

Corre por todas as suas longas noites
Em busca da confirmação
Da sua segunda metade,
Que lhe sobrevém em sonhos
E lhe desperta em pesadelos.

Quer lhe dar corpo,
Quer que a suave luz da branca neve
Que vos é um inalcançável objetivo,
Apague a cinzenta mescla que lhe
Cobre a existência,
E transborda-te de vergonha.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

03 novembro 2007

Boogie Woogie - Baile Funk

Existe uma dicotomia Favela-Bairro, que põem as pessoas das favelas e morros em um campo adversário aos moradores das adjacências, mas a realidade é que todos são réfens do mesmo mal, não importando o local onde vivem, os perigos e os verdadeiros inimigos são os mesmos. Este conto da uma pequena amostra disto.

As ruas Central e Visconde Delamare são os eixos principais do morro, ficando perpendicular uma da outra. Apenas uma pequena travessa as une, formando o que todos os moradores apelidaram de: Largo do Telefone. Lá, ficavam os únicos "orelhões" do morro, para atendimento de todos os moradores em uma época onde telefone era artigo raro. Este local foi transformado em ponto de encontro de todos sendo moradores ou não. O comércio floresceu ali e retirou a importância do Largo do Campinho, antes o ponto central do morro.
Maria da Glória construiu sua casa no Largo do Telefone a mais de 30 anos atrás, logo após se casar com Joaquim Madeira, um alfaiate de ascendência portuguesa. A casa era modesta e pequena, com a chegada dos filhos, ficou ainda menor. A solução, como sempre no morro, foi o crescimento vertical da moradia. Hoje, a casa tem três pavimentos para abrigar uma família de seis membros: três filhos, o marido, o cunhado e ela.
Sábado era sempre um dia agitado e cansativo, em que Maria da Glória e Joaquim aproveitavam para cuidar das coisas da casa. À noite, ambos ficavam em frente da televisão curtindo a escassa programação familiar e relaxando da estafante semana. Mas aquele sábado seria diferente, seu sossego de sábado seria interrompido. O filho mais novo chegou da rua contando uma novidade, haviam fechado todos os acessos do Largo do Telefone com cavaletes e uns garotos do tráfico tomavam conta. Maria da Glória ficou preocupada, pois algum tempo atrás, o local foi escolhido como palco para a guerra entre quadrilhas rivais e policiais. Sua casa sempre sofreu com isto, não importando o dia que fosse. Havia até se acostumado, pois sua casa nunca fora atingida de forma séria que danificasse objetos ou ferisse pessoas da casa, mas era um motivo a mais de preocupação. O estranho era a presença de cavaletes, nunca fizeram parte das batalhas ali travadas. Mas ela ficou alerta e pediu a todos os membros da família para não saírem de dentro de casa naquela noite.
Lá pelas seis, apareceram uns caminhões e umas pessoas esquisitas. Subiram em um poste de luz e puxaram um fio de lá, logo haviam puxado diversos fios de diversos postes de luz e o Largo já estava ficando cheio daquele pessoal esquisito. Logo depois, um pequeno caminhão entrou na rua, tiraram os cavaletes e pararam logo na entrada do Largo. Abriram a traseira e diversos objetos eletrônicos, que Maria da Glória nunca vira antes, começaram a sair de lá. Ela decidiu não ficar olhando muito, pois alguns dos "garotos" poderiam cismar com ela. Entrou e fechou a janela do térreo.
Lá pelas oito, o filho mais novo, que tinha futuro como jornalista, entrou correndo e gritando para ela e o pai fossem até a janela do terceiro pavimento. Quando abriram, não conseguiram ver nada, pois havia uma espécie de muro tomando toda a janela. O menino gritava excitado: "São caixas de som, mãe! São caixas de som enormes!" Caixas de som!?!? O que iriam fazer ali no Largo aquela noite, se perguntava Maria da Glória. O marido queria sair para perguntar, mas ela o desencorajou, pois os "garotos" poderiam "levar a mau" a atitude dele e 'Sabe-se lá o que podem fazer estes meninos!', ponderou Maria da Glória.
O Largo começou a encher de gente jovem. Uma garotada vestida com roupas mínimas e alvoroçada, gritando a esmo. Logo abriram uma barraca de cachorro-quente e cerveja em uma esquina, ambulantes começaram a cruzar o Largo oferecendo diversos tipos de bebidas e alimentos. A barulheira crescia desesperadamente, Maria da Glória nem podia assistir a novela das oito na Globo. Aquilo a irritou: 'O que estes meninos vão fazer aí, hoje?'
De repente, a casa começou a balançar e um som ensurdecedor tomou toda a residência. Eram dez da noite, hora de gente de bem estar na cama, mas o som não deixaria ninguém nem ao menos ficar deitado. O marido enlouqueceu e começou a gritar pela janela para as pessoas do lado de fora, na rua, mas do que adiantava. Nem dentro de casa conseguiam ouvir o que ele gritava, imagine lá fora. Uma voz anunciou o evento da noite: um Baile Funk. Estavam organizando um baile funk em frente de sua casa, deixando a todos loucos e mal começara o tormento, pois estavam apenas testando o som.
Lá pelas onze horas, a festa começou. Maria da Glória que pensava em se deitar para dormir, não conseguia nem chegar perto do chuveiro, pois a água caia em todos os lugares do banheiro, menos em cima de quem estivesse tomando banho. O som agora reverberava por toda a casa e sacudia a todos, mesmo quem não estava interessado em dançar e muito menos ouvir o funk "rolando solto" na noite. O Dj anunciava a programação e a presença de um monte de moços com nome engraçado de MC disso e MC daquilo, nunca ouvira o nome de nenhum deles e muito menos sua música.
O filho mais novo trocou de roupa e queria ir lá pra fora para: "Curtir a balada!" Maria da Glória respondeu: se você quer badalar não precisa sair e só ficar parado na sala que o som balança você e a casa inteira. Os primeiros gritadores, ops, cantores iniciaram o programa daquela noite. O som, que seria o mesmo a tocar por toda a noite, era um bate-estacas na cabeça de Maria da Glória e Joaquim, que já haviam desistido de tentar dormir. Rezavam para aquele balanço infernal não destruir as janelas e nem um objeto cair devido a potência daquelas caixas monstros lá fora.
Além do som ser ensurdecedor, a música monótona e repetitiva, as letras das músicas eram ainda piores. Eram sobre crime ou sexo, sexo ou crime, a única coisa que mudava eram os locais citados pelos tais de MCs. Maria da Glória fez um passeio forçado por todos os pontos da periferia do Rio e Niterói, e ouviu falar sobre lugares que nem ao menos sabia que existiam. Os gritadores, digo, os cantores falavam da sua realidade dos morros e favelas, mas principalmente, faziam apologia ao crime. As meninas que cantavam, diziam coisas que deixariam sua avó ruborizada de vergonha, além do mais, depreciavam a si mesmas com letras em que se ofereciam para fazer coisas, que toda a mulher odiava, mas os garotos amavam.
A tortura durou horas, os MCs se revezavam no papel de carrasco e seu aprendizado forçado da nova realidade da juventude carioca, a deixou horrorizada e envergonhada. Maria da Glória não conseguia compreender o amor dos jovens lá fora por aquela balbúrdia sonora e por sentimentos confusos. Os gritos atravessaram a noite e a madrugada inteira. Sem participar da festa em pessoa, Maria da Glória teve a festa entrando por sua porta em bom som.
Quatro da manhã pareceu ser a hora da libertação, mas foi apenas um ledo engano, pois ainda faltavam recolher todo o equipamento e ir embora. Quando o sol já estava caminhando para o nascimento, Maria da Glória conseguiu ver novamente o Largo do Telefone. Havia sujeira para todo o lado, um cheiro fétido de urina e "otras cositas más" tomavam o ar. O fedor era semelhante a um grande depósito de lixo. Ninguém ficou ali para limpar, fizeram o que quiseram e se mandaram.
Noite sem dormir, mau cheiro e um saber, que a partir daquela data, ensinaria a amar a Funk Music ou então o caminho mais rápido para mudar de residência, pois os sábados nunca mais seriam os mesmos.

28 outubro 2007

Poesia - Invencível Fragilidade

Nosso poeta nos traz a força do detalhe e a fraqueza da vida em mais um de seus belos poemas.

INVENCÍVEL FRAGILIDADE


VIGOROSO ESPAÇO QUE SEPARA
A VAGA PLENITUDE,
DA INOCENTE VONTADE DE TÊ-LA.

DESFIGURADO CORPO, QUE PENDE NO ESPAÇO,
ATÉ QUE FAMINTOS ABUTRES
O DEVORE,

E O ESQUELETO, SEJA ENTÃO LIMPO,
EM PUTREFAÇÃO,
POR INVISÍVEIS EXÉRCITOS
DE CARNÍVORAS BACTÉRIAS.

CORREM AS ÁGUAS SOBRE O SEU LEITO DE TERRA
POR ELAS MESMAS CAVADOS,
SEGUINDO A INEXORÁVEL FORÇA
DA ENERGIA POTENCIAL,
ATÉ POR FIM SEREM ENGOLIDAS
PELA GIGANTESCA INÉRCIA
DO NIVELAMENTO DO MAR.

PARA ONDE CORREM AS ÁGUAS DO MAR?
SENÃO APENAS SE REVOLTAREM
CONTRA A PRISÃO IMPOSTA
POR SEU ETERNO DESTINO,

E SE ATIRAREM COMO QUE SUÍCIDAS
CONTRA OS ROCHEDOS
QUE AS POLICIAM NOITE E DIA,
E RENASCEM A CADA INSTANTE
OXIGENADAS PELA BRANCA ESPUMA.

NASCE UM FILHOTE DE BEIJA-FLOR,
NA ÁRVORE DE MAUS FRUTOS,
QUE ANTES SERIA AO FOGO LANÇADA,
MAS A FRAGILIDADE E O ESPLENDOR DO NINHO,
PROTEGE A VIDA DA GROTESCA ÁRVORE.

SEUS ESPINHOS FURAM MEUS OLHOS.
É O PARADOXO DA VIDA,
ORA SE FORTALECENDO COM O TEMPO,
ORA PELO TEMPO SE DEIXANDO VENCIDA

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Mais Mulher

Há mudanças de comportamento que são inexplicáveis, a competição entre adolescentes é uma delas. Os valores mudam com uma velocidade fantástica, transformando a vida de todas à sua volta. A pior delas é a gravidez na adolescência, por motivo banal, como veremos a seguir:

Competição feminina é feroz! Leva as mulheres as últimas consequências de seus atos, independentemente da idade. Sabe, tenho duas belas sobrinhas com a mesma idade problemática: 15 anos. Para todas as pessoas... é a idade da estupidez. Infelizmente, quem a vive... não pensa assim. Então, "bate mais cabeça" do que seria necessário. Poderiam ouvir um pouco mais os mais velhos, mas... são velhos, como podem saber alguma coisa. Pelo menos, é o que eles pensam. Assim, minhas sobrinhas acabaram seguindo o caminho da total e completa burrice.
A lógica diria, como mulheres... da mesma família... com a mesma idade... e estudando no mesmo colégio... deveriam ser amigas. Mas o que lógica tem a ver com isto? Nada. Por este motivo, ambas eram adversárias ferozes no colégio. Disputavam do cara a coroa até o namorado. Faziam contagem de tudo: dos vestidos que usavam, das amigas que tinham e até mesmo das notas que tiravam. A competição poderia ter se tornado algo saudável, mas não. Tudo descambou para a mais completa besteira. A disputa por quem era a mais "mulher". Nem ao menos tinham uma idéia do que aquilo significava.
O primeiro critério para saber quem era a mais"mulher", foi a do bom gosto nas roupas. Escolheram algumas meninas para julgar de ambos os lados e a cada dia da semana vinham com uma produção totalmente diferente. Vestidos, sapatos, saias, bustiês e tudo mais que pudesse chamar a atenção de todos. O resultado foi um empate.
O segundo critério foi saber quem era a mais madura das duas. Neste critério, não precisava ter competição, pois nenhuma das duas tinham um pingo de maturidade, como todas as mulheres adolescentes do mundo, este é um critério "sine qua non" para ser adolescente: não ter maturidade. Deveria acrescentar: não ter cérebro, também. Incrível, já fui adolescente um dia e me achei o máximo. Meu Deus, que absurdo! As atitudes tomadas durante uma semana foram julgadas pelas mesmas amigas para saber quem era a mulher mais madura das duas. O resultado foi idêntico: empate, novamente.
O terceiro critério só poderia ser o pior deles: quem era a mais bonita das duas. Primeiro, avaliaram a opinião das amigas sobre a beleza e a sensualidade de ambas. Depois avaliaram o charme e o carisma de cada uma. Uma venceu em beleza e sensualidade e a outra venceu em charme e carisma. Ficou faltando a última hipótese: quem os garotos achariam a melhor. Foi feito um censo entre os meninos para quem era a melhor "mulher" das duas. Não souberam responder. Alteraram a pergunta, então, para quem eles desejavam mais como mulher. O resultado ficou em empate novamente e sem nenhuma indicação clara para que lado pendiam.
A disputa esfriou entre as amigas, que desistiram daquele jogo imbecil. Apesar das primas, não. A disputa começou em silêncio. Uma disputa entre quem era a melhor com relação aos namorados que conseguiam. A primeira que "ganhasse" o melhor namorado venceria a disputa, mas não era nada explícito. Era implícito no olhar e nas conversas entre as amigas comuns delas. Deixavam sempre transparecer que faziam tudo, uma em função da outra. Se uma delas se apaixonasse por um "carinha", a outra ia lá e dava em cima dele. Se uma olhasse para um garoto, a outra ia lá e dava toda a "bola" possível, até o cara se mancar. Chegavam mesmo a se jogar no colo dos garotos que interessavam uma a outra. A disputa era insensata, pois não havia um pingo de sentimento envolvido naquilo. Os garotos iam e vinham sem nenhum sentido e sem nenhum remorso.
A disputa chamou a atenção dos pais que conversaram com as filhas individualmente. Negaram tudo! Não estava acontecendo nada disto, as duas se amavam. Nunca fariam algo assim. É impensável. Impensável, com certeza! As duas mal se falavam. A disputa avançou para o "roubo" de namorados. Uma conseguia um namorado. A outra ia lá e dava em cima até conseguir tirá-lo da prima. As duas chegaram as vias de fato na saída do colégio e chegaram com as roupas rasgadas em casa. Deram uma desculpada tão esfarrapada quanto suas roupas. A disputa chegou ao seu auge das hostilidades. Era o princípio de uma guerra. Foi quando uma delas, arrumou um namorado que ela realmente gostava.
Esqueceu a prima e passou a vivenciar aquela nova sensação. Sentiu seu mundo modificar e ficar melhor, achava tudo maravilhoso e perfeito. Infelizmente, a guerra já havia sido deflagrada. A outra prima continuou a sua cruzada. O alvo de seu bombardeio era fácil e previsível: o novo namorado. Iniciou um processo de sedução pesado para cima do garoto, que não entendia o porquê de repente ter ficado tão interessante. Quando a primeira descobriu o que a outra estava fazendo, foi confrontar e pedir que aquilo tudo terminasse, pois estava mesmo apaixonada pelo garoto e não estava mais interessada em nenhuma disputa tola. Difícil de acreditar, não? Tanto tempo perdido em escaramuças e táticas diversionistas, você não pode esperar que o outro lado aceite o armistício sem desconfiar. A provocação continuou, até que a primeira disse com "todas as letras", para a prima: "Eu sou bem mais mulher que você! Ele nunca vai me trocar por você!" Isto na frente de todos no colégio. O ódio subiu a cabeça das duas, a outra virou de costas e foi embora sem dizer nada.
Dois meses depois, o namorado da primeira chegou na casa dela e disse que teria de terminar tudo, pois a prima dela estava grávida dele e ele teria de assumir a criança. O desespero tomou conta dela, que saiu correndo e foi até a casa da prima. Quando chegou lá, entrou entempestivamente no quarto da prima, que estava olhando umas peças de enxoval para criança. "O que você fêz?!?" repetia sem parar, gritando com a prima. "Provei que sou mais mulher que você!".

20 outubro 2007

Poesia - Sem Neblina

Há tanto que nos atrapalha a vida. Há tanto que nubla nosso caminho. Qual a perspectiva de superar tudo isto e ter um futuro brilhante pela frente? é isto que pede o nosso poeta para sua vida.

SEM NEBLINA

NÃO QUERO MONTES NEM ÁRVORES,
NEM EDIFÍCIOS, NEM POSTES,
A SE INTERPOREM
ENTRE O MEU OLHAR
E O INFINITO HORIZONTE.

NÃO QUERO BARREIRAS
A INTERROMPEREM DOS MEUS OLHOS,
A LUZ QUE UM DIA QUERO FAZER VOLTAR.

INVERTENDO O SENTIDO DOS VETORES,
QUERO SIM,
QUE OS RAIOS DE LUZ
PARTAM DOS MEUS OLHOS,

NÃO PARA ATINGIREM AS NUVENS
MAS PARA ULTRAPASSAREM AS ESTRELAS,
E TOCAREM O CÉU,

NÃO PARA ATRAVESSAREM O OCEANO,
MAS PARA RASTrEAREM AS SAVANAS DA ÁFRICA,

NÃO PARA CLAREAREM A NOITE,
MAS PARA OFUSCAREM O SOL;

NÃO PARA APENAS ILUMINAR O CAMINHO,
MAS PARA DISSOLVER AS TREVAS
E RECRIAR A VIDA

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Porta de Saída

Futebol é muito mais que um esporte no Brasil. É, também, uma forma de pessoas de baixa renda e pouca esperança, alcançarem sua cidadania.

Futebol, paixão nacional! Motivo de orgulho para todo um país, também, é uma porta de saída para milhares de jovens que buscam uma vida melhor nas favelas brasileiras. O futebol proporciona a milhares de garotos a oportunidade de crescerem e tornarem-se cidadãos com esperança. No morro, isto aconteceu algumas vezes, mas a oportunidade mais bem sucedida foi a história de Alberto.
Ele era um garoto franzino e sem muita expectativa até chegar aos doze anos. Descobriu a bola e foi descoberta por ela. Levado por seu irmão mais velho para uma pelada em um campinho de barro, próximo no morro. Entrou para completar o time e mostrou que sabia o que fazer com ela e ela gostava demais de sua parceria. Dali em diante, foi uma ascensão meteórica. Entrou para um time do morro e jogou uma partida de apresentação contra o time da Portuguesa, que disputava a segunda divisão do Campeonato Carioca. Fez dois gols e deu passes para mais alguns. O treinador da Portuguesa o convidou para jogar no time de de juniores local, mas o irmão mais velho percebeu que seu irmão poderia alçar vôos maiores. O levou para o Flamengo, time do coração de toda a família, mas alguns dirigentes não ficaram impressionados e mandaram os garotos voltarem quando houvesse uma "peneira". O irmão de Alberto não ficou satisfeito, procurou um amigo que conhecia alguns treinadores de futebol e colocou seu irmão no Olaria, que disputava na época a Primeira Divisão do Carioca. Lá, o garoto alcançou grande destaque rapidamente. Foi preparado fisica e mentalmente para jogar futebol. Passou a ter uma alimentação apropriada e seu corpo explodiu, bem como suas possibilidades de vida.
Depois de dois anos de destaque no Olaria, Alberto foi convidado para fazer um treino no Fluminense, no Centro de Treinamento, recém inaugurado, em Xérem, Baixada Fluminense. O técnico adorou o garoto e o incorporou ao time de juniores. A equipe, então, passou a dar uma bolsa de custeio para o garoto poder continuar a ir treinar e viver melhor. Ajudou aos pais e acabou sendo destaque no vice-campeonato de Sub-17 que o Fluminense conquistaria naquele ano. O que rendeu a Alberto sua primeira namorada.
Era Cláudia, uma menina do morro, que sempre vivera saindo apenas com "playboizinhos" do Jardim Guanabara, mas percebera a oportunidade de futuro do promissor garoto. Todos passaram a vê-los a desfilar pelas ruas da favela de mãos dadas. O garoto sentia-se como um balão inflado. Jogando em time grande e desfilando de braços dados com a mais bela menina do morro, o destacavam na multidão. Todos passaram a admirá-lo e respeitá-lo. Quanto melhor sua carreira era conduzida, mais respeito o garoto adquiria entre seus pares.
Veio então o primeiro contrato aos dezessete anos. Junto, veio primeiro empresário. Também, começou a pressão da família e da namorada para deixarem o morro. O problema estava em que Alberto não queria sair de lá. Respeito e admiração entre os garotos com quem convivera sua vida inteira, era um grande estímulo para ele. Decidiu permanecer, mesmo o irmão e o empresário tentarem convencê-lo do contrário. Continuou a jogar as peladas no mesmo campinho de barro onde tudo começara. Ainda ia a praia para jogar vôlei e namorar, correndo como a criança que era pelas areias sujas das praias da Ilha do Governador. Não conseguia ver os limites curtos de seu mundo infantil.
Entrou em um clássico carioca e foi destaque. Ganhou as manchetes dos jornais e das redes de televisão. Mostraram sua vida simples e seu amor pelo morro. Também, mostraram a opulência que vinha alcançando com suas vitórias. Mostraram, também, a "grana" que passaria a ganhar. Incentivaram a cobiça e a inveja alheia. Seu irmão acabou sendo assaltado e espancado por moradores do morro que ele, tanto, amava. Na visita a seu irmão no hospital, era a própria máscara da decepção. Não conseguia se conformar com que havia acontecido. Não conseguia acreditar em tudo aquilo. No próximo jogo, seu prêmio serviu para dar entrada em um apartamento, para onde toda a família morava. A namorada quis acompanhar, mas a família foi contra: "Vocês ainda não são casados", diziam todos. Ele continuou indo ao morro, mas fica no "pé", não subia. Esperava a namorada lá embaixo.
Sucesso, dinheiro, longe de suas raízes e afastado muito tempo de sua família e amigos verdadeiros. Alberto despencou. Perdeu dinheiro, perdeu respeito, perdeu sua vaga na equipe. Acabou sendo encostado na equipe e passou um ano sem atuar. Sem direção e perspectiva, acabou retornando para o modesto Olaria, onde teve de recomeçar toda a sua carreira. Mas agora, não mais na companhia de Cláudia, que havia optado por alguém com melhores "perspectivas".
Conheceu uma enfermeira no novo clube, se afastou da família e trocou de empresário. Sua vida novamente deslanchou! Sem ouvir a mais ninguém que dizia o "amar", foi em frente e acabou conseguindo uma transferência para um país asiático onde receberia o suficiente para não mais ter preocupações com questões financeiras.
No dia de sua partida, encontrei-o no pé do morro olhando fixamente para seu topo. Perguntei se havia algo errado e a única coisa que ele foi capaz de dizer: "Devo tudo que tenho a este lugar. Sem ele não seria nada, mas com ele não serei nada." Olhou triste para mim e foi embora para nunca mais retornar.